Estar aqui


Rembrandt van Rijn,
Philosopher in Meditation (1632)
Estar aqui
ou estar ali
é sempre uma dúvida.

É como o não se saber bem.

Às vezes age
como um preconceito.
A angústia da dúvida,
do não saber o que escolher.

Outras vezes
surge como liberdade.
Como um sabor doce na boca.
Como um gostinho a cheiro de ar.

E gostar
de estar duplamente dividido,
espacialmente.

E de outras vezes
não gostar.

© 2000

Duas cozinhas




in http://www.lindapaul.com/New_Orleans_Southern_Art_Paintings_for_Sale.asp
Quando há pouco espaço, as pessoas aproveitam-no muito bem. Por exemplo, nas cidades, os apartamentos costuma ser muito pequenos, e para além do espaço muito bem aproveitado, as pessoas evitam ter objectos de que não precisam.
Quando há muito espaço há tendência para se guardar tudo e para se ter muitos objectos de que não se precisa. E o espaço, para além de não ser tão bem aproveitado, também costuma ser utilizado de forma disparatada.
Conheço muitas pessoas que têm duas cozinhas em sua casa. Uma muito bonita, ou que consideram muito bonita, com os equipamentos todos! Muito limpa, muito arrumadinha, a brilhar, mas que não é usada. Conheço cozinhas dessas que nem têm tubagens de água para as suas belas torneiras poderem funcionar. É a cozinha de fachada que não serve para nada. Costumam utilizar outra cozinha, normalmente construída no quintal, com azulejos desencontrados que sobraram de outras obras. Essas cozinhas já se podem sujar e nelas já se pode cozinhar. Normalmente o fogão é velho, mas eficiente. Os tachos e panelas costumam estar muito usados. A comida feita ali sabe bem. Normalmente há uma lareira para fumar enchidos. Por causa da lareira, a família passa quase todo o tempo livre ali, especialmente no inverno. Por causa disso, costuma haver nessa cozinha um grande sofá velho e uma televisão das pequenas. A televisão grande, e nova, está na sala. A sala também é outro sítio museu (onde estão em exposição os naperons e o serviço de cristal), para onde ninguém vai.

© 2011

Saltos Altos




in http://nancifulmek.wordpress.com/
Quando a minha irmã ficou desempregada, ainda se arranjava como se fosse para o emprego durante muito tempo. No emprego que tinha antes, era necessário ir sempre muito arranjada, fato de saia ou de calça, saltos altos, pintura sóbria e cabelo arranjado. Depois começou a cansar-se de se arranjar assim só para ficar em casa. Abandonou os saltos altos, deixou de se pintar e de arranjar o cabelo, e por fim deixou de vestir fato de saia e casaco. Aliás, chegou a uma altura em que só vestia fato de treino, porque só se sentia confortável assim.
Depois de enviar muitos currículos e de responder a muitas propostas de emprego, a minha irmã é chamada para uma entrevista. Vai ao armário e todos os seus fatos lhe estavam largos, pois tinha emagrecido desde que ficara desempregada. Escolheu um, mas teve de o mandar apertar, para que lhe servisse.
No dia da entrevista voltou a vestir-se como antes, arranjou o cabelo, pintou-se solenemente e calçou uns sapatos de salto alto. Quando está a chegar à paragem de autocarro, o que precisava de apanhar estava pronto a sair. A minha irmã teve de correr um pouco para o tentar apanhar. Foi nesse momento que caiu e partiu um pé. Já não foi à entrevista.
Estou a contar isto tudo para vos explicar o que aconteceu já depois dela ter regressado a casa com o pé engessado. O marido e os filhos foram-na encontrar sentada no chão, junto do armário onde guardava os sapatos, a cortar todos os saltos. Depois os sapatos tiveram de ser jogados para o lixo, pois ficaram um pouco estranhos, como barcos naufragados.

