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Assuntos de Escrita - Investir na Escrita por Marcelina Gama Leandro

Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Marcelina Gama Leandro, autora do blog: Fénix. Podem também visitar a sua página no Goodreads.

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Investir na Escrita


         A pedido da Olinda Gil, irei deixar aqui algumas breves reflexões sobre a escrita e da experiência de publicar. Começo por fazer um breve resumo do meu percurso literário, se tal se pode chamar aos breves momentos que tive no mundo da escrita.
          Comecei a escrever em 2009 com o único intuito de postar num fórum de livros do qual fazia parte, e onde existia uma secção dedicada à escrita. Não havia cá ambições de publicar em livro, era algo que fazia porque me dava prazer. Comecei a escrever umas vinhetas e uns minicontos com muitas mortes e sangue e a postar no fórum. Divertia-me a temática, a reacção que a leitura provocava nos leitores e continuei. Surgiu na altura um concurso que aceitava contos, desenhos e poesia e que anunciava publicação em papel. Concorri e fui seleccionada e independentemente da problemática que envolveu o livro, gostei e foi a minha primeira publicação. Como na altura a editora não ofereceu um exemplar a cada autor, a crítica foi feroz e a editora foi categorizada como Vanity. Sinceramente foi-me quase indiferente, e sim comprei um exemplar, mas fui publicada e fiquei bem classificada, e isso incentivou-me a continuar a escrever.
         Como consequência escrevi bastante, os primeiros textos intragáveis como é óbvio, depois aprendi a rescrever e fui melhorando. Como em tudo, o treino faz a diferença, podemos já ter predisposição para alguma das “artes”, mas como costumo dizer aos meus filhos, para sermos muito bons em algo, teremos de trabalhar muito e treinar mais ainda, seja para ser tenista, jogador de polo-aquático (no caso dos meus dois rebentos), quer para escrever bons contos.
         Continuei a escrever e foi crescendo então a vontade de voltar a publicar em papel em vez de deixar tudo “na gaveta”. A minha primeira tentativa foi direccionada para concursos de Câmaras, ainda tentei três ou quatro, mas os entraves são muitos, primeiro gastamos dinheiro no envio dos exemplares e na impressão das cópias, já que nenhuma aceita submissão via email. Depois os tempos de espera são enormes, os temas demasiado vagos, o júri demasiado heterogéneo, e depois os prémios em dinheiro já estão maioritariamente “entregues”. Como precisava de praticar e queria feedback, e como neste tipo de concursos, nunca ouviria uma palavra critica sobre o trabalho e como a qualidade ainda não estava no ponto necessário, repensei as minhas opções. Por isso, a fase seguinte foi procurar alternativas, por esta altura começaram a surgir fanzines e revistas em Portugal à procura de submissões. Tentei as que encontrei na net e tive algum sucesso e também muitos emails não respondidos.
         Podem-se já convencer de uma coisa, pior que um “não”, é mesmo a indiferença. E foi o que eu encontrei mais, não respondem. Nem para dizer que receberam, nem para dizer que não estão a aceitar submissões ou que não querem contos não solicitados. Nada.
         Mesmo assim, o importante é não parar. Não parar de escrever e de tentar. Existem inúmeras alternativas e cada “aspirante” a escritor deverá decidir qual a melhor para si. É possível criar o próprio blog e publicar os trabalhos na net, é possível criar ebooks (pdf, mobi e epub) e pôr em sites (pagos e não pagos), há concursos que aceitam submissões para antologias de contos, para publicar em papel ou em ebook. Há editoras a receber submissões. Há também opções para quem quiser pagar a sua edição, tudo é aceitável, desde que cada autor saiba o que vai fazer. É preciso ter muito cuidado com qualquer uma das opções. Em TODAS há hipóteses de correr mal. Publicar online trás o perigo de roubarem os vossos trabalhos ou de ninguém ler o que tentam publicitar com tanto carinho. Nos concursos podem ser publicados e nunca receberem o que vos prometeram. Podem também publicar numa edição com pouco mérito e de ficarem conotados a um mau trabalho. Se pagarem pela vossa edição, podem acabar por ter nas mãos um trabalho rude, com má capa ou má impressão e sem a devida edição, podem nunca ser distribuídos em lojas, ou de receberem em casa 400 exemplares e não terem ninguém que vos ajude nas vendas. Enfim, como em tudo informação há e muita é só preciso investigar.
         Publicar é como investir num negócio (sem a parte de poderem ficar ricos), e para que o negócio corra bem, é preciso pensar antes de agir.
  • Tem um bom produto → Tem um bom romance/conto para enviar para algum lado?
  • Precisão de fazer uma pesquisa de mercado → Quais as editoras existentes no mercado? Quais as que publicam o vosso género de literatura? Aceitam submissões de trabalhos?
  • Quanto dinheiro tem para investir no vosso negócio → Muito, pouco ou nenhum?
  • Posso investir dinheiro? → Posso pagar uma revisão, tradução ou uma capa?
  • Quanto tempo pode “perder”? → Blog, facebook, twitter? Publicitação, divulgação, entrevistas, emails, etc.
  • Como publicitar? Onde?
  • Quem vai participar/ajudar?

As dúvidas e dificuldades existirão em todo o vosso percurso, o que vos posso “aconselhar” é: não tenham pressa, nem se precipitem. Apenas tem uma oportunidade para criarem uma primeira boa impressão. Se o vosso primeiro trabalho for mau, as dificuldades irão duplicar ou triplicar.
Boa sorte e boa escrita.
 

Assuntos de Escrita - Escrever por Escrever e Escrever para Divulgar por Sara Farinha

Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Sara Farinha, autora do blog: Sara Farinha. É autora do romance Percepção.
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Escrever por escrever e Escrever para divulgar

Há muito que a divulgação daquilo que escrevemos está entregue a nós próprios. Longe vão os tempos, se é que alguma vez existiram de facto, em que as editoras e os meios de comunicação social se interessavam pela produção literária a nível nacional. Cada vez mais recai sobre nós, escritores e artistas, parte importante da promoção dos nossos trabalhos.

Hoje, é preciso ter conhecimentos numa série de áreas para além da escrita em si mesma. É necessário perceber um pouco de publicidade, de marketing, do funcionamento das redes sociais e de escrever com outras vozes que não a de autor literário.

Ser-se escritor passa, também, por gerir uma ou várias plataformas que ajudem a divulgar o nosso trabalho. Uma delas é (criar e manter) um blogue. Gerir um espaço virtual deste género implica fazer uso de uma verdadeira plataforma de autor, desenhada para expor o que escrevemos, quem somos, aquilo em que acreditamos e defendemos enquanto pessoas e escritores.

Escrever num blogue, mesmo num que é assumidamente a nossa plataforma de autor, exige toda uma nova voz de escritor. Não usamos aquela que nos distingue em prosa, nem a que nos identifica em poesia, ou em qualquer outro género literário que seja da nossa preferência. Aqui, aventuramo-nos com a nossa própria voz e usamos o espaço virtual para chegarmos aos leitores e, em simultâneo, damo-nos a conhecer como indivíduos.

Como tenho afirmado, em outros artigos e entrevistas relacionadas, a blogosfera tem um papel cada vez mais relevante na divulgação do nosso trabalho. O mundo paralelo formado por blogues e redes sociais, administrados por pessoas dedicadas à promoção dos valores culturais no nosso país, são uma ferramenta de valor inestimável nesta busca por exposição dos nossos escritos.

Como blogger, coisa que faço desde 2007, tenho testemunhado um crescimento espantoso de colegas. Muitos deles trabalham com afinco e dignificam-nos, acrescentam valor sem pedir nada em troca.

