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As sombras de Cristiano Cinzento

Anastácia era uma jornalista de renome. Apesar disso, não podia fazer sempre aquilo que queria nos seus dias de trabalho. Às vezes tinha de apanhar umas grandes puas. Foi o que lhe aconteceu quando foi entrevistar o Cristiano Cinzento.
O rapaz era um pirralho, o que Cizento (Galdalf) lhe ficava muito mal como nome. Anastácia era uma mulher madura, com muita experiência. Não tinha paciência nenhuma para um jovenzinho de sucesso. O mais certo é ter herdado a fortuna dos pais, ou assaltado um banco numa offshore. Ora, isso seria bom material.
O rapaz portou-se lindamente na entrevista. Viu-se bem que queria mostrar uma imagem limpinha. Anastácia mascou pastilha todo o tempo: um gesto de desprezo propositado.
No final, o pirralho quis armar-se em herói. Mas de homem-aranha só tinha a gordorinha de bebé na sua face.
- Sabe, Anastácia. Eu acho-a uma mulher fantástica. Tenho tudo para a fazer feliz!
- Ai é? – Oh filho, tu não tens é nada. Eu ganho dinheiro suficiente para os meus louboutins, não preciso de ti. Deixa lá ver até onde ele pode chegar. Deixa-o enterrar-se. Pode ser que haja aqui bom material. Cheira-me a esturro.
- Sempre gostei de mulheres mais velhas. Eu poderia ser o seu príncipe encantado.
- Mas falta-lhe a realeza! - Para príncipe já me chegou aquele com que namorei e que me queria fazer rainha, em troca da minha liberdade. Prefiro continuar a fazer reportagens de guerra, quero lá saber de jantares de beneficência.
- Tenho gostos peculiares. Tinha todo o interesse em mostrar-lhe.
- Ora vejamos isso. – Anastácia accionou a câmara de filmar secreta que trazia incorporada na Louis Vuitton. Cristiano, que nome mal aplicado. Tinhas que por umas andarilhas para teres altura de futebolista.
- Caríssima Anastácia, apresento-lhe o meu quarto secretao!
- Cruzes canhoto, oh rapaz! Tinhas jeito para talhante![1]
- Oh Anastácia! Experimente. Vai ver que vai gostar.
- Não, obrigada Cristiano. Já devia saber que é como a música do Rui Veloso.
- Quem é o Rui Veloso, algum DJ?
- Amigo, não se ama alguém que não gosta da mesma canção.
- Ah, Anastácia, essas frases vintage tiram-me do sério. Deixa que eu seja o pai dos teus filhos.
- Senhor Cristiano, por favor! Isso diz-se lá a uma mulher. Vê-se logo que é treta! E para filhos já me bastam os meus, que me dão muito trabalho, assim como aturar o pai deles,  o meu ex-marido.
Anastácia abandonou feliz a casa do jovem milionário. Agora sim, tinha material para um bom artigo no jornal. Só o que precisava era de aproveitar bem o resto do dia, já que os filhos estavam com o ex-marido. Um banho relaxante, um bom copo de vinho. Talvez telefonasse ao jardineiro. Ele sim, podia não conhecer os filmes oscarizados, mas sabia o que era um bom carinho.

[1] Não queremos, de todo, ofender os talhantes com este texto.