O Diário

Rembrandt,
Portait of an Old Man in Red
O sótão era uma nuvem de pó sobre os móveis e velharias que durante décadas se acumulavam.
- Havia muitos anos que o avô não vinha cá – talvez por isso a porta que dava acesso ao sótão custasse a abrir, presa por uma argamassa construída pelos anos. Talvez por isso também em casa se acumulasse tralha inútil e inconcertável – os velhos não deitam nada fora.
No sótão as peças guardadas contavam a história de uma vida. Em vez de arrumar tudo em caixas para procurar um destino, os netos desarrumaram a vida guardada pelo avô. Mexiam com curiosidade cada objecto, tocavam-lhe com carinho.
- Olhem o que encontrei! – Gritou entusiasmado um dos netos. Os outros correram a rodeá-lo, curiosos sobre a nova relíquia a explorar.
Dentro de um grosso caderno envelhecido e empoeirado, de capa grossa de couro e de páginas com pontas dobradas, seguiam-se apontamentos datados, escritos pela letra do avô.
Finalmente puderam arrumar os pertences do velho homem, dividi-los entre eles e dar-lhes um destino com que todos concordassem. O diário foi o legado que decidiram conservar. Ao lê-lo, não esqueceriam o avô, e aquilo que ele tinha escolhido ser digno de contar, pertenceria à família para sempre.

Sobre uma mulher magra

Francisco Goya,
Woman with a fan
A magreza naquela idade não condizia com a vivência que os anos só lhe poderiam ter dado. Os cabelos de menina tapavam os sulcos dos anos. Bebia carioca de limão como almoço, mal se erguendo nos tacões altos. Qual é a história de uma mulher assim? Imaginar-lhe sonhos, aventuras, dramas e amores… o seu aspecto era denunciador de futilidade, e a sua história deveria ser como muitas outras que polvilham revistas cor-de-rosa ou romances de ficção, cujas capas coloridas chegam ao top. Mas seria mesmo assim? Não haveria nada naquela mulher que fizesse a sua história valer a pena? Algo secreto, mórbido, tenebroso, ou um gesto de amor, amizade, solidariedade?
Talvez tenha sido esta a mulher, que numa festa das que tanto ia, na sua juventude, cheia de glamour e a clamar pela beneficência dos pobres, tenha olhado nos olhos do garçon enquanto as amigas enumeravam os jantares, as roupas, as jóias e as viagens, enquanto o marido e os amigos enumeravam os negócios e as amantes. E quando olhou nos olhos daquele rapaz, pouco mais jovem que ela, deixa-se invadir pela tristeza. Tristeza com que ainda hoje sorri. Era jovem, era bela, era rica: tudo podia. Arranjou modo de enfrentar o garçon nessa noite. Beijou-o, mas os lábios dele não lhe responderam:
- Desculpe senhora. Estou aqui para trabalhar, nada mais.


© 2011

As cidades

Rembrandt,
View of a Town on a River
A cidade é uma cidade. Todas as cidades são cidades em si mesmas. Apesar de diferentes, todas são cidades. Umas  mais modernas, outras mais antigas. Umas com arranha-céus espelhados, outras com prédios baixos e com história. Umas a norte, outras a sul. Umas frias e geladas, outras quentes e sujas. Umas cinzentas ou sem cor, outras amarelas, douradas, azuis e verdes ou em tom pastel. Há cidades tão brancas que nos deixam cegos. Umas com cheiros e sabores, picantes, doces, salgados, outras sem sabor e sem cheiro porque as pessoas não têm tempo. Umas mais a oriente, outras mais a ocidente. Umas únicas, outras iguais a tantas outras. Umas em paz, outras em guerra. Umas perto do mar, com praia, com cheiro a maresia, outras no interior, com fontes e lagos para refrescar as ideias. Pessoas. Todas as cidades têm pessoas. As ideias das pessoas. Há sempre muitas pessoas nas cidades. Sem pessoas, as cidades seriam fantasmas.

A explicação das sopas


Jean François Millet,
Woman Baking Bread, 1854

No Alentejo não se gosta de comer sandes nem fatias de pão com qualquer coisa. Come-se sopas1 de pão (que podem tanto ser em caldo como sopas de pão com conduto  - por exemplo, uma sopinha de pão com queijo) ou então comem taçalhos2 de pão (o meu preferido é o taçalho de pão com linguíça3).
É comum as sopinhas de pão acompanharem petiscos, como se fossem tapas espanholas. Por exemplo, os caracóis costumam vir acompanhados de umas fatiazinhas de pão (podem estar torradas) com manteiga. Estas fatiazinhas são sopas.
Quando se tem fome, em vez de uma barrita de cerais, como nas cidades se faz, come-se uma sopinha de pão, e às vezes até a côdea!
É por isso que, numa casa alentejana, não pode faltar o pão tradicional!
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1 - Sopas de pão: fatias de pão pequenas e finas, com que, por exemplo, se faz a açorda.
2 - Taçalhos de pão: fatias grandes e grossas, às vezes com forma piramidal.
3 - Linguíça: chouriço para os Lisboetas.