Na minha experiência pessoal, acredito que o meu cantinho virtual muito tem contribuído para divulgar os meus escritos. É uma espécie de guia da minha realidade diária que agrega as várias facetas do meu percurso como escritora, autora publicada, poetisa e aprendiz constante desta arte que se faz de palavras.

Sei que muitos há que não gostam ou acreditam que escrever num blogue possa trazer algo de bom para a sua escrita. Eu discordo em absoluto. Manter um blogue significa crescer como autores e como pessoas, aprender a lidar com a exposição pública, abrir as nossas portas à crítica, escrever com regularidade, partilhar aquilo que pensamos, analisar o caminho sob outra perspectiva e permitir que novos desafios nos encontrem.

Um blogue, para além de ajudar a divulgar a minha escrita, ajuda-me a escrever mais e melhor. Responsabiliza-me por aquilo que crio. Incentiva-me a partilhar o que sei e a aprender constantemente. Mas, acima de tudo, ensina-me que só o esforço regularmente exercido traz benefícios, um deles, a enorme satisfação pessoal.

Assuntos de Escrita - O que pode dizer um rapaz normal com quase nenhuma experiência na área sobre a nobre arte da edição - Carlos Silva

Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidado Carlos Silva, autor do blog: Abracadabra. Tem textos publicados em diversas publicações (ver aqui), e-books disponibilizados gratuitamente (aqui) e ainda o romance Urbania em formato digital. É ainda editor da revista Lusitânia.

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O que pode dizer um rapaz normal com quase nenhuma experiência na área sobre a nobre arte da edição
por Carlos Silva

 Há cerca de um ano atrás surgiu-me uma ideia: criar uma publicação amadora que visasse o incentivo da criação de literatura especulativa de raízes portuguesas. Não histórias que apenas se passassem em Portugal, ou que as personagens tivessem nomes portugueses, mas que o leitor ao se debruçar sobre elas sentisse que se estava a falar deste rectângulo a oeste da Europa.
 Foi assim que surgiu a Lusitânia. Uma publicação que reúne uma antologia de contos que teve tanto sucesso que neste momento estamos a trabalhar para organizar uma nova a sair ainda este ano. Tal como agora, abrimos concurso público para que todos os escritores em língua portuguesa pudessem enviar as suas propostas (se quiserem participar com um texto ou arte gráfica vejam aqui como: http://revistalusitania.blogs.sapo.pt/702.html) e foi aí que a porca torceu o rabo.
 Foi ao sentar-me para ler as dezenas de textos submetidos que pude olhar para os confins do abismo negro do mundo editorial. Ainda que o meu olhar só conseguisse penetrar nos primeiros metros brumosos, o que lá vi marcou a minha perspectiva sobre o assunto. Imaginem-me então, defronte ao browser, com uma caneta numa mão, um bloco de post-its na outra  e uma pergunta na cabeça: Quais serão os critérios pelos quais decidirei a inclusão de um texto ou não?
 À primeira vista, parece um problema de solução simples. Escolhe-se pela qualidade literária, pois claro! Será assim tão claro? É óbvio que a qualidade literária é o factor mais importante, especialmente num projecto da natureza da Lusitânia (arrisco-me a dizer que o factor mais importante para uma editora comercial é a vendibilidade da obra). Primeiro de tudo, o texto tem de estar bem escrito. Se um ou outro erro tipográfico é desculpável, já frases mal construídas a torto e a direito é um passo directo para a rejeição. Em segundo lugar, talvez uma das maiores influências do Carlos leitor no Carlos editor, dou muita importância à história que está a ser contada. O tema é interessante? A história tem conteúdo? Se sim, o autor soube aproveitar bem o conteúdo da história?  De nada importa se a personagem tem uma infância trágica se isso não for explorado de modo algum. Perdoem-me o classicismo, mas uma história tem de estar pejada de pathos. Claro que se pode escrever uma história excelente sobre um homem a lavar meias sem que nada aconteça de interessante. É possível, agora ser provável encontrar uma pérola dessas... Ainda dentro da qualidade literária gostaria de falar de como a história é contada. Pode-se ter um tema interessante, bem explorado, mas cuja linguagem ou ritmo não fazem jus ao que se quer transmitir. Não há receitas perfeitas. Há contos que pedem uma linguagem mais lírica, outros mais directos, uns que começam com um ritmo alucinante, outros que só têm a ganhar com um final calmo. A todos os escritores: vejam bem o que a história pede e escolham as palavras, o comprimento das frases, a pontuação e as figuras de estilo que mais a enriqueçam. Não se fiem em fórmulas feitas.
 Lidos os contos todos e feita a triagem pela sua qualidade (que invariavelmente é algo subjectivo e, por mais que se tente fugir, é feito por comparação de uns com os outros) sobra-nos ainda um mundo inteiro de factores que é preciso ter em conta. Podemos ter muitas flores bonitas, mas isso não equivale a um bonito ramalhete. Por via da natureza do projecto, na Lusitânia, uma das coisas que há a ter em atenção é o enquadramento no tema. O texto até pode ser bom, mas se não reflectir a temática que a revista quer incentivar a explorar, não podemos incluí-lo, estaríamos a trair o nosso objectivo. No entanto, com esta abordagem é também preciso cuidado para evitar cair no lado oposto da questão. Longe de nós querer publicar textos que pareçam carros alegóricos ou caricaturas.
 Outro factor é a questão da originalidade. Se em alguns casos funciona bem, noutros é um pouco decepcionante abrir uma antologia e todos os textos serem sobre o Vasco da Gama ou passados na idade média. É algo que na Lusitânia tentamos escapar e que já nos fez escolher um texto em detrimento de outro.  Uma das coisas que reparámos na primeira vaga de submissões, foi uma grande de quantidade de textos em contexto rural ou no passado, denotando que ainda há alguma resistência ao conceito de ficção especulativa contemporânea e/ou urbana. Talvez seja pela maioria dos media a que temos acesso, relacionados com fantasia e Portugal em simultâneo, sejam o recontar de lendas do nosso folclore.
 Por fim, gostaria apenas de focar ainda mais um ponto, um pouco afastado da escolha dos textos, mas ainda dentro da temática. Quando se edita algo num objecto físico, as limitações do próprio objecto (e orçamento para o produzir) acabam por influenciar os textos. Quando se criou a Lusitânia, um dos objectivos foi criar uma boa razão de preço/benefício. Trocando por miúdos, queríamos fazer algo barato e bom. Daí lutarmos para o produto final rondar os 2€. Ora, isso limita o espaço disponível para textos e querendo nós uma diversidade de textos moderada em cada número, acaba por limitar o número de caracteres máximo para cada texto. Daí sermos maçadores com o limite superior de palavras. Só por razões excepcionais poderemos aceitar um texto com o dobro dos caracteres pedidos (claro que se passarem um bocadinho ninguém olha). Curiosamente, ainda não recebemos nenhuma submissão em formato de micro-conto.
 É com estas considerações todas que nos debatemos cada vez que temos de seleccionar textos. Porém, considero que é algo muito positivo para o meu crescimento pessoal enquanto leitor, escritor e editor. O fim do prazo para a segunda vaga de textos é dia 31 de Maio e mal posso esperar para aplicar tudo o que aprendi com a edição da antologia anterior para conseguir um ainda melhor produto final. Ah, sim…porque nós não nos limitamos a dizer sim ou não aos autores. Independentemente de a resposta ser positiva ou negativa, tentamos dar sempre a nossa opinião e sugestões de melhoria, para que os autores possam crescer connosco nesta grande aventura que é a Lusitânia.

