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Espiga


Foto cortesia de Vera Lúcia Cara-Roxa
Ficava sempre triste, quando em Lisboa saía de casa distraída e completamente alheia do dia que era. Acontecia-me todos os anos. Era dia da espiga e só me apercebia quando via na rua raminhos à venda. Ficava sempre triste e desiludida comigo por não me ter apercebido da proximidade da data, que nunca me falhava no Alentejo. A verdade é que na cidade, e tão concentrada no que por lá andava a fazer, acabei por me afastar do ritmo natural de tudo, até do meu. E só havia datas que não me falhavam porque já estavam tão envolvidas em consumismo que dois meses antes já havia montras decoradas com o tema. Como no Natal.
De volta ao Alentejo o dia da espiga nunca mais foi esquecido.
Também em Lisboa tentava perceber que dia era aquele, para além dos ditames cristãos. Dia tão belo, em tudo tão pagão, um vestígio ainda não transformado com a nossa contemporaneidade urbana e capitalista. Não havia livro que me respondesse à questão. É muito menos páginas web na altura. Só temas celtas, nórdicos. Não podiam nunca responder a algo tão genuíno e português.
Mais tarde acabei por perceber, tirando um pouco daqui e um pouco dali. Outras leituras talvez me tivessem respondido, mas não tinha orientação para lá chegar.
No meio de tudo isto descobri na biblioteca da Faculdade uma edição fac-similada das "Regiões da Lusitânia" do Leite de Vasconcelos, que me fez andar a escrever com ph durante uns tempos. Foi água que me matou sede: apesar de já estar tão ultrapassado - felizmente. Mas não deixo de recordar esse livro com carinho.

Mat_


Mat_
Há tantos, tantos séculos que amamento o meu bebé, descansada e no silêncio, que até me esqueço do tempo que passou. Enquanto amamento, olho para dentro de mim, bem lá no fundo. Seria tão bom que mulheres e homens pudessem olhar para dentro de si em vez de se matarem uns aos outros, tantas vezes em nome daquilo que eu não sou.
Continuo no coração de homens e de mulheres todos os dias, assumindo as formas e as palavras que julgo melhor entenderem. Quantas vezes lhes apareci, mas cegos não me vêm e surdos não me ouvem. E continuam a matar-se.
Eu continuo a amamentar o meu bebé, porque contra isso nada podem fazer. Se parassem, se rezassem, se meditassem... como tantas vezes lhes digo, talvez entendessem que isso servisse para pararem de matar. [Olinda Pina Gil, 13/Maio/2017]

Outono

Imagens do google

O dourado da luz chegou este ano mais cedo. O sol ainda me aquece como em todos os meus outonos. A natureza é generosa, mas avisa-me da proximidade do ocaso. Ensina-me que o ocaso pode ser agradável se eu tiver para colher aquilo que antes plantei. Agradeço todas as dádivas da minha vida e preparo-me para a ibernação de inverno. É de inverno que escrevo mais e melhor. Enquanto o meu filho dorme e um grilo canta lá fora.

Eu quero viver em Portugal

"Eu quero viver em Portugal" é o meu mais recente texto publicado no InComunidade.  Sigam o link!


"Ouvi falar de um país, Portugal, e gostava de lá viver. Nesse país as pessoas entram às 10h00 no trabalho, às 10h30 fazem uma pausa, ao 12h00 vão almoçar e demoram duas a três horas no almoço. Nesse país as noites são amenas e é por isso que as pessoas não se importam de trabalhar até tarde. Nesse país há uma intervenção do FMI mas as pessoas continuam a cometer excessos e a viajar. Nesse país houve uma revolução há quarenta anos e a população vive com direitos adquiridos desde aquela época."

Qual o lugar imaginário de eleição de literatura mundial? E da literatura portuguesa?

Não poucas vezes certas temáticas em publicações ligadas à literatura impelem-me à escrita. Ultimamente tem-me acontecido com a revista Granta. Hoje tem a ver com o Jornal de Letras.