No Lar

Tinha entrado no lar de 3ª idade naquele dia. Antes não queria, há uns tempos atrás. Quando ainda não precisava de ajuda para se levantar de uma cadeira. E outras coisas mais, que não valia a pena estar para a ali a enumerar maleitas. Agora conformou-se com a ida para o lar. Afinal a sua vida era do quarto da cama para a sala, levada por alguém que lhe escolhia o canal de televisão. A casa era pequena, e, em comparação com o espaço amplo do lar apercebeu-se que, afinal, tinha estado presa na sua própria casa. Havia quantas semanas que não via a rua? Tinha sido num dia chuvoso, em que a levaram ao médico. Há quanto tempo que não podia apanhar uma laranja de uma árvore e saboreá-la deixando escorrer o sumo dos lábios?
Naquela noite, depois do jantar, levaram-na para a varanda. Puseram-lhe uma manta sobre o corpo e pode apreciar os cheiros do jardim. Lá dentro, colegas seus (afinal conhecia-os a todos) cantavam cantigas dos seus tempos de juventude. Depois voltaram a trazê-la para dentro. Ia ver televisão, era hora das notícias, trar-lhe-iam chá e bolachas. Sentia-se a fazer serão. Há quantos meses se deitava às seis da tarde? Durante quantos meses ficara a dormir até às 11h00 porque ninguém se atrevia a acordá-la, a incomodá-la. Sabia que às vezes se portava como uma criança, e que ia ter regras ali. Mas acabou por almoçar e jantar bem, ao contrário do que costumava fazer. Afinal, o lar não era tão mau quanto pensava.

O Jardim / Micro no site InComunidade

Este mês tem sido um mês complicado para as navegações (agora a recuperar aos poucos), e, por isso mesmo, não vos tinha ainda deixado a minha mais recente colaboração no site InComunidade: O Jardim.

Primavera



Digam-me qual é o país da primavera. Digam-me que campos se cobrem de flores pelo Natal. Contem-me onde se constroem grinaldas pelo Carnaval e o novo ano começa no dia da espiga. Digam-me onde os dias têm as mesmas horas da noite. Onde ao final do dia cheira a perfume, onde as madrugadas só têm nevoeiros leves. Que país é esse em que as raparigas não têm biquinis mas sim casaquinhos de renda de todas as cores? Onde na praia se acendem fogueiras, se fazem jogos e se dança toda a noite. Digam-me, por favor, quero ir para lá viver.

Drabble



Gostava do teatro diário que era o desfile das suas muitas máscaras em frente ao espelho. Colocava a de Barbie, a de Lolita, a de Bruxa. A de Advogada, era a que costumava usar no trabalho. Havia a de fada-do-lar usada em casa. As do fim-de-semana eram as suas favoritas. Olhou com um sorriso de boas recordações para a de Sadomasoquista que havia vestido havia dois dias.
Por fim escolhia a cabeleira postiça. Dava duas ou três voltas sobre si mesma, calçava os sapatos de salto e lá ia ela, rua abaixo, apanhar um táxi para o Carnaval da vida.

Clássicos


Lembro-me dela há uns anos atrás, fresca e agradável. Apesar dos traços pouco graciosos achei-a a bela como as flores. Hoje ela é como aqueles ramos secos e conservados que gostamos de manter em jarras. Forte, resistente. Passaram vinte anos? Talvez nem tanto. Mas ela continuou a lutar todos os dias pela vida menos escorreita que não tem tido. Talvez seja uma mulher antes do tempo, que tenha sofrido os males da crise antes mesmo dela ter chegado. Mas continua a sorrir.

Drabble


Divorciado



Os pais pensavam que ele estudava como um maluco, mas na verdade ele tinha uma facilidade natural. Acostumou-se a usar isto em seu favor, especialmente no Ensino Secundário e na Universidade. Muitas vezes dizia que ia estudar quando na verdade ia jogar bilhar ou sair à noite com os amigos. Os pais, sempre orgulhosos com os seus resultados e esperançosos com o seu futuro, faziam-lhe tudo o que ele queria e até lhe adivinhavam desejos. As panquecas quentes ao pequeno-almoço de fim-de-semana. O caldo de galinha depois de uma dessas noites de estudo.
Hoje é divorciado e um advogado de sucesso. A mãe vai ao seu apartamento, onde ele vive sozinho, fazer as limpezas. Passa-lhe a roupa a ferro, deixa-lhe comida no frigorífico. O pai leva-lhe o carro à inspecção quando é preciso, e ao fim-de-semana dá-lhe uma aspiradela.
Ao sábado de manhã vai ter com os pais. Têm sempre algum mimo apesar de ele já não ter idade para mimos. Panquecas, bolo de chocolate, bolachas de gengibre.
Ao sábado à noite sai com os amigos. Apanha uma bebedeira ou arranja uma namorada ocasional. Pode passar o domingo a dormir e a ressacar, sem problema.

