Epigramas




beijar-te-ia apenas uma vez,
e seria como amar-te para sempre
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a amizade quando verdadeira é tal modo forte,
que não haverá espaço ou tempo a afastar a memória.
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O exílio é o local indesejado onde permaneço obrigada,
Longe da carícia do sonho e da música da ilusão.


O Espaço do Tempo

Vê se demoras!
Aprende a poder demorar.

Demora:
Possui o tempo!
Faz o tempo ser teu.

Alarga:
Afasta-te!
Adquire um espaço teu.

Alarga:
Dá espaço!
Faz uma distância só tua.

Capricha:
Não te podes demorar?
Não te podes afastar?
         Então certamente amas!

Recordatio ad Portum




in http://fineartamerica.com/featured/rubella-boats-at-porto-sheryn-johnson.html
No Porto tudo foi novidade para mim. Não só por nunca ter lá ido: também por me ter deparando com um mundo do qual desconhecia existência tão bela. Pertencente a outro hemisfério, sem nada de Mediterrânico, ou de Europa Central. O Atlântico absoluto, ali, a um estender de dedos. Totalmente novo, a descobrir, a chamar curiosidade, a pedir que eu tocasse e aprendesse todos os cantos da cidade. Lisboa de algum modo pertence-me, tenho algo dela em mim. Sendo-me o Porto exterior, tive o desejo de também ele me pertencer.
No Cais da Ribeira, eu sentada, perdi a noção do tempo, absorta a observar as cores dos prédios que invadiam a esplanada e o rio. Era manhãzinha, e estava vazia. Fechei os olhos para sentir a frescura do Douro e ouvir as gaivotas, que atrevidas, tratavam o Porto como uma continuação do rio.
Esquecida da minha existência, delirei a ouvir a manhã. Isolei os sons da cidade e tentei ouvir o que havia para além dela. O trânsito não oprime os gritos das gaivotas. Ouvia-as voar, fazer vôos rasantes aos meus ouvidos. Contudo elas estavam longe. Eu reagia como alguém habituado a Lisboa, ao barulho de Lisboa, a raramente ouvir os sons para além de uma cidade.
Silêncio. Sei que quando digo silêncio o destruo.
Silêncio. Sendo impossível em qualquer sítio, quer no Alentejo ou na minha mente, foi o que me pareceu ouvir no Porto.
Silêncio da cidade. As pessoas percorrem as ruas, a pé. Muitas. Fazem as compras da manhã. Os turistas passeavam pela cidade, o trânsito percorre as ruas. Não. Não é o silêncio. É outra coisa. Mas quero-lhe chamar silêncio (porque é silêncio, o apagamento de todos os sons que reconheço em Lisboa. O trânsito. O burburinho das pessoas. As buzinas, as travagens, os aviões).
Há barulho, muito barulho. Mas um barulho diferente. Em Lisboa é a correria das pessoas que fogem, e se querem afastar de ti. No Porto é um barulho quente de gente que não receia cumprimentar desconhecidos. Havia um calor vindo do coração das pessoas ao falarem comigo. Estranhei. Senti-me em casa.
O sol acordara brilhante, iluminava o espelho do rio e dava cor às paredes cinzentas da cidade. Cinzentas de pensamentos de poetas que gastaram os seus dedos a escrever sobre dores e ritmos. O amor parece viver, ali, naquelas paredes. Um nevoeiro que me turvava a alma, fazia de mim triste e sofredora, mas obtendo um prazer doentio disso.
Entretanto ignorava a minha mãe, que achara a minha pose sublime e me tentara fotografar. A máquina não respondia. Eu comprara rolos a preto e branco, porque achei que condiziam com o romantismo da cidade, mas o destino pregara-me a partida de avariar a máquina e não pude tirar fotografias. Mas aquilo que ela tem de mais, nunca o poderia fotografar. Parecia um aviso divino a pedir-me que guardasse tudo no meu coração, porque o mais que o Porto é nunca poderia ficar guardado em fotografias. Nem nas palavras que tento descrever. É inútil. Só a alma o saberá, sentido. Não há língua, não há arte que o exprimam.
Os meus olhos guardaram com força todas as imagens, por saberem que não haveria fotografias. E o sol, que atrevido me apresentou uma cidade amena aos olhos, para melhor compreender como era amena ao espírito.

Barco Negro

“De manhã, que medo
que me achasses feia!
Acordei tremendo
Deitada na areia...”

Acordei naquela madrugada, a última, ao som de tambores que ao longe miúdos tocavam no areal. O dia mal tinha nascido, mas o sol ainda não te acordara. Tínhamos os corpos nus por cima da areia, frios da noite, quentes do amor. Os nossos membros enroscados, os narizes juntos: os lábios adormeceram num beijo.
E tive medo, medo, de acordares e de me achares feia, dos olhos inchados do sono, dos lábios já sem a cor do batom. Enchi-me de coragem, beijei a tua face e tu despertaste.

“Mas logo os teus olhos
disseram que não
e o sol penetrou
no meu coração”

O teu olhar acariciou a minha beleza, chegou-me dentro e aqueceu o meu coração de amor.

“Vi depois numa rocha, uma cruz
e o teu barco negro
dançava na luz...”

Ergueste o teu elegante corpo e olhaste o mar a fazer-se cinzento. Fui forte e não chorei, mas tu tiveste de partir. Eu nada disse, porque sempre soube que um dia irias embora de mim, e apenas resistiria da tua memória uma cruz cravada na rocha.
O céu tornou-se negro, e, por entre as nuvens, os raios de sol alumiavam o teu barco, a navegar entre relâmpagos e chuva. Eu na praia continuava nua despedindo-me do teu corpo. Pingas de água caiam sobre mim, tornavam-se as lágrimas que a minha coragem afastara.

“Vi teu braço acenando,
entre as velas já soltas...”

Acenei-te e sorri-te. Penso que não me viste. Acenavas porque sentias que eu ainda estava ali a ver-te. O teu barco ficou negro como negras eram as velas dos barcos que iam de Atenas a Creta, levar o sacrifício de rapazes e raparigas à fúria do Minotauro. Negro de