Assuntos de Escrita - Quotidiano Fragmentário

Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Gina Grangeia, autora do blog: Gina, a mulher que tem um blogue.

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Quotidiano fragmentário

A Olinda pediu-me que escrevesse um artigo sobre o modo como 'escrevo aspetos do quotidiano de modo fragmentado'. Pois bem, vamos a isso.
O meu modo de escrever é tipicamente o de alguém que regista diariamente alguns momentos bons e/ou especiais com o intuito de não os esquecer, conferindo-lhes um toque pessoal e transmissível. Sou uma memorialista, é o que é.
Observo, observo muito, é bem verdade, aliás: sempre fui assim, e nos últimos anos tenho vindo a expor copiosamente as minhas impressões num blogue, repartindo-as em pequenas doses. Os momentos que quero registar são muitos, aparecendo amiúde, num frenesim constante, tanto que às vezes quase enlouqueço por tudo querer escrever, parece que a minha cabeça vai explodir com tanta informação, o que é comparável às pipocas estalando em lume brando, inchando e multiplicando-se, querendo saltar fora da panela.
Observadora como sou, devo dizer que inventar personagens não me apraz. Sei lá, sou apegada à realidade, não sei descrever o imaginado, e ademais o mundo fornece-me pessoas e estados d'alma suficientes para uma enciclopédia que nunca terminaria, ou, para ser mais concisa: nunca terminará. Há que ter calma e não deixar que se me expluda a cabeça, a ver se não me cessam os registos, portanto...
Como já se percebeu, adoro esta atividade literária de escrever episódio aqui e ali, e por junto possuo uma enorme vantagem: trabalho numa loja, na qual lido diariamente com toda a classe de pessoas, visitando algumas vezes os lares dos clientes, o que me oferece uma diversidade incrível de momentos que considero registáveis. Claro que também registo cenas da minha vida, e aí o blogue assemelha-se mais a uma espécie de diário online, mas talvez mostre um lado da minha personalidade mais sadio e bem-disposto se escrever acerca dos outros.
E vou escrevendo os ditos fragmentos do quotidiano, escrevo no computador da loja, ou aponto nos papelinhos, quando me sento nas esplanadas ou nos bancos de jardim, tanto faz, anoto as minhas pipocas, a bem dizer é isso, e depois, quando posso, desenvolvo, mas não sem que por vezes me pareça andar sempre à roda da mesma conversa. Tenho de marimbar, bem sei, tenho de me afastar da ideia de maçar os leitores com as minhas pipocas, tenho de não me autocriticar, tenho de escrever e acabou a conversa. E escrever pode ser muito bom, envolve-me num brilho, que difundo posteriormente a meu bel-prazer. Quero com isto dizer que consigo tornar o mundo superinteressante, caso o escreva. Eu consigo. Se for ilusão minha, pouco me importa.
Acerca da veracidade dos factos que apresento: uns são crus de tão verdadeiros, outros há que estão verdadeiramente melhorados ou não teriam piada, que comigo é tudo na base da verdade... Só por dizer que também minto, como agora.

Assuntos de Escrita - Printing on Demand

Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Rute Canhoto, natural de Alcácer do Sal, autora de Perdidos e do blog com o seu nome.

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Print on Demand por Rute Canhoto

Muito sinceramente, não faço me recordo de como encontrei a Euedito; creio que foi através de uma pesquisa aleatória no Google, mas não tenho a certeza absoluta. Contudo, recordo-me perfeitamente das razões que me levaram a optar por esta solução.
No final de 2009 tinha escrito um pequeno conto de Natal e queria publicá-lo. Não queria enviá-lo para uma pequena editora, pois já tinha publicado o meu primeiro livro através de uma e sabia que o processo tinha alguns obstáculos com os quais não me queria deparar. A título de exemplo, não queria ser obrigada a adquirir um certo número de exemplares a preços demasiado altos e queria manter os direitos de autor da minha história, para poder fazer o que quisesse com ela. Assim sendo, comecei a procurar uma solução mais prática e à medida dos meus interesses.
As gráficas que consultei pediam demasiado dinheiro, pelo que iniciei uma pesquisa na Internet. Acabei então por encontrar a Euedito, que apresentava preços bastante atrativos; podia ainda ter o livro à venda no site deles e mantinha os meus direitos de autora. Achei que não tinha razões para recusar a oportunidade e avancei. Que desvantagens há em optar pelo Print on Demand? A maior desvantagem é termos nós mesmos de tratar das questões como o ISBN, o registo da história, o marketing e fazer chegar os livros às livrarias. Dá muito trabalho, mas tudo se consegue com empenho e persistência. Basicamente, acabei por ter tanto trabalho na promoção deste conto quanto tive aquando do lançamento do meu primeiro livro por via de uma editora mais pequena!
Como não tive razões de queixa da primeira experiência, resolvi lançar o meu mais recente livro, intitulado “Perdidos”, igualmente através da Euedito. Enquanto as editoras ditas “grandes” não me derem uma oportunidade, vou continuar optar pelo Print on Demand, aliado à vertente digital dos e-books, que se encontra em franca expansão.



Assuntos de Escrita - Entrevista a Napoleão Mira

Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidado Napoleão Mira, natural de Entradas, Castro Verde, autor dos livros Fado e de Ao Sul e do blog Pulanito.

Entrevista a Napoleão Mira por Olinda Gil

Não é todos os dias que conheço alguém ainda mais falador que eu. Para dizer a verdade, contive-me muito, até porque eu era a entrevistadora (nem faria sentido de outro modo). A tarde de domingo foi uma tarde muito bem passada, a conversar sobre livros e sobre escrita na avenida principal da vila de Entradas (e que é também um jardim). Agradeço muito ao sr. Napoleão pelo tempo que me cedeu e pela fantástica entrevista, feita inicialmente via internet, mas que terminou presencialmente. A entrevista acaba por ser apenas uma amostra de tudo o que falámos, mas o discurso foi demasiado fluido para que conseguisse passar tudo para o papel (ou neste caso, para o ecrã).

Para iniciarmos a nossa entrevista, poderia contar o seu percurso na escrita antes de Fado?
Desde muito cedo que a escrita faz parte da minha existência. Na minha juventude participei nalguns projectos amadores. Publicações policopiadas de reduzida tiragem que me deixou o gosto pela divulgação dos meus escritos, ao tempo apenas poesia. Depois escrevi muito (como a maioria de nós para a gaveta!). Seguiu-se um interregno de muita vivência e pouca escrita, até que em 1998 decidi publicar em Entradas uma pequena revista que se veio a chamar O Trigueirão. Esta revista durou apenas dois anos, mas desde então não mais parei de escrever.
Incentivado pelo meu amigo António José Brito, fui tendo espaço nos órgãos de imprensa por onde este passou e para onde me convidava. Jornal O Campo, Diário do Alentejo, Correio Alentejo e Revista 30 Dias. Criei ainda o blogue Por Aí, inicialmente apenas para relatar as minhas viagens em bicicleta, mas que ainda subsiste apesar de uma menor intervenção da minha parte.
Em 2010 publiquei o livro de crónicas Ao Sul, uma obra resultante das publicações no blogue.
Em 2011 começou a germinar na minha cabeça a concretização de um projecto em forma de romance. Desse ruminar de ideias surgiu a obra Fado.

De onde veio a ideia para o livro? Ouviu de alguém a história, imaginou ou conjugou os factores?