Hikikomori

daqui:http://akashicrecords.wordpress.com/2011/01/02/welcome-to-the-nhk-review/


Divorciado, na casa dos quarenta anos, classe média alta. Ou pelo menos tinha sido, quando vivera com aquela que fora a sua esposa e trabalhara como técnico informático.
Agora vivia no Japão. Não tinham sido vicissitudes da vida que o levaram até lá. Nem sequer foram as vicissitudes que o levaram ao divórcio, ou o divórcio que o levara ao Japão. Tinham sido antes altos e baixos existentes entre o seu ego e alter ego que, em vez de melhorarem, pioravam com a idade. Os quarenta anos pareciam ter sido a gota de água.
Hikikomori,  ou fobia social, para nós. Vivia no seu apartamento apertado como um funil em Tóquio. Tinha ligação à internet, ia às redes sociais ver as publicações da ex-mulher. Havia uma japonesa, na casa dos sessenta anos, que lhe fazia os recados e lhe trazia do exterior tudo o que ele precisava. Se ela sabia alguma língua ocidental que ele soubesse, ou se ele sabia japonês, não é do nosso conhecimento. Mas havia entre eles alguma forma de entendimento.
Também não estamos informados de como foi ele parar ao Japão, ou como ganhava ele a vida. Sendo técnico informático imaginamos que viva dos dividendos de algum software que criou. Ou lhe saiu o dinheiro nalgum jogo ou lotaria. Sabemos só que está em Tóquio, a ver filmes antigos e a ler policiais publicados em colecções já extintas. E a viajar no Google Earth.
Quando chove vai para a varanda apanhar os pingos de chuva. Quando faz frio procura ali arrefecer as orelhas, e em dias de sol sintetiza vitamina D. E imagina os jardins japoneses repletos de amendoeiras.

Poema e pequeno conto meu na revista InComunidade

Este mês houve novo convite, desta vez da revista InComunidade na qual participei também com muito gosto. Por lá podem ler o meu poema mtDNA Halogroup H1 e o meu pequeno conto Diáspora.

Pequenos Contos meus na Revista Literária Sítio

Foi com muito prazer que recebi o convite da Revista Literária Sítio para que com eles colaborasse este mês.

Por lá estão disponíveis alguns textos:

3000€

José era apenas um mendigo na casa dos cinquenta e tal anos. Tinha uma história igual a tantos outros, que se confundia com as histórias daqueles que ele conhecia e acompanhava nas ruas. Às vezes nem ele mesmo tinha a certeza onde começava a sua história e acabava a dos outros. Desemprego tinha sido o primeiro sinal. Desemprego prolongado foi o segundo. José não conhecia colocação em lado nenhum apesar da sua habilidade para o desenrascanço. Era bom em bricolage, não havia móvel que não conseguisse montar, torneira que não conseguisse arranjar, fechadura que não conseguisse mudar. Também sabia consertar electrodomésticos, se conseguisse encontrar as peças que necessitava. Aliás, no desemprego vivia de biscates de arranjos de elecrodomésticos, mas depois foi-se tornando cada vez mais difícil encontrar peças que pudesse usar. Sabia também um pouco de mecânica, de serralharia, de soldadura. Mas não sabia muito de nada, não tinha estudos nem especializações. Era o seu problema, diziam-lhe no centro de emprego. Já tinha sido talhante, trabalhado num balcão de um café, varreu ruas, foi estafeta e ainda comercial. Por fim arrumava carros. Lá no centro de emprego mandaram-no para um curso, para ele tirar o 9º ano. Mas os meses passaram, terminou o curso, terminou a bolsa, ficou com o 9º ano mas o emprego nunca mais aparecia.