Antes do lugar imaginário da literatura medieval começo por mostrar, desde logo, aquele que é para mim o lugar imaginário de eleição da Literatura Portuguesa. Creio que há um poema sobre esse lugar, de Sophia, mas é Manuel Alegre que o recupera quando fala da poeta. Não falo deste lugar para ficar bem entre quem, e muito menos para chamar a atenção da autora, que aos átomos já regressou. Quem me conhece sabe como Sophia me toca. Ao mar de Sophia junto o meu, a apenas 80km de onde pouso, 60 se pudesse voar. Sophia conheceu o meu mar, e como entidade do mundo das fadas encontrou uma estrada que só aqueles a quem a imaginação, com uma pitada de mar, domina a podem encontrar. É uma estrada que percorre as falésias da Costa Vicentina. Quando eu era pequena os meus pais queriam fazer-me crer que essa estrada não existia, apesar de muitas das minhas histórias residirem por lá. Soube que afinal essa estrada era real, com Sophia. Quero ir lá um destes dias, para saber como ficou depois da tempestade Hércules. Sim, porque esta estrada não tem direito a aparecer na comunicação social, mas eu sei, porque sinto, que esteve alagada com o Adamastor sentado na sua margem.

Quanto à literatura mundial há um lugar, que também é lugar da minha infância.E "Fantasia" da História Interminável de Michael Ende. Não falo desse lugar por ser fantástico (nada tenho contra ou a favor disso) mas por ser um lugar cuja vida é necessitada de memória. Sem memória aquele lugar está condenado a desaparecer. Sem a memória que está nos livros, que nos fala dos lugares imaginados ou de situações imaginadas em lugares reais. Da memória que está nos livros de História, apesar de sabermos que dos vencedores só eles falam. Da memória de quando éramos em crianças, em adolescentes, quando tínhamos 20 anos. Porque por vezes esquecemos a força que nos era iminente nessas idades e maltratamo-la chamando-a de ignorância. E, parece que não, ao fazê-lo esquecemos também os velhos. Os nossos avós, que sabiam fazer papas como niguém e contavam lendas que só eles sabiam. Para os nossos avós não fazia nenhum mal sermos crianças e ignorantes, porque só o amor que existia entre nós bastava.

11/01/2014

O que de bom vem depois de publicar

O meu livro foi publicado ainda há muito pouco tempo. Creio que ainda terá oportunidade de me reservar muitas boas surpresas (pelo menos assim espero). Mas até agora já tive oportunidade de ter uns bons momentos agradáveis por causa deste livro.
Não estou a falar dos elogios nem das palmadinhas de costas das pessoas conhecidas (e até bem que poderiam rir comigo por causa de outros conhecidos que agora me são incapazes de olhar de frente...), nem das mensagens e mails recebidos daqueles que não conheço, mas que sei que são leitores do que escrevo (e que anda por aí na Smashowrds e no Blog e nalguns trabalhos em que já participei). Estou a falar daqueles que eu não fazia ideia que me conheciam.
Digamos que nestas duas últimas semanas recebi dois convites para participar em duas revistas online. Uma generalista e outra literária. Foram dois convites que me deram muita satisfação. Atempadamente, e quando os textos saírem, deixar-vos-ei os links e as indicações para seguirem e lerem.
Uma das pessoas que comigo contactou, da revista literária, confessa que seguia o meu trabalho desde o DNJovem. Mas como é possível? Foi há tanto tempo... Conversa puxa conversa acabámos por descobrir que nunca nos encontrámos e conhecemos nos tempos de Faculdade por uma unha negra, uma vez que temos vários conhecimentos em comum.
Sim, saber isto dá alegria, mas sobretudo espanto. Naqueles tempos eu era só uma miúda (e agora talvez ainda seja).
E também me deu revolta: porque o DNJovem terminou, porque se dizia que ninguém lia. Ah, afinal, parece que havia leitores. Leitores que o jornal nunca procurou saber se existiam...
É certo que a vida continua. Mas tenho pena que outros jovens de 15 anos não tenham a mesma oportunidade que tive, e que, afinal, me veio dar alegrias e satisfações aos 30.