A ideia para o livro surgiu de uma crónica que publiquei no primeiro número do Trigueirão. Tratava-se de um pequeno conto acerca dum emigrante, que tinha a meu ver, um final avassalador, final esse que reutilizei neste romance e que foi o ponto de partida para a escrita deste projecto literário.
A história foi crescendo dentro de mim, à medida em que os personagens nasciam e ganhavam vida. É claro que tinha um fio condutor para a história. Preservar a memória duma epopeia que se começa a esvair no tempo era também para mim altamente motivador, e assim, contar aos leitores a saga daqueles que, para ganhar a vida, tiveram um dia, que partir à procura dela pela calada da noite.
O tema era para mim fascinante, heróico até!
O argumento é imaginado, mas é, obviamente, influenciado pelos relatos que conhecia, que fui ouvir, pela pesquisa histórica do fenómeno e pelo desejo de escrever sobre um tema tão apaixonante e de que tão pouco existia no registo de romance.

Que pertinência ainda tem este tema nos nossos dias?
Na altura fazia mais sentido porque a situação política do país assim obrigava. Hoje em dia volta a haver emigração porque voltou a não haver oportunidades de emprego. Houve grande heroicidade nesse acto, o romance é louvor a essa memória. Continua a ser pertinente, apesar de circunstâncias diferentes, não só pela memória mas também porque o tempo de hoje voltou a ser tempo de partir.
Porquê uma narrativa passada no norte e não no sul?
Porque esta epopeia, sendo de todo um povo, é nas Beiras e em Trás-os-Montes que tem o seu epicentro. É aí que este drama tem o seu maior impacto no que diz respeito à emigração clandestina para França. Se repararmos a emigração a sul, é nestes anos sobretudo interna. A que se destina a outros países é organizada e legalizada já que os países de acolhimento não aceitavam clandestinos, nomeadamente a Suíça ou a Alemanha.

Como foi a abordagem junto das editoras para publicar o livro?
Para ser franco nem sequer o tentei. Preferi criar eu uma pequena editora, com os meus canais de venda, nomeadamente nos terrenos que conheço e através da Internet. Bem sei que venderei menos, que chegarei a menos leitores, mas sou eu que controlo o produto livro de A a Z , que assumo riscos e proveitos.
Reconheço que não tenho meios para chegar ao território natural do livro, o norte de Portugal, mas depois de sete meses no mercado as solicitações continuam a chegar e o livro sobrevive por si. Demorará mais tempo é certo, mas tem o seu gozo fazer paulatinamente o caminho a que está destinado. Gosto que os leitores descubram o livro e quem o quiser adquirir facilmente o poderá fazer através da Internet, a um preço mais barato que nas livrarias da moda, onde nem sequer me quiseram ouvir.
Tiques de monopolismo, que só me dão razões para os combater!

Como tem sido a experiência dos lançamentos dos livros e do feedback dos leitores?
Muito bom. Como não vivo da escrita, estou de algum modo satisfeito com os resultados. O Fado vai para a 2ª edição e é uma obra sobejamente conhecida. Em Castro Verde e Ourique é objecto de contrato de leitura nos agrupamentos escolares de Castro Verde, e segundo me dizem, de Ourique também . Hoje mesmo (01/12) tive uma interacção com alguns destes alunos que me colocaram questões verdadeiramente pertinentes acerca do mesmo. É isso que me realiza e me dá forças para continuar.

Como tem sido a gestão do blog depois de Fado?

O blogue Por Aí (2006), foi criado para durar enquanto andasse de bicicleta "por aí", mas os leitores fizeram com que se mantivesse ao longo dos anos. Com a chegada das plataformas da moda, os blogues foram um pouco relegados para as ruas secundárias da rede das redes. Irei continuar a publicar nele, mas de momento estou numa fase de recolhimento na minha concha; daí a pouca produção.

Será demais perguntar por projectos futuros?
O sonho comanda a vida, pelo menos a dos sonhadores, e eu, como bicho raro desta estirpe, hei-de continuar a sonhar. Hei de continuar a escrever. Estarei no próximo dia 5 no Clube da Palavra do Canal Q com alguma da minha poesia musicada, acabei de produzir um disco (que é um objecto cultural de relevância) para as Ceifeiras de Entradas, irei fazer algum spoken word por aí e em 2013 voltar a publicar novo livro de crónicas. Novo romance lá para 2014.

Assuntos de Escrita - Entrevista a Sónia Duarte


Assuntos de Escrita é uma rúbrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Sónia Duarte, co-autora na Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa. Fez parte da equipa do extinto DNJovem, suplemento do Diário de Notícias.
 
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Entrevista a Sónia Duarte por Olinda P. Gil
 
Para iniciares, podes fazer uma pequena introdução sobre o teu percurso no DN Jovem?