Tinha uma filha. Fora casado durante 4 anos e foi durante esse tempo que a menina nasceu. Depois veio o divórcio, a ex-mulher foi para outra cidade. Enquanto ela foi pequena via-a duas vezes por ano: Ano Novo e verão. Quando era adolescente já só a via uma vez no verão. Depois só falava com ela por telefone, e os telefonemas escacearam. Agora só lhe telefonava pelo Natal e nunca lhe disse que estava na rua. Parece que tem duas netas. Nunca as viu. Deu uma morada falsa para que a filha tivesse para onde enviar as fotografias e dizia sempre que as meninas eram bonitas.

O alcoolismo veio depois. Já depois de dormir debaixo de vão de escada, protegendo-se com papelões do vento e do frio. Tinha um colchão encontrado à porta de uma casa, um saco-cama roubado numa estação de comboio, mantas fornecidas pela Cruz Vermelha. Para além disso havia uma caixa onde guardava um pouco de sabão, a fotografia da filha em pequena, uma mecha do seu cabelo e uma fotografia dos tempos da tropa. Ainda havia um relógio, que fora do seu pai, quinquilharia velha que nem sequer trabalhava.

De manhãzinha cedo ia aos balneários públicos. A roupa que vestia depois do banho era sempre a mesma. O corpo podia estar limpo, mas o cheiro da roupa suja persistia.
O dia continuava igual aos outros. Ir à Cruz Vermelha buscar comida ou agasalhos. Falar com a Assistente Social. Ver os  editais do Centro de Emprego. Vender Bordas d’Água.
José dava tratamento diferente ao dinheiro que fazia a vender Bordas d’Água e dinheiro que encontrava por acaso na rua. Com o primeiro comprava comida, tabaco, vinho e cerveja. Com o segundo comprava raspadinhas.
Naquela tarde encontrou 2€. Guardou-os no bolso até que encontrou uma papelaria. Entrou e comprou uma raspadinha. O bilhete era premiado: 3000€. O valor era demasiado alto para que lho pagassem ali na papelaria. Indicaram-lhe uma instituição bancária onde poderia ir buscar o dinherio. E José viu-se na rua com 3000 no bolso.

O que haveria de fazer? 3000€ só o iriam tirar da rua poucos meses, se os poupasse bem. O desemprego continuaria, o dinheiro acabaria, e voltar à rua era sentença certa. Quanto muito podia investir numa tenda, que ao mais pequeno descuido seria roubada. Empreender também não era solução. Aquilo que o podia desenrascar não exigia dinheiro, mas sim peças e clientes.
Passou por uma loja de chineses e comprou um fato-de-treino, um impermeável e umas sapatilhas. Foi até uma pensão sua conhecida. 25€ a noite. Franziram o nariz, mas ele mostrou o maço de notas. Deram-lhe o quarto. Lavou a roupa que comprou e meteu-a a secar no radiador. Tomou banho e deitou a sua roupa suja e mal cheirosa fora. Deitou-se nú, mal dormiu.
De manhã saíu do hotel. Pagou e a rapariga, que era a mesma que a tinha atendido à noite, segurou-lhe a mão com força:

- Tenha cuidado, não mostre o dinheiro. Ainda lho roubam. E gaste-o bem.

José foi até ao balneário naquela manhã. Não tomou banho. Mostrou os 2495€. Porque já não eram 3000. Todos disseram o mesmo:

- Não mostres o dinheiro.

- Poupa-o bem!

- Aluga um quarto!

Foi à Cruz Vermelha. Passou pela Assistente Social. Todos lhe disseram o mesmo. Almoçou num tasco com refeições a 5€. Voltou à mesma pensão. Desta vez dormiu. No outro dia de manhã tinha 2910€.

Fez a mesma ronda: balneário, Cruz Vermelha, Assistente Social. A todos disse o mesmo:

- Fui esta manhã a uma agência de viagens. Vou fazer uma viagem aos Açores.

De todos ouviu a mesma resposta:

- Não faças isso, tens falta do dinheiro.

- Vais gastar tudo num instante.

- O dinheiro pode fazer-te falta para outras coisas.