Pronúncia Alentejana

Uma das condições de ser alentejano é ter de aguentar constantemente piadinhas de mau gosto no que diz respeito à pronúncia desta região do país (até se deveria dizer inúmeras pronúncias, mas as pessoas das piadinhas normalmente desconhecem este facto). Não podemos levar a mal estas situações, e por vezes até brincamos com isso, porque, diga-se, as pessoas das piadinhas não o fazem por mal. Desconhecem igualmente que somos alvo constante dessas mesmas piadinhas desde a mais tenra infância, e que, a determinada altura, se torna enjoativo. Diga-se a verdade: se somos compreensivos, os outros também o poderiam ser.  Pior, se eu sou compreensiva (ou engulo sapos), outras pessoas não o são.
Alguns factos: normalmente as pessoas do norte não dizem estas piadinhas. Os alentejanos fazem também piadinhas com outras pronúncias (alentejanas ou não). Quem diz piadinhas dessas, ou não anda em transportes públicos em Lisboa, ou anda sempre com os phones colocados.
Mas estas piadinhas ainda se suportam. O que não se suporta mesmo é o desconhecimento generalizado sobre o Alentejo. É pensar que nenhum alentejano estuda ou viaja. É pensar que os alentejanos nunca foram a Lisboa. É pensar que o Alentejo é o desterro e um espaço subdesenvolvido (e infelizmente isto costuma ser sinal do desconhecimento de outras zonas do país). É dizer metrópole e província como se ainda vivessem nas colónias. Mas felizmente, este blog, ainda não foi alvo de piadinhas para além das linguísticas.
E o Henrique que me perdoe, mas como estava tão ansioso por eu lhe dar as boas vindas e me fez um comentário-piadinha deste género, resolvi dar-lhe as boas vindas a este blog deste modo.

Qual foi a pior coisa que te aconteceu numa biblioteca? Recusarem-me o empréstimo de um livro

Eu andava no 1º ano, e a minha escola primária tinha na altura uma pequena biblioteca escolar (hoje muito maior, felizmente). Sempre gostei muito de livros, e aprendi precocemente a ler. Apesar da abundância de livros que sempre houve na minha casa, nunca me deixava de sentir entusiasmada e curiosa perante livros. E nesse dia fiquei muito contente de ir à biblioteca escolar, decidida a levar para casa um livro. Um tema que sempre me fascinou foi a astronomia. Encontrei na estante da biblioteca uma enciclopédia infantil sobre estrelas e planetas, e decidi que aquele era o livro que eu queria levar.
Quando chegou a altura de efectuar a requisição, a rapariga que a estava a fazer disse que eu não podia levar aquele livro porque não era para a minha idade. Sugeriu-me então que levasse um livro daqueles cuja ilustração preenche toda a folha, com apenas uma linha de escrita, de leitura muito elementar, no fundo da página. Para mim aquilo era um livro para bebés. Recusei-me a levar um daqueles, e insisti em levar o que tinha escolhido. A rapariga voltou a negar-me a requisição.
E eu decidi não levar livro nenhum.

Discurso de velhos e o "Regresso ao Futuro"


É com frequência que se ouve o discurso: "os putos de hoje são mais putos do que nós fomos", ou "nós fomos mais putos do que os nossos pais foram". O que é uma grandessíssima treta e conversa de velho. É muito difícil convencer as pessoas do contrário. Afinal, quem tem ideia fixas, tem-las e pronto: ponto final.
Quem, como eu, nasceu no início da década de 80 e foi criança nessa mesma década com certeza viu inúmeras vezes o filme "Regresso ao futuro", e suas sequelas, hoje clássicos, mas na altura filmes da berra. Como criança, para mim o Marty McFly , personagem adolescente, era para mim uma personagem crescida. Depois de mais de 20 anos sem ver o filme, só o revi há 2/3 anos, e só nessa altura me apercebi que essa dita personagem era um adolescente. E a imagem que dele tinha construído, de um rapaz crescido, passou agora para um puto.
Vá, e agora, quem se atreve a dizer que o Marty McFly não era um gradessíssemo puto? Aliás, era muito mais puto com que eu fui pita na mesma idade.
E fiquemos assim.