Tive dois percursos no DN Jovem: como colaboradora e como editora. Um veio extinguir o outro. Como colaboradora, descobri-o com a edição de 9 de Setembro de 1993 (julgava que tinha sido mais tarde, mas fui confirmar ao meu velho repositório em papel). Ia em viagem, fui tomar o pequeno-almoço a um café de estrada ocasional, e lá estava o suplemento de terça-feira enfiado no meio do DN. Lembro-me que comecei por enviar banda desenhada, recebendo comentário no “Isto é Contigo”. Durante dois anos não enviei mais nada, até porque não comprava habitualmente jornais. A 19 de Setembro de 1995, fiz segunda tentativa com um guache e, dessa vez, ganho prémio e a assinatura do jornal das terças-feiras. Inicialmente, enviava mais ilustrações do que textos, embora pouca gente, hoje em dia, me associe às artes plásticas. Passado pouco tempo de começar a publicar lá, o meu breve idílio foi transtornado, pois o formato do DNJ como suplemento em papel acabou (21 de Maio de 1996). Num dia em que vou entregar/levantar originais à Avenida da Liberdade, venho a conhecer a Teresa Sebastião (a pessoa responsável pela imagem online do DNJ) e o Manuel Diasque, com o seu afável optimismo, me pediu para continuar a enviar trabalhos e não ir atrás da maré dos avessos à Net. Apesar de, ainda hoje, muitos diabolizarem a nova tecnologia como principal causa da morte do DNJ, a verdade é que, como já disse noutros contextos – e a jornalista Helena Freitas publicou uma investigação bastante completa sobre o assunto - a Internet não foi mais do que um bode expiatório. É que a transição do papel para o digital não foi apenas uma actualização tecnológica, o que certamente teria sido benéfico, mas veio acompanhada de um desinvestimento progressivo e um golpe institucional no projecto: a equipa a tempo inteiro foi trocada por colaboradores a tempo parcial, o fundador e coordenador-mor foi afastado (o Manel passou para outro departamento do jornal), os recursos de Informática, Design e Marketing foram reduzidos ao mínimo, e a Direcção do jornal meteu, a partir desse momento, o DNJ "na prateleira". O Manel procurou preencher os novos lugares afectos ao DNJ com a "prata da casa", ou seja, com os colaboradores mais habituais do suplemento. Quando me junto à equipa editorial do DNJ em Fevereiro de 2001 (quase cinco anos após a migração para a Net), entro na qualidade de substituta do José Luís Peixoto, que fora convidado antes de mim, estivera lá umas semanas e depois recusara a posição. Reparti tarefas com a colega mais antiga na função, a Sandra Augusto França. O DNJ era um part-time a que sempre fomos dedicadas, apesar de todas as contrariedades e da estagnação a que foi votado. Oficialmente, não tínhamos autonomia para avançar com melhorias informáticas ou parcerias de Marketing, que competiam a outros departamentos, embora insistentemente os contactássemos com propostas, os nossos pedidos eram colocados de parte. As duas componentes, papel e online, coxeavam, e nós éramos as primeiras a ter noção disso, mas, apesar de tudo, reconhecíamos o valor de estar ali a fazer um serviço público que mais nenhum jornal fazia. No papel, a redução do espaço disponível foi sempre crescente: em 2001, admitia um editorial; em 2002, já só cabia uma chamada de atenção para a lista dos publicados; a determinada altura, houve um restyling do DN e a globalidade das páginas do jornal foi encurtada, passámos a dispor de ainda menos caracteres e acabávamos por preferir destacar as melhores ilustrações (porque, de positivo, a mudança de design trouxera a hipótese de publicar a cores); quando transitámos para o suplemento 6ª, novo estreitamento da área de conteúdos, com a agravante de, por vezes, termos de a dividir com um anúncio a meia página, ou, pior ainda, desaparecermos em favor de uma publicidade a página inteira. Quanto à componente online, o design nunca foi renovado, houve um esforço para adicionar novas secções de conteúdos (por exemplo, o Jota Mais), mas não se acrescentaram novas funcionalidades interactivas e de multimédia, que já eram correntes na blogosfera. Outro factor que contribuiu bastante para perder ou não ganhar mais colaboradores foram as sucessivas mudanças do dia de saída do DNJ, nem sempre devidamente anunciadas no jornal diário, o qual era, para muitos, a primeira ou a única forma de contacto com o projecto. O Manel, que constituía uma via directa de comunicação com as chefias, reformou-se pouco depois (em 2003). O DNJ resiste no período subsequente graças ao trabalho conjunto de quatro pessoas: eu e a Sandra, na selecção dos textos, e Fernando Ribeiro e João Galante, na selecção das ilustrações. Sem redefinição de estratégias e com uma avaliação inadequada, o DNJ manteve-se naquela situação indefinida de já não ser um suplemento (perdera as oito páginas e passara a “secção” de uma página), e também não ser um artigo de jornal diário (saía semanalmente). Os nossos colaboradores de então, desconhecendo a "idade do ouro" do suplemento, davam-se por contentes de ainda prevalecer aquele meio de comunicação de massas que dava alguma atenção a jovens autores. Houve episódios bizarros: quando o DNJ ainda saía regularmente, um colega de Redacção (António Valdemar), que nos via lá a trabalhar, escreveu um artigo falando da extinção do DNJ em 1996 (o ano da transição), quando ele durou, pelo menos, mais uma década. Alienação do redactor ou da própria Direcção do jornal? De qualquer modo, nem sequer poderíamos culpar uma Direcção específica, uma vez que passámos por várias, numa cadência bastante rápida, desde os tempos do já falecido Mário Bettencourt Resendes até aos dirigentes sob a alçada de Joaquim Oliveira. Foi uma época conturbada para o próprio DN, entre fusões, vendas e aquisições empresariais, com muita instabilidade hierárquica, com jornalistas, armários e computadores (incluindo um com o nosso Arquivo geral) a desaparecerem de um dia para o outro (e quase se eclipsou o emblemático edifício, quando se falou em mudar o DN para Moscavide). Por fim, incluíram-nos no interior de outro suplemento (o 6ª). Uma “espécie de suplemento“ enfiada dentro de outro suplemento? Eu e a Sandra pressentimos que vinha aí a machadada final. Recordo que, na altura, a Helena Freitas estava a principiar a sua tese de Mestrado sobre o DN Jovem e eu apressei-a a vir recolher informação antes que a máquina parasse para sempre. Passado algum tempo, adeus DNJ. É claro que não se deve ler esse fim isolado da evolução do próprio DN (que, consta, foi recentemente vendido a angolanos), da imprensa em geral e da conjuntura do país. Esse foi um dos anos fatídicos da crise, com milhares de empresas portuguesas a abrir falência. Ironia do destino: o DNJ atingiu a maioridade e, aos quase vinte e quatro anos, aposentou-se. Acompanhei a sua história - primeiro como colaboradora e depois como editora - durante a última metade da sua existência.

O vazio deixado pelo DN Jovem foi de algum modo preenchido?
Existe actualmente, em Portugal, algum jornal diário de renome - a marca DN tem quase 150 anos na praça e uma notoriedade assim não se cria de um dia para o outro - que dedique oito páginas às obras meritórias de escritores e ilustradores estreantes? Há a Ler 15/25, que cobre mais ou menos a faixa etária do extinto DNJ, mas tem uma abrangência distinta, sendo uma revista especializada... Se me perguntas se o vazio deixado pelo DNJ na minha vida foi preenchido, digo-te que esse vazio nunca se chegou a formar. Continuo a falar com toda a equipa tal como eu a conheci (o Manel, a Sandra, o Fernando, o João) e com vários outros colaboradores que ficaram como amizades para a vida. Partilhamos referências por e-mail, vamos às festas, exposições, espectáculos, lançamentos e sites uns dos outros, encontramo-nos num ou noutro evento cultural, acompanhamo-nos mutuamente... Sinto que o principal do DNJ não morreu - só se despiu da sua forma organizacional - não morreu, porque não é facilmente perecível: é feito dos afectos das muitas pessoas ainda vivas que por lá passaram e, quando elas morrerem, ficam as obras, muitas das quais referem a sua estreia no DNJ. Há uma página especial, que elaborei por ocasião do vigésimo aniversário do DN Jovem (24 de Maio de 2003), que mostra bem a extensão e a diversidade de talentos desta rede, e não couberam lá todos os nomes. No presente, ainda se organizam jantares para nos revermos, por exemplo, sábado passado, na Homenagem a Manuel Dias, estiveram representadas, do Sul de Portugal até ao Minho, gerações DNJ com vinte e quatro anos de diferença (do veterano Luís Graça à benjamim Olinda Gil).
 