- Não tens vergonha? Tens uma sorte dessas e vais gastar o dinheiro numa viagem?

- Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Esse dinheiro devia era ter-me saído a mim.

- Há gente que não merece a sorte que tem.

Mas ir aos Açores era o sonho da sua vida, e aquela oportunidade não se repetiria. Antes de abalar telefonou à filha e despediu-se dos companheiros de rua. Passou por uma grande superfície comercial e comprou mais fatos-de-treino, meias, cuecas. Uma mala de viagem.
Morreu no dia em que ia regressar. Um enfarte. Ainda sobrou dinheiro para o funeral, e ficou enterrado nos Açores. Toda a gente pensou que ele tinha ficado sem dinheiro para voltar.

A espada do vampiro Yoru

Mal a noite tinha começado quando Vladimir se deslocou até ao hospital para muitas das suas visitas a Charles. Esperou discretamente, como quem espera por uma consulta, pela sua vez, e entrou no consultório.
- Tenho material.
- Xi, hoje é um dia mau... O Merhet está por cá... Pode aguardar para amanhã?
- Posso: mas sabes que quando mais dias tem o sangue menos bem sabe. Tu é que ficas a perder com a mercadoria.
- Mas está bem acondicionado?
- Sim, não te preocupes.
- Então amanhã assim que o sol se pôr passo pelo teu apartamento, antes de vir para o Hospital. Hoje não tenho hipótese de sair daqui.
Vladimir saíu do consultório, descontraído. O Charles que demorasse o tempo que quisesse, a ele não lhe fazia diferença. Afinal, a vida de vampiro traficante de sangue dos recantos mais exóticos do planeta para pitéus gourmet de vampiros que achavam que tinham status quo requeria uma certa dose de paciência.
Quando estava no lóbi de saída do Hospital encontrou Merhet, vampiro seu conhecido de há muito, patrocinador daquele Hospital e traficante de antiguidades egípcias. O crime, sem dúvida, era uma boa forma de viver para um vampiro. Ou isso ou ter de trabalhar para alguém como Mereht. Vladimir preferia o crime e a sua independência económica.
- Vladimir, não gosto que venhas fazer negócios ao meu Hospital. Aqui só quero negócios meus.
- Esteja descansado! - Vladimir só queria sair dali depressa, evitar aquela conversa e morder a primeira jovem incauta que encontrasse numa esquina da noite.
Foi então que reparou numa vampira chinesa, que acompanhava Merhet. De bata branca, certamente trabalhava ali.
- É Yoru, o nosso novo dentista. - Anunciou Merhet. Afinal era um homem.
- Mas ele está armado! - Escandalizou-se Vladimir. Apesar de uma das formas de se matar vampiros ser a decapitação da cabeça, havia uma norma de conduta que levava a que a maioria dos vampiros não andasse armado. Só alguns, por mera tradição, usavam espadas. Era o caso de Vladimir. - Mas quem é ele para andar armado?
- Vladimir, não esteja preocupado com Yoru. Ele é um lendário lutador japonês da época de revolução.
- Um Samurai?
- Não, um ronin. - Respondeu o Japonês com os olhos em brasa - Eu era filho de camponeses, nunca poderia ser um Samurai. - E a sua mão acariciou o cabo da espada de uma forma que Vladimir não gostou nada.
- Não admito tamanho desafio na minha presença! - Bramiu Vladimir enquanto segurava a sua espada medieval, pesada e a encaminhava na direcção de Yoru. Se a intenção era magoar o japonês ou simplesmente assustá-lo não saberemos, porque Yoru deslocou-se mais rapidamente do que a visão dos vampiros permitia ver. Num instante retirou da baínha a sua espada leve, de gume invertido, e fez voar a espada de Vladimir. Este caíu, com a força do impacto. Yoru encostou a espada ao pescoço de Vladimir. Os seus olhos flamejavam.
- Eu depressa acabo com isto. - disse, enquanto virou a espada para o seu lado afiado.
- Bem, vamos lá acabar com a brincadeira. - Interveio Merhet, encostando as suas mãos aos ombros de Yoru. O japonês relaxou e guardou a sua espada. - Certamente que precisam de se conhecer melhor. Vladimir, deves ter qualquer coisa boa para nos servir na tua casa, não? Talvez sangue com sakê?
- Sim, por acaso tenho. - Não lhe apetecia disfarçar que não era traficante de sangue com um carregamento de sangue acabado de chegar.
- Podes-nos trazer? Só para conversarmos um pouco melhor?
Não lhe bastava toda aquela confusão e ainda tinha de oferecer sangue àquele japonês descontrolado.