As leituras do escritor




Nem sempre nos melhores livros o escritor pode encontrar material de inspiração que o ajude a construir o background das suas histórias.

Primeiro há que dizer que o escritor perde aos poucos o prazer da leitura. Não só porque ganha a capacidade de destrinçar a história, mas também porque muitas das vezes procuramos os livros para os compreender.
Podemos dizer que há dois tipos de material: o bonitinho e o não bonitinho. O bonitinho é normalmente uma narrativa bem construída, com tudo no lugar, de influência oitocentista. O não bonitinho (atenção que não é feio) é material com muitas influências dos ismos do séc. XX, do noveau-roman francês e da desconstrução anglo-saxónica. Sem dúvida que estes dois tipos de materiais podem trazer prazer ao leitor, consoante o seu gosto. O escritor tentará sempre ver o que está por detrás da tela.
Nestes dois tipos de material podemos encontrar o mal escrito e o bem escrito. O mal escrito pode ter vários problemas, e são raros os casos exemplos de todos os males. os "males" podem ser infinitos, desde personagens mal criadas, estrutura mal feita, uma linguagem pobre e sucessivos erros de construção gramatical.

O interessante é que o escritor pode encontrar, mesmo num texto desses, material para explorar.
Falo em termos pessoais. Tenho encontrado livros com pouca qualidade que souberam ser um registo histórico que me interessa aprofundar para trabalhos meus. Um registo histórico em ficção, claro, mas que são representação de acontecimentos passados entre várias gerações, na perspectiva da vivência do cidadão sem riqueza, sem estudos. Material que não encontro em livros de história ou em romances históricos ou de época em que predomina a representação da nobreza e da burguesia.
Os mistérios da criatividade são impressionantes...

Sobre a escrita de contos


Muito se pode dizer sobre a escrita de contos. Há quem diga que é um bom meio para um escritor começar, para se treinar para o romance. Há quem diga que é uma forma menor. Há quem diga, pelo contrário, que o conto é mais exigente, porque dispensa o supérfluo e porque obra a dizer em poucas palavras o que antes de outro modo se diria em muitas.
Uma coisa é o que se diz por aí, outra coisa é o que o autor sente quando escreve contos.
A maior parte das minhas ideias, mesmo que nunca as venha a desenvolver, são ideias para contos. Sei à partida que são contos porque logo na ideia reconheço a economia narrativa do texto que dali pode surgir.
Apesar disso, o conto não deixa de ser para mim um modo de treino e de aprendizagem. Se quero experimentar um certo tipo de narrador, por exemplo, mais vale experimentar em dois ou três contos do que partir para um romance. Mais vale três contos medíocres na gaveta que um romance, porque afinal, o conto até leva menos tempo a escrever.
Mas o conto é também uma forma de experimentalismo. Se quiser experimento fantasia, experimento. Se quiser experimentar terror, experimento. E por aí fora. Fazer experiências com romance não é tão prático, e certamente, menos divertido. E ser um contista esquisofrénico não me parece grande problema. Se for um romancista já não sei...

Eu e os Ebooks - Guest post no blog de Rute Canhoto

A Rute convidou-me para escrever um textinho no blog dela. Passem por lá, leiam, dêem a vossa opinião. Fica aqui um excerto:

Contudo, a apresentação do livro é um momento importante, quase como que um ritual que declarasse o livro aberto às leituras. É um momento único em que o autor pode ter contacto directo com os seus leitores. Foi por isso que decidi estar presente na apresentação colectiva da Coolbooks.
O ebook é um produto ainda novo e desconhecido da maior parte dos leitores. Por isso, uma apresentação colectiva foi a melhor forma que a Coolbooks encontrou para dar a conhecer as obras. Sem um livro que as pessoas pudessem folhear e ler no local, restou-nos falar sobre o livro, como faríamos noutra apresentação qualquer, assim como responder a questões.