 Existem hoje em dia várias revistas literárias em formato digital. Vêm de algum modo fazer as vezes do DN Jovem digital, ou na altura essa alternativa ainda era mais dinâmica? (Desculpa a minha ignorância, mas o facto de viver longe das grandes cidades afecta-me o conhecimento sobre isso).
A Internet coloca as grandes cidades e as aldeias no mesmo plano, o Primeiro e o Terceiro Mundo têm acesso à mesma informação (excepto no caso de bloqueios nacionais e sites de conteúdos pagos). É isso a Aldeia Global. Provavelmente, até conhecerás mais revistas digitais do que eu. Mas, como sugeri anteriormente, a mais-valia do DNJ era a notoriedade da marca, a garantia de seriedade, a visibilidade ante um público generalista de todas as idades. Podia ser o avô a comprar o jornal para ler os contos do neto, mas também um colega de trabalho a declarar “Li um texto teu no DN”. E imagine-se o que era miúdos com doze anos já com obras publicadas num jornal diário, conhecido de toda a gente, para incluir no portfólio... Actualmente, é bom haverem revistas digitais que façam pelos criadores emergentes o que os meios mais generalistas deixaram de fazer. Há projectos interessantes com linhas editoriais distintas: A Sul de Nenhum Norte, 365, etc. Estas poderão ou não ser mais dinâmicas, conforme os recursos de cada uma, e dependendo de as compararmos com o DNJ da 1ª fase (que promoveu viagens, feiras, encontros desportivos, recitais, exposições, antologias, etc.) ou o da 2ª fase...
Estiveste também ligada ao Na-Cama.Com, o primeiro blog colectivo em Portugal. Queres falar-nos dessa experiência e do que a distinguia em relação ao DNJ?
Eram projectos diferentes: um mais institucional, outro mais alternativo. Mas, tanto um como outro, representavam um excelente móbil para escrever e fico grata por ambas as oportunidades. O Na-Cama.Comsurgiu, salvo erro, no início do ano 2000, fundada por dois jovens do Instituto Superior Técnico. Em Setembro desse ano comecei a trabalhar numa empresa de telecomunicações rodeada de informáticos, entre os quais um dos fundadores desse blog, o Bruno Tiago Rodrigues, e outro engenheiro que me convidou a participar em 2001, o Rui Carmo. Adoptei um pseudónimo para esse efeito: chamava-me Amélia Postigo e algumas pessoas que me conheceram sob esse nome, mesmo depois de saberem o verdadeiro, continuaram a usá-lo, por força do hábito. Outro momento importante foi quando o designer Filipe Carvalho entrou em 2002 e renovou a imagem das várias “camas” e acho que fez um óptimo trabalho com a minha (uma cadeira em forma de livro aberto). Acabo por trazer para lá alguns colaboradores que conhecera através do DNJ: o Miguel Marques, o Rodrigo Francisco, tu, etc. Como, na altura, haviam poucos blogs portugueses online (a Internet chegara há pouco tempo a Portugal), o Na-Cama.Com reunia um número significativo de visitas e leitores fiéis, tendo sido mencionado pelo seu pioneirismo nos jornais Expresso (Nov. 2001), Público (Jul. 2002) e DN (Fev. 2003). Possuiu inclusive um carácter internacional, pois chegou a contar com a participação de Viviane Menezes, a primeira blogger do Brasil. Ainda se chegou a avançar com uma antologia de textos, mas a editora apoiante recuou por problemas financeiros. Tenho-a guardada algures.
Nos dias de hoje, qual consideras o melhor modo de quem escreve dar a mostrar a sua palavra?
Como não considero que a “palavra” pertença exclusivamente ao domínio da literatura, é fazer como as Pussy Riot ou como Lars Von Trier que, cada vez que lança um novo filme, cria um novo escândalo - não sei se ele faz isto de forma sistemática, sei que faz o que tem de fazer, e olha que conseguir ser expulso de Cannes com aquela idade é um feito! Por regra, a normalização é tanta que quem quiser romper com o provincianismo do estrelato (Fernando Pessoa queixou-se do “provincianismo português” e deu como exemplo Eça de Queiroz) tem de fazer a sua performance anti-establishment, um pouco como Sócrates a espicaçar os Atenienses para que não adormeçam ou a vanguarda a provocar a acomodada burguesia. É uma lei natural: a luz circula melhor no vácuo, nos intervalos da matéria. É preciso abrir esses intervalos. É preciso pessoas que abram intervalos, fendas, disrupções, nas escravidões instituídas, para que passe um pouco de luz nova. Enquanto houver palmadinhas nas costas e piscadelas de olho às convenções e aos chefes-de-escola vigentes, é mais do mesmo, é, por definição, a ideia feita, o cliché, o pré-conceito (pré-concebido). Claro que não chega uma pessoa pôr-se em bicos de pés para ter o seu tempo de antena - basta ver a felicidade dos que vão àquele programa antes do telejornal - é preciso depois ter algo para apresentar que faça realmente a diferença. Hoje em dia, há muito disso em todas as áreas - na arte, na literatura, na culinária, na música... - gente a pelar-se pelos seus cinco minutos de fama warholianos. Esta inflação do familiarismo comunitário - somos todos uma grande família -, se não tiver um objectivo mais construtivo do que formar consenso e dar espectáculo (para satisfação das empresas que retiram lucros elevadíssimos das tendências em massa), é uma indústria da redundância que forma pessoas e obras como produtos em linha de série numa prateleira de supermercado, todos paráfrases do mesmo... Faz-me lembrar aqueles dias em que passo pelo Facebook e vejo milhares de pessoas a publicar e comentar as mesmas notícias, a repetir aquilo que ouviram das agências da comunicação (que, por sua vez, se copiam umas às outras), e aí penso que se conseguiu inventar uma forma de comandar as mentes à distância... e é bem real. O agenda-settingé uma forma de programação das mentes humanas: hoje, a massa vai falar disto; amanhã, inoculamos-lhe aquilo pelos olhos e ouvidos adentro... Passa-se a ideia de que isto é “estar actualizado”, mas é propaganda mediática (dos “quarto” e “quinto” poderes). Às tantas, está-se é muito mais alienado, pré-ocupados com o cataclismo que aconteceu a milhares de quilómetros de distância, e, enquanto isso, nem somos capazes de reparar no que está a dois passos, por exemplo, que deitámos azeite a mais no prato do nosso filho ou que dissemos algo infeliz que magoou a nossa companhia ou que o nosso corpo nos pede para ir dormir e nós ali estamos a forçar a vigília frente ao écran. São fascismos também.
Os jovens estão em pé de igualdade em relação às pessoas mais velhas?
Quanto à possibilidade de se divulgarem? Sim e não. Por um lado, um jovem prodígio atrai mais as atenções. Por outro, um velho anda cá há mais tempo, tem mais contactos, mais experiência em matéria de relações pessoais. As duas faixas etárias têm as suas mais-valias, digamos assim. Em criança, aprende-se com muito mais facilidade. As crianças têm uma capacidade plástica incrível, maior elasticidade corporal e mental, são mais flexíveis do que os adultos, adaptam-se melhor a qualquer material, recurso, instrumento. Como ainda estão a construir hábitos e vícios, apropriam-se das coisas com maneiras novas. Envelhecer implica uma certa rigidificação psicossomática: não são só as articulações que ficam mais presas, é também a memória, vamos ficando mais lentos, duros... Eu diria que as crianças são superiores na improvisação, mas os mais velhos superam-nas na capacidade de integrar e elaborar pensamentos complexos. Por outro lado, as crianças estão completamente subjugadas aos mais velhos. Nascem prisioneiras dos sistemas dos seus pais e dos seus educadores. Têm de enfrentar e rebelar-se contra muitas proibições, censuras, barricadas, tapumes: não podes fazer isto, não deves dizer aquilo, etc. De certo modo, vivemos num mundo ao contrário: quando se está no auge da nossa inventividade é quando mais somos impedidos de fazer seja o que for (as leis, como sabemos, premeiam a maioridade). Ainda bem que nasci num mundo em que ainda não havia telemóveis nem GPS... Os miúdos são hoje muito mais controlados pelos dispositivos electrónicos (têm de ser mais criativos para os sabotar) do que eram no meu tempo de escola - mas, como a sua memória não conheceu essa época, aceitam-no como algo normal. Ser velho tem, por seu lado, essa vantagem na negociação das liberdades: já vimos muita coisa, temos maior poder de argumentação... De evitar, são aqueles jovens muito piores que velhos, “empenhados em moralizar toda a gente”, como replicou Álvaro de Campos aos estudantes universitários de Lisboa. Saem por aí de “lápis azul” em riste - um perigo!
Achas que, na literatura, é-se velho aos trinta? Sempre tive ideia que, na literatura, era-se jovem até mais tarde. Por exemplo, José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe, são considerados jovens escritores.