Natal no Hospital dos Vampiros, parte 2

O concerto tinha acabado, os músicos tinham sido despachados para um Hotel de luxo e os vampiros banqueteavam-se na sala de espera do Hospital com uns quantos humanos apanhados desprevenidos na noite.
Charles aquecia uma caneca de sangue com Prozac no microondas que tinha no gabinete, quando Yoru, o japonês, entrou.
- Arranjaste o que te pedi?
- Sim, está aqui - respondeu Charles enquanto entregava um saco de sangue a Yoru. - Sabes que não é nada fácil encontrar sangue de alguém embriagado com sakê.
- Sei, sim. Devo-te quanto?
- Nada, é prenda de Natal... - Yoru olhou-o espantado.
- Assim nunca vais juntar dinheiro para saires do hospital.
- Tenho a eternidade! - Respondeu - Não ficaste para a carnificina?
- Sabes que não. - Yoru tinha um problema enquanto vampiro. Um, não... Vários. Era por isso que ia muitas vezes ao consultório de Ella, que se derretia perante a indiferença dele.
Yoru confundia os sentidos, e se mordia pessoas perto de vampiros, podia acontecer que, cego pela raiva e por memórias da guerra da revolução japonesa desatasse a decapitar vampiros. Já tinha acontecido.
Charles tinha ciúmes por Ella parecer gostar tanto de Yoru, e não entendia o que as mulheres viam no meia leca do japonês, que até facilmente se confundia com uma mulher. Mas mesmo assim gostava do rapaz.
Yoru metera à boca o saco de sangue e refastelava-se. Corria-lhe sangue pelo canto da boca.
- Podias ter aquecido no microondas.
- Eu gosto frio. Faz-me lembrar o Inverno no Japão.
- Como está aquilo lá fora?
- Como haveria de estar? Merhet alimenta-se educadamente, Vladimir destroça os corpos e Laurent dança com os cadáveres.