Sophia e o Panteão





Já alguma vez foram ao Panteão Nacional? Eu uma vez decidi que haveria de ir. Foi nos meus tempos de Faculdade. Estava um dia de calor, era o final do segundo semestre. Se não me engano, tinha feito um exame qualquer e aquele foi o passeio eleito para desanuviar a cabeça. Sei que apanhei um eléctrico, andei às voltas pela rua, passei por debaixo de um arco e, por fim, lá encontrei o edifício. Tenho algumas memórias desse dia que são vagas. Outras estão bem presentes.
O edifício fez-me lembrar, de alguma forma, os Invalides, que já tinha visitado em Paris. Para além das semelhanças arquitectónicas em ambos os edifícios experimentei sentimentos negativos, que não sei explicar, mas que estão entre a aflição, claustrofobia, sensação de vazio ou de nada, sensação de abandono.
No dia em que visitei o panteão tive acesso ao terraço, esse sim o único lugar do edifício que me pareceu aprazível. De facto, a vista lá de cima é soberba. Não sei se é costume ter-se acesso a este local, se foi sorte a minha, por ser a única visitante naquele momento.
O Panteão Nacional é a Igreja de Santa Engrácia. Não é coincidência com o nosso dizer “as obras de Santa Engrácia”, pois é mesmo da demora na sua construção que nasceu a expressão.
É neste local de mau início que está Sophia, em conjunto com Amália Rodrigues e outras personalidades. Quem conhece a obra de Sophia sabe perfeitamente o quanto está longe dos sentimentos transmitidos pelo edifício.
Pergunto: é algum castigo por se ser uma personalidade de destaque da cultura portuguesa? Porque a ida para o panteão parece um castigo, deixando o morto afastados dos seus lugares, dos seus familiares.

Quando eu morrer voltarei para buscar. Os instantes que não vivi junto do mar

Pois eu acho que se devia respeitar a vontade dos mortos.

Não, hoje não consigo.

Mais despedimentos. Todos os dias há despedimentos neste país (e com certeza em países quase semelhantes a estes). Hoje os despedidos foram jornalistas, pessoas que se esforçavam por nos informar. As notícias serão mais pobres a partir de hoje, mas parece que isso não interessa muito. Afinal os jornais são um negócio. Afinal tudo é um negócio. Talvez amanhã a primeira página seja o novo corte de cabelo de uma coqueluche futebolística. E da Grécia, que já não sabíamos de nada, agora ainda menos saberemos.
Lembro-me tão bem de um suplemento de um jornal, naquela altura já reduzido a uma página, ter sido reduzida a meia. Para a publicidade, para o dinheiro. Porque o jornal precisava de dinheiro, naqueles primeiros tempos da selvajaria. Porque meia página para jovens era mais do que bastante.
Esses jovens hoje têm a minha idade, trintas. E o jornal cortou, aos poucos, a nossa razão de escolha para que, emocionalmente, ele fosse sempre o nosso número um. Pensaram alguma vez que teríamos trinta, quarenta, que seríamos compradores de jornais? Talvez não... Na altura éramos só uns miúdos.
E para os miúdos de hoje não há nada. Mas eles terão trinta, quarenta, que muito provavelmente serão feitos noutra latitude.
Hoje foram os jornalistas, ontem foram agricultores, professores. Amanhã talvez sejam os médicos e os padeiros. Os jornalistas não tocam mais nos corações que os outros. Mas afinal fala-se deles porque são eles que fazem as notícias. Ninguém toca mais no coração que os nossos: e estes jornalistas serão pais, filhos, irmãos...
Estou a ler o livro de Naomi Klein, e talvez por isso tudo me assuste mais, me agudize mais. Mas o que assusta mesmo é pensar que estes empregos nunca serão recuperados. Estes jornalistas, muitos já não serão novos, sairão do país. Alguns terão lugar no estrangeiro. Outros não.
E no meio de tudo isto não se encontra uma notícia sobre as pensões dos gregos que não seja em blogs de teorias da conspiração. Ou em grego, mas de grego moderno eu não percebo nada.
E nós não fazemos nada? Quanto a estes talvez já não possamos fazer nada. Mas, e os outros? Os desempregados do futuro, pelos quais podemos ainda fazer alguma coisa?
E continuaremos sem exigir uma informação decente, preferindo a distracção do próximo jogo de futebol?
Posso eu ir para casa e me dedicar a uma leitura guilty pleasure? Posso ir escrever e pegar no meu conto de raparigas, escritoras e suicídios? Não, hoje não consigo.