Há uma tendência legal e socio-económica para a infantilização da pessoa humana: é-se maior e independente cada vez mais tarde. Daí, todo o ressurgimento do kitsch, a bonecada, e a dependência do paternalismo de Estado... Mas não quero ir por aí. Tenho a idade que o corpo determina. Isso é uma coisa em que junto o Cristianismo ao Spinozismo, sem contradição. Reza a história que Jesus morreu aos trinta anos. Spinoza, por seu lado, no “Tratado Político”, defende uma lei em que só os que já têm trinta anos de idade poderiam ser elegíveis (para o poder). Em suma, chegada aos trinta - lembro-me do dia e da hora tal como uma pessoa se lembra de uma catástrofe - morri como cristã e atingi subitamente a maioridade política spinozista. Foi tudo muito rápido. Senti que mudei numa hora. Houve uma inflexão de curva. Em que é que esse acontecimento afectou a minha escrita? Naquele momento do fazer os trinta anos, foi como descobrir o Novo Mundo, e então percebi que tudo o que havia escrito até aí não era mais do que a antecipação inconsciente dum novo ofício que agora iniciava. Uma escrita mais real e sensível do que a anterior. Teve um certo carácter apocalíptico, porque, só ao fim de três décadas descobrir que afinal não era autora nenhuma mas o livro a re-escrever... é dramático. Por esta ordem de ideias, e respondendo concretamente à tua questão, aos trinta anos morre-se para a literatura e nasce-se para a escrita, é-se já muito velho para uma e ainda muito jovem para outra. As soluções do stylo - o eixo gravador, a que os árabes chamam “cálamo” e Salinger “viga” (seguindo o pensamento oriental) -, erguem-se sobre as questões do lege (ler, lei, Logos, razão). Escrever torna-se imperativo sobre ler (até porque a morte já bateu à porta, ganhamos a noção de que há pouco tempo para escrever tudo o que queremos e a ampulheta não pára de escoar os grãos). É, por isso, que aos trinta anos me tornei e-legível, quer dizer, modificando o sentido que Spinoza lhe deu, emergi do legível em que estava submersa. Mas suspeito que haja pessoas que passam pelos trinta anos sem se sentir “morrer” desta maneira, de qualquer modo, não posso falar por elas. A minha relação com o som também se transformou. Antigamente, chegava a consumir dez horas de rádio por dia. Agora é raro lembrar-me de o ligar, é como se só o silêncio (que não existe em absoluto, há o vento a roçar nas folhas e o bater do coração...) fosse música para os meus ouvidos; toda a música formalizada me soa a noise, até a música clássica cai nessa categoria. Mahler ou Rhys Chatham ou Buraka Som Sistema, é-me indiferente, oiço tudo com o mesmo entusiasmo quando quero “aquecer as articulações”, pois, a minha atracção pela dança aumentou geometricamente: o gelo não existe para quem dança. Quem quisesse fazer um pouco de psicologia, inventava-me logo um esgotamento. Nos dias que correm, apreciar o silêncio é visto como patológico ou como a antítese da liberdade de expressão... Ocorre-me Kafka: “Não diga isso, você não sabe a energia que reside no silêncio”.
A crise tornou a divulgação de novos textos mais difícil ou aguçou a criatividade de quem divulga?
Nunca foi tão fácil e barato divulgar um artefacto como na nossa época. Contudo, temos um problema que, anteriormente, devido à dificuldade de acesso aos meios, não existia. A divulgação muito facilitada e ostensiva produz o pólo oposto: como tudo se divulga e tudo se vulgariza, é difícil conseguir que algo invulgar se destaque. Distinguir-se no meio da overdose de informação que recebemos todos os dias por todos os meios (da TV ao Facebook, passando pelo e-mail e pelo word-of-mouth) é relativamente difícil. Há uma diluição de critérios. Não creio que a crise esteja a dificultar a tarefa, está é a incrementar a divulgação digital (em detrimento dos suportes tradicionais) por ser mais barata. Quantos sites existem na Internet - será que alguém sabe? É comum que uma pessoa disponha de uma série deles: blogs, redes sociais, Youtube, etc. O que vai servir de filtro numa imensidão dessas? Vamos navegando ao acaso, seguindo os amigos dos amigos dos amigos ou caçando palavras-chave num motor de busca? Esta super-abundância aguçará a criatividade? Tivemos milénios de superabundância da Natureza - isso aguçou-nos a criatividade? Só a dos indivíduos que a tinham especialmente aguçada. O resto será sempre o resto.
 Que conselhos darias a quem escreve e tem agora a mesma idade que tínhamos quando colaborávamos no DN Jovem?
Eu sou tão má a dar conselhos... Tem mesmo que ser? Olha, sejam genuínos. Borrifem-se para aqueles que vos querem “ensinar” a escrever, “ensinar” a pensar, “ensinar” a viver... Do ensinar ao aprender vai uma grande distância. Aprendam à vossa custa, porque não há outra maneira que seja genuína. Ninguém aprende a nadar antes de entrar na água, por mais “conselhos” teóricos que tenha recebido antes. Façam-se ao mar. Encontrarão correntes a favor e outras contrárias. Em qualquer caso, é preciso alcançar o Helesponto.
Para finalizar, queres dizer-nos o que tens publicado e quais os teus projectos em curso?
Publiquei mais de uma centena de trabalhos como colaboradora do DN Jovem, milhares de textos em blogs (no Na-Cama.Com e nos que se seguiram) e alguns contos nas revistas acima referidas, entre outras. Em livro, não tenho quase nada publicado: só três contos na Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, que me proporcionou, pelo menos, duas alegrias. Uma foi conhecer o Rui Costacomo poeta e coordenador (ninguém podia prever aquela morte...). Outra alegria foi ser traduzida para Árabe, uma língua que considero admirável pela sua estrutura, organizada por físicos, geómetras, músicos, astrónomos... Diz um provérbio árabe: «A sabedoria dos Romanos está no seu cérebro, a dos Índios na sua fantasia, a dos Gregos na sua alma, a dos Árabes na sua língua». Fiz uma ou outra tentativa mais para publicar, mas é preciso ter tempo e paciência para cortejar o mercado, para adular os moldes das “capelinhas” (cada uma com a sua cartilha de mandamentos sobre o que é “escrever bem”) e sujeitar-se aos procedimentos burocráticos (enviar exemplares pelo correio como se estivéssemos no século XVIII ou assinar contratos manhosos cheios de ardis em forma de cláusulas). Há por aí muito vendedor de ilusões a aproveitar-se de quem quer publicar em papel. Por seu lado, os meios de auto-publicação online são neat and simple. Como os gate-keepers já não detêm exclusivamente os meios de publicação e de promoção, os autores podem hoje negociar melhor os seus “direitos”, se bem que o conceito de “direitos de autor” é, em si mesmo, trágico-cómico: a presunção de alguém achar que um discurso provém originariamente do seu eu e não de um agenciamento colectivo de enunciação... Nem sei como é que um típico literato de Esquerda consegue, de forma consistente, reclamar “direitos de propriedade intelectual” e, ao mesmo tempo, ser “anti-capitalista”, pois, está a capitalizar (com o duplo sentido de “a troco de capital” e “apropriação pela sua capita”) algo que não pertence a uma cabeça específica. Concebo um nome de autor como a toponímia de um local (por exemplo, uma cratera lunar chamada Aristóteles), serve de indicação para o leitor se orientar numa paisagem cheia de crateras (um pouco como os viajantes imaginavam figuras nas constelações para se guiarem no deserto). A única diferença é que os autores são estrelas errantes, crateras itinerantes. Agora acharem que são donos dum fluxo discursivo... é como um vulcão a pretender-se dono do magma terrestre só porque saiu por ali e não por outro buraco qualquer. Tresanda a feudalismo e as royalties são o imposto que o vassalo semiótico tem de pagar ao senhor autoral. Daí até às patentes da Monsanto sobre sementes vegetais e carne animal geneticamente modificadas (“criações de autor”) é um saltinho... A senda da sujeição à autoridade é tornar tudo propriedade de um nomos (sujeito/marca/estado): até o subsolo (taxa de ocupação do subsolo)! Ambições territoriais. Tomara eu ter tempo para “alavancar” uma montanha de inéditos (não-éditos). Por estilo, sou fragmentária. Não me inclino a escrever romances, e não é por “preguiça”, como a Agustina atribuía ao nosso “país de poetas”, numa entrevista. Quanto maior a extensão, menor a compreensão. Kafka, que eu cito muito porque fiz uma tese de Mestrado sobre ele, também o diz no conto d’ “O pião”: «Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. (...) Acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia anti-económico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; assim sendo, só se ocupava do pião enquanto rodava. (...)». Less is more. É uma questão energética e material que está no epicentro da actual crise económica: a política energética global tem sido suicidária. Aí subscrevo Ivan Illich: “Tanto os pobres como os ricos deveriam superar a ilusão de que MAIS energia é MELHOR”. Ao esticar muito, o elástico parte... Espero não ter esticado muito a entrevista. Obrigada pelo teu interesse.