Natal no Hospital dos Vampiros



- Posso entrar? – Do lado de fora da porta soou a Charles a voz de Merhet, um dos filantropos do Hospital. A sua voz era grave e profunda, algo que ele deve ter treinado ainda enquanto vida, nos corredores das cortes Egípcias. Merhet era sempre educado. O dinheiro dele fazia rolar o Hospital, ele podia por e dispor, armar os maiores escândalos e entrar consultórios dentro sem bater às portas. Mas nunca o fazia.
- Entra, sim! – Respondeu-lhe Charles enquanto punha de lado a papelada que estava a preencher. Merhet sentou-se na cadeira do paciente, sem qualquer problema em se sentar num lugar de subordinado.
- Em Paris? Aproveitar o Inverno?
- Sem dúvida. Gosto muito de vir a Paris. – Para Merhet não podia existir um “sempre gostei de vir a Paris”. Quando ele nasceu a cidade nem existia ainda.
- Como todos os vampiros, gosto de me vir esconder nas sombras do Inverno do hemisfério norte. – Apesar de tudo, as sombras de Inverno do hemisfério norte eram mais calmas, havia muitas cidades por onde os vampiros se espalhavam. As sombras de Inverno do hemisfério sul eram mais confusas e cosmopolitas, pois os vampiros concentravam-se em Buenos Aires.
- Gosto muito de vir ver o meu hospital de Paris. E este ano estou com uma ideia. Que tal fazermos um Natal dos Hospitais?
- O quê? – Charles não podia acreditar no que estava a ouvir. Nunca imaginara que Merhet se lembrasse de tamanha saloice. – Quem há-de gostar disso é o Vladimir.
- Sem dúvida. – Sorriu Merhet. – Mas não estava a pensar em Vladimir. Estava a pensar nos nossos clientes de tradição cristã, que são a maioria. – Merhet tinha sempre em vista o negócio.
- Merhet, por favor. A maioria são ateus!
- Sim, são. Mas até os ateus comemoram o Natal. – Lá isso era verdade.
- E tinhas pensado em alguma coisa?
- Em usar a prata da casa… - O sovina… - Pensei que o Laurent poderia dar um concerto com a sua antiga banda.
Charles ficou boquiaberto e não foi capaz de disfarçar o seu desagrado. Tudo o que Laurent queria sempre ser era o centro das atenções. Já estava a imaginar o enfermeiro a pavonear-se com uma camisa do século XVIII enquanto cantava, tal como o fez quando a sua banda foi um sucesso musical nos anos 1980, antes de ter de forjar a sua morte a uns supostos 27 anos.
- A banda continua a tocar, certo?
- Sim, Merhet, concertos de tributo à morte de Laurent. Mas eles estão todos velhos e caquéticos.
- Oh, mas eles gostariam de se voltar a reunir com Laurent, com toda a certeza. Eles sabiam que ele era vampiro, não sabiam?
- Sim… - Por alguma razão no funeral, enquanto todos os fãs choravam copiosamente eles se mantinham divertidos. – Não será perigoso mantê-los aqui no Hospital? Podem ser mordidos…
- Se Laurent não os mordeu…
- Estou a perceber a ideia… Devem cheirar a sangue ruim…
Charles encostou a cabeça à secretária. Já estava a ver o filme todo: Laurent a fazer olhinhos a Ella, Ella a fazer olhinhos ao japonês, e o japonês a querer cortar o pescoço a Vladimir.
Merhet ria.

O Natal do vampiro Charles

Era Natal. A cidade-luz apresentava-se, como sempre, galardoada com enfeites de Natal que traziam turistas de todo o mundo.
Charles seguia a pé para o Quartier Latin, onde morava, tentando ignorar o cheiro a sangue que era mais intenso naquela madrugada. Não festejava o Natal, não só porque fora judeu antes de ser ateu (o que ele já não sabe é se foi ateu por ser vampiro, ou não), mas também o detestava. Sempre detestou os sorrizinhos que os humanos gostavam de trazer estampados no rosto naquela época, por muito miseráveis que fossem as suas vidas. Detestava presépios, velas e missas do Galo. E detestava ainda mais o Natal moderno: iluminação colorida, árvores de Natal, Pai Natal (esse então, odiava), consumismo desenfreado.
O pior de tudo é que aquela época do ano lhe trazia uma nostalgia cuja origem desconhecia. Se calhar era pelos malditos sorrisos ou por ver as pessoas na rua a abraçarem-se umas às outras.
A madrugada de 25 de Dezembro estava calma. Os humanos refastelavam nas camas os seus corpos empanturrados em iguarias calóricas. Não era noite para noitadas, para bêbedos dormindo nos bancos de jardins e jovens raparigas acabadas de perder a virgindade. Só havia os mendigos, mas estes conheciam Charles bem demais para saber que ele não os mordia.