Reencontrar pessoas





Ainda estamos em época de Festas, e queria-vos contar como este ano o Natal me chegou mais cedo.

Uma destas manhãs, no trabalho, em que faço o mesmo que em todas as minhas manhãs (ligar o computador, fazer chá, arrumar a papelada que me colocaram na secretária para ir tratar, ver os mails), verifico a recepção de um e-mail, direccionado de um P., cujo assunto era algo como: "És mesmo tu?"
Nem foi preciso abrir o e-mail e verificar o sobrenome do emissor para eu me ter apercebido, naquele momento, de quem era aquela mensagem. E foi já de olhos húmidos, a fazer um esforço tremendo para evitar que as lágrimas me caíssem em pleno escritório, e evitar perguntas desnecessárias por parte dos colegas, que li a mensagem.
P. foi meu colega da escola primária, coleguinha de carteira e de brincadeiras depois da escola, uma vez que ele era meu vizinho. Brincámos muitas vezes na rua em que ele vivia, com a irmã dele e outros miúdos que por ali andavam. Lembro-me de P. como bom rapazinho, bom aluno a matemática, sorriso na cara e caracóis negros. Trocámos milhentos e-mails, como se tivesse sido ontem que, depois de terminado o 3º ano ele tivesse abalado com a família, e como se nunca mais o tivesse visto. Não me tinha esquecido, conseguiu encontrar-me. Eu também nunca o tinha esquecido. O facebook agora permite que continuemos em contacto. Pude ver as fotografias, continua com a mesma cara mas num corpo crescido e é agora pai de uma menina que parece a versão dele feminina quando tinha aquela idade.
Semanas mais tarde volta a acontecer-me o mesmo. Desta feita, pelo facebook, recebo uma mensagem de F., colega do básico a quem eu também tinha perdido o rasto. Lembro-me quando a família dela partiu daqui, no final do nosso 8º ano, depois de um acidente trágico que retirara a vida a uma das suas irmãs. Ainda lhe enviei cartas, lembro-me que não a queria perder assim como tinha perdido o P., mas as cartas não tiveram retorno. F. tinha-se mudado outra vez, e assim perdi o contacto da menina gordinha e sorridente que fazia parte do nosso grupo de amigas. Na festa do final desse ano, eu e N. tocámos e dedicámo-lhes a nossas músicas.
F. tinha visto alguém partilhar uma publicação minha e assim me encontrou o rasto. Falámos, vimos as nossas fotografias. E foi com um nó na garganta que vejo uma F. renovada, linda e magra, muito parecida com a irmã que faleceu.
Há já muitos anos que verifiquei que a minha vida é comandada por uma qualquer força de retorno, no que toca a pessoas. Têm sido muitas as pessoas que tenho voltado a reecontrar e a reatar relações. E como se não bastasse isso, ainda haveria nisto tudo mais uma coincidência, para provar novamente como o nosso mundo é pequenino: afinal P. e F. conhecem-se. Andaram na mesma escola do ensino secundário.

Factos não habituais nas publicações Portuguesas

Hoje venho-vos falar de algo que me apercebi nas publicações portuguesas: houve fenómenos não habituais, não tradicionais. Provavelmente não me apercebi da maior parte, mas estes casos que vos falo hoje são significativos. Significam que há mudança no modo de publicar em Portugal, mas se o futuro segue este caminho não saberemos. Quando há mudança, há alguns fenómenos que podem ser efémeros. Mas são sinal que algo está para mudar.