Assuntos de Escrita - O mapa para os leitores Beta

Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog, que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Liliana Lavado, que podem encontrar no blog Neuroses da Escrita 2.0 e é autora, entre outros, dos livros Inverno de Sombras e Inverso.

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“O mapa para os Leitores-Beta”
Leitor-Beta: leitor com acesso a um livro antes da publicação. A sua leitura tem como premissa uma colaboração com o autor para a revisão e edição do livro.
Se estás a ler este post é muito provável que estejas a escrever um livro ou a trabalhar numa história que já escreveste, tens a sensação de que o teu manuscrito não está perfeito, de que falta alguma coisa para o tornar no melhor que pode ser.
Leste “Leitor-Beta” e pensaste que  talvez seja uma boa ideia para o que procuras.
Tens toda a razão. É uma excelente ideia.
Mas antes de continuares a ler, acho que é importante que perguntes a ti mesmo: Escrever é algo mesmo, mesmo, mesmo importante para mim? ADORO fazê-lo… mais do que tudo?
Estou a pedir que te faças estas perguntas porque isto de escrever é duro, é exaustivo, tumultuoso, uma montanha-russa de emoções a tocar o bipolar, e no final, a recompensa nem sempre vai para além da tua própria satisfação em fazê-lo.
Se gostas de escrever como um hobbie e o fazes de vez em quando, nas férias, quando te sentes melancólico, fantástico para ti.
Escreve e esquece os Leitores-Beta. Diverte-te.
Mas, se já passaste ao ponto em que escrever é uma necessidade, tens pastas no computador carregadas de ficheiros com textos teus e não consegues imaginar-te a deixar passar um dia sem o fazer ou pensar na hora de o fazer… então estás condenado, bem-vindo ao clube, e sim, precisas de toda a ajuda possível.
Os Leitores-Beta podem ser a resposta ao que procuras. Se planeares e fizeres as coisas bem.
Numa pesquisa rápida pela internet, não faltam testemunhos de escritores frustrados. É difícil, trabalhoso, e um projecto que deve ser visto a longo-prazo.
A minha aventura com Leitores-Beta começou no início de 2012 e, mesmo com alguns erros, tornou-se um dos sucessos de que mais me orgulho.
Estes foram alguns dos pontos mais importantes do projecto e que espero te possam ajudar para conseguires o teu próprio grupo de Betas.
- Planeamento.
Olha para os textos que tens escrito e que queres trabalhar e anota no teu bloco de notas a resposta às seguintes questões: Qual o género literário em que se insere? Quais os leitores que pensas que gostariam de o ler? Idades? Onde os podes encontrar na net? O que pretendes que os teus Leitores-Beta te digam sobre a tua escrita? Esperas um comentário ao enredo da tua história? À gramática? Pontuação? Gralhas?
Se precisas de um exemplo, podes encontrar o que fiz aqui http://www.lc-lavado.com/2012/01/procuram-se-leitores-beta.html
É indispensável teres bem presente a informação que esperas receber, para evitares que alguns meses mais tarde, quando os emails começarem a chegar, te percas na quantidade de opiniões e feedbacks.
- Procura os teus leitores.
Não esperes que colocar um post no teu blog a dizer “leitores-beta precisam-se” te vai trazer os leitores que precisas. Tu és o interessado, tu é que tens de os procurar.
Prepara um texto de apresentação. Deve ser simples, de fácil leitura e dizer o que é importante sobre ti, sobre os teus textos, o que pretendes conseguir com os teus leitores-beta e o perfil de leitor que desejas.
Procura leitores no Goodreads. Podes selecionar um livro do mesmo género literário do teu e ver as melhores reviews. Contacta esses leitores por mensagem com a apresentação que preparaste. Pergunta se estariam interessados em colaborar contigo.
Pede ajuda a Bloggers que conheças. Não há vergonha nenhuma em pedir ajuda se precisas dela. Uns bloggers vão ajudar-te, outros não, mas desde que sejas sincero e transparente no que fazes, a maioria não se importa de trocar alguns emails contigo.
- Comunicação.
Logo que aceitas um leitor como teu Beta, envia-lhe um email e tenta conhecê-lo melhor.
É importante saberes quem “está do outro lado”, as limitações, as expectativas. Permite-te por exemplo, saber que se um Beta está na faculdade, em tempo de exames, não é bom momento para lhe pedires nada.
Pessoalmente, eu privilegio sempre o email pessoal, mas quando há informação que interessa a todos de forma igualitária, opto pelo email colectivo.
Ao enviares o teu texto, relembra-os do que estás à espera de receber em troca, o que queres que comentem. Eu, por exemplo, optei por disponibilizar uma espécie de questionário com perguntas como "No final do capítulo o que pensaste que ia acontecer?" "O que gostavas que acontecesse a seguir?" “Qual a personagem que mais gostastes?” “Qual a que menos gostaste? Porquê?”
Nós somos o escritor, tens de ter em conta que os leitores não estão habituados a escrever e tudo o que lhes possas enviar para lhes facilitar a vida, melhor.
- Prepara-te para ser avassalado.
Com a chegada dos primeiros emails com opiniões, vem a excitação pela concretização do que tanto trabalho te deu a planear, mas quando eles continuam a chegar por vários dias, e com eles diferentes pontos de vista que te puxam em direcções opostas, corres o risco de te deixares submergir por tanta informação.
Prepara-te para cortar nas horas de sono. Eu passei cerca de um mês com serões apenas a responder a emails. É importante teres isso em consideração quando definires o número de Betas que procuras.
E o mais importante: responde SEMPRE aos emails, mesmo quando as opiniões são más, mesmo quando disseste que o teu livro é de Terror e um Beta te responde a dizer que “parei de ler, é horrível, nunca gostei deste tipo de livros, como é que podes escrever que uma pessoa mata outra e gosta? É imoral...” pode apetecer-te gritar e repetir “EU DISSE QUE ERA TERROR” mas não vai valer a pena. Apaga o email da tua lista e continua.
Para conseguir os meus Betas, foi um processo de meses e que nunca termina. Alguns lêem apenas um livro, outros lêem todos, outros desistem, outros chegam mais tarde.
Nem todos os leitores são bons Leitores-Beta, prepara-te para uma percentagem de desistências, para outra de falta de compatibilidade.
O segredo está em aprender a trabalhar com o melhor em cada um dos teus leitores. Há uns que são invencíveis a encontrar gralhas, e outros que mergulham tanto na história que esquecem as palavras, mas ficam a conhecer os teus personagens melhor do que tu e apontam-te "desvios" de carácter que nunca viste antes. É o papel do escritor combinar os talentos dos vários perfis dos seus Leitores-Beta.
A minha dica para ti é: tenta fazer o mesmo. Baseia-te no que fiz, adapta, e constrói a tua própria história de sucesso. Depois, partilha e conta o que correu bem e o que correu “menos” bem.
Liliana Lavado