Antes de entrar em casa pegou no telemóvel: ainda era tempo de telefonar a Ella, na eterna esperança de poder empurrar o seu corpo esguio e curvilíneo contra uma parede. Sim, naquela noite estava assim: bruto.
Mas Ella não atendeu. Possivelmente teria ido comemorar o Natal com o louco do enfermeiro Laurant. Ou não, esperava que Ella fosse mais esperta que isso.
Abriu a porta de casa. Apetecia-lhe ir ligar a aparelhagem, por a tocar o seu adorável Bach, e enfiar com um Prosac dentro de uma caneca de sangue aquecido no micro-ondas.
Pelo contrário, soou-lhe um qualquer músico dos nossos dias, daqueles que ele não conseguia distinguir a voz.
- Amigo, Feliz Natal!
- Oh não, por favor, não comemoro o Natal. - Era Jean, o seu amigo humano dramaticamente imune a vampiros. Talvez a única coisa boa que Laurent tenha feito em dois séculos e meio de existência. Jean estava em pijama e pantufas e aparentava ter visto filmes romanticos durante toda a noite.
- Mas comemoro eu, e não o quero comemorar sozinho.
- Já comemoraste sozinho. O dia está quase a nascer! Que horror, cheira a comida! Cozinhaste?
- Já jantei, não te preocupes.
Jean finalmente adormece no sofá. Charles não tinha sono e ficou ao lado de Jean, enquanto via desenhos animados, a única coisa que dava aquela hora na televisão. Sem esquecer o seu sangue com Prosac.

Feira de Garvão

(texto publicado no Diário do Alentejo a 29-11-2013)

O destino da rapariga naquele dia era Garvão, e não nenhum petisco de cabeça de borrego assada no café da estação da Funcheira, bastando para isso apenas virar no sentido contrário no cruzamento da estrada que iria seguir. Desta vez a obrigação falou mais alto, e virou para a vila, onde iria dar formação de novas tecnologias, a um grupo de pessoas com idade para ser seus pais e avós, numa sala sem rede de telemóvel ou Internet, tendo ainda a companhia de um cão cheio de pulgas e carraças que um formando insistia em levar para a sala.
A viagem não tinha sido das melhores. Antes mesmo de Santa Luzia tivera de percorrer alguns kilómetros atrás de um camião carregado de troncos de árvores, vendo-se impossibilitada de o ultrapassar, devido ao trânsito fora do vulgar naquele dia, por causa da Feira de Garvão. Valeu-lhe um incidente que a poderia ter morto: soltou-se um tronco de árvore do camião em direccção ao seu carro, que por acaso, depois de bater no asfalto, foi cair longe do veículo deixando-a a salvo. O condutor do camião, tendo-se apercebido do sucedido, encostou o veículo à berma da estrada. Ela teria seguido tranquila, mas ficara com o corpo todo a tremer, inclusive as unhas dos pés que devia ter cortado pela manhã, no banho.
Antes mesmo do cruzamento entre a Funcheira e Garvão, ainda muito afectada, haveria de ser testemunha de um cenário tão mirabolante que chegou mesmo a pensar que estava a abrir um daqueles mails de piadas que as pessoas enviam umas às outras quando não têm nada para fazer no trabalho (ou são mestres em procrastinação). Na caixa de uma carrinha, 4x4, que seguia à sua frente, estava um cavalo em pé, mas com difícil equilíbrio devido às suspensões lixadas. Haveria o animal de ir para venda na feira, só podia, e o seu dono, à falta de transporte e detentor do dito desenrascanço português, decidiu resolver o problema cometendo várias contra-ordenações ao código da estrada ao mesmo tempo.
Ora, e porque ela também enviava mails desnecessários aos seus contactos e gostava de partilhar futilidades no facebook, resolveu tirar uma fotografia ao cavalo, a partir do seu telemóvel, em pleno acto de condução.
Estava ainda a focar a imagem, tarefa difícil, dada a situação, quando houve um apito longo e repara que estava a ser utrapassada por um jipe da GNR, com um guarda bracejando ferozmente direito a si, indicando assim, que tinha de encostar. A jovem teve de parar o carro sem ter conseguido tirar a fotografia.
- Sabe que falar ao telemóvel enquanto conduz dá direito a multa?
Ia responder o quê? Que não estava a falar ao telemóvel, quando estava a fazer outra operação, da qual não tinha prova, mas que se tivesse de nada lhe valia, porque lhe reservava multa na mesma.
- Viu o cavalo na carrinha de caixa aberta? – Tentou ainda desviar a atenção do militar da GNR.
- Muito gostam de ver os ciscos nos olhos dos outros. – Respondeu-lhe o guarda, enquanto começava a passar a multa.