Vou-vos falar de alguns escritores portuguesas, e do que lhes aconteceu. Não quero dizer que elas venham a ser Nóbeis da literatura, ou que descobriram o significado de algo demasiado complicado a nível científico. São simplesmente escritores que, como tantas outras/os lutam todos os dias para que os seus escritos vejam a luz do dia.

Liliana Lavado

Esta autora tem vindo a disponibilizar os seus livros em auto-edição através da Amazon. Depois criou um programa de beta-readers, que teve muita receptividade, e melhorou as suas obras. Os beta-readers talvez tenham alguma culpa do que aconteceu depois: o seu entusiasmo espalhou-se até outros leitores e os seus livros acabaram por criar sensação no Goodreads, em especial o romance Inverno de Sombras. Quando a autora decidiu enviar para as editoras os seus livro já pode apresentar dados a partir das vendas da Amazon (isto confessou-me a própria). A editora Marcador, chancela da Editorial Presença não foi indiferente a tudo isto e publicou Inverno de Sombras.


Filipa Fonseca Silva


O caso desta autora é o recentemente mais falado. A tradução para inglês do seu livro Os 30 - Nada é como Sonhámos, publicado pela Oficina do Livro (grupo Leya), Thrity Somethin: (Nothing's how we dreamed it wold be) entrou para o Top 100 da Amazon na categoria Woman's Fiction. Algo que nenhum português ainda tinha feito. A autora, que no seu segundo livro optou pela autopublicação, tem sido agora muito falada nos média e nas redes sociais e, espero eu, que isso signifique aumento de vendas.

Samuel Pimenta


O autor, que foi distinguido com o prémio Jovens Criadores 2012 teve de ir até ao Brasil, para publicar a sua obra Geo Metria (editora Literarte), que foi apresentada na Feira do Livro de Frankfurt. Mais recentemente, e já em Portugal, acabou por publicar O Relógio, a obra premiada, pela editora Livros de Ontem.





 Valentina da Silva Ferreira


Outra autora que viajou até ao Brasil para publicar o seu livro, A morte é um Serial Killer, pela editora Estronho. Por sinal teve uma boa receptividade. E, pelo que percebo, os olhos da autora viram-se mais para o Brasil do que para Portugal. A verdade é que os seus leitores por cá continuam a ser poucos.










A minha relação com a escrita


Já muitas vezes tenho dito que não tenho uma relação feliz com a escrita. Sofro muito quando escrevo, sofro ainda mais quando não escrevo. Procastino, perco-me em mil e um projectos, sou incapaz de dar um texto como terminado.
A escrita é incompatível com qualquer dieta ou qualquer exercíco físico. É incompatível com o trabalho, com o relacionamento amoroso, com a família.
A escrita é incompatível com o Verão.
Tenho dias em que penso que não vale a pena o esforço. Tenho dias em que me apetece parar. Mas depois penso que foram demasiados anos desperdiçados para parar agora, mais vale a pena continuar com a ilusão de que faço alguma coisa bem, quando não faço.
Abrandar um pouco porque é verão. Voltar em força nos dias de chuva? Talvez.

Escrita vs Exercício Físico

Tem sido difícil conjugar estas duas actividades: escrita e exercício físico. Não porque não tenha tempo, até tenho, mas por causa da distribuição que lhe tenho de dar.



Na verdade tenho de dispensar tempo da escrita para o exercício físico. Antes que morra e não escreva nada.

A escrita é algo emocional. É algo que eu gosto de fazer.
O exercício físico, por seu lado, é racional. É algo que tenho de fazer.

A conjugação até tem resultado. Tenho-
me concentrado para aproveitar melhor o tempo que escrevo. Mas dizer que algo resulta não significa que esteja contente com isso.

O que eu queria mesmo era não ter de fazer exercício físico, e poder ficar mais esse tempo a escrever.

Os diálogos ("Diz que disse")

retirado daqui

Quando iniciei as minhas primeiras aventuras na escrita, lá para os idos de 1996/1997 escrevia uns diálogos muito secos, sem aquilo que eu chamo o "diz que disse". Era qualquer coisa como:

- Olá está tudo bem?
- Sim, está tudo, obrigada. E tu, como vais?


Depois lá me avisaram que não era muito correcto escrever assim, e que deveria dar indicações de que falas deveriam pertencer a cada personagem. Então lá comecei a introduzir o "diz que disse":

- Olá está tudo bem? - Disse o Manuel.
- Sim, está tudo, obrigada. E tu, como vais? - Disse o Ricardo.


Depois comecei a melhorar esta fórmula. Estas frases do "diz que disse" servem muito bem para colocar expressões dos personagens, sentimentos, gestos e por aí fora. E ainda há aquela questão de não utilizar só verbo dizer, como tão bem gostamos de ensinar aos meninos nas aulas de Português. Porque há outros verbos introdutores do diálogo: responder, gritar, sussurrar ... replicar... (entre tantos outros).

Mas ainda hoje o replicar me causa ânsias. A maior parte dos verbos introdutores do diálogo não são minimamente naturais (digam-me qual a naturalidade dos verbos "questionar" e "inquirir", por exemplo). Encontrar o verbo "replicar" num texto é sinal que desisto dele naquele preciso momento, mesmo que seja um texto meu dos meus idos.

Para dizer a verdade, também não considero o "diz que disse" natural. Não seria tudo mais natural como no teatro?

MANUEL - Olá está tudo bem?
RICARDO - Sim, está tudo, obrigada. E tu, como vais?


Esta conversa toda porquê?
Porque ultimamente, quando escrevo, não coloco na primeira versão o "diz que disse". Os diálogos saem muito mais naturais. Depois, quando começo a rever (e a primeira revisão é quase uma reescrita)lá introduzo as ditas indicações, forçosamente. Não gosto delas. Apetece-me aboli-las. E depois aturar as consequências e as reclamações dos leitores e escritores novecentistas que por aí andam e que às vezes me lêem.

Há um projecto, enfiado na gaveta logo às uns dez anos, que vai dar para eu fazer umas coisas assim...

Escrever para quê?

Imagem retirada daqui


Escrever para quê? É uma questão que me tem assaltado os últimos dias. Do mesmo modo que "partilhar para quê'" (partilhar coisas de escrita e de leitura nas redes sociais).

Quando reflito sobre a inutilidade de tudo isto cresce-me uma dor no peito. Não quero fazer coisas inúteis. Para isso mais vale não escrever, continuo com a minha vida das 8h às 17h, esqueço que gosto de escrever, inscrevo-me num partido político ou abraço uma causa social e nunca mais escrevo. Apago o blog, o facebook, o twitter, o goodreads... e depois... depois morro porque tenho de escrever. A minha vida não faz qualquer sentido se eu não escrever. E depois se escrevo, tenho de partilhar, não é? Porque se escrevemos é porque temos alguma coisa a dizer, e se dizemos é porque queremos que nos ouçam.

Contudo tudo perde sentido dado o estado da socidade actual. Escrever para quê? Escrever historiazinhas de amor para quê? Escrever fantasia para quê?
Temos ou não algo a dizer como deve de ser, adequado aos dias de hoje?

Bem, eu continuo a escrever historiazinhas de amor, de fantasia, etc, apesar de gostar de tender para o insólito. Mas se fosse só isso não valia a pena, pois não?

De vez em quando surge-me um grito que precisa de sair de mim em forma de ficção. Há mais de um ano saiu o conto O Soldado (submetido a uma revista neste momento), depois saiu O Regicídio (estou à espera da opinião do Luís Filipe Silva a quem gosto muito de aborrecer com este tipo de contos), há uns meses, não de forma tão natural como os outros, porque era para submeter a uma colectânea, surgiu-me Catalogação (e acabou por ser seleccionado para a colectâena "Livros" da Editora Estronho - Brasil). Este fim-de-semana surgiu-me A Casa (ou A Mansão, logo se vê) e ando de volta de um romance cujo primeiro capítulo se chama O Anarquista. São os textos que melhor me têm feito sentir ultimamente.

Mas só farão sentido quando começarem a ser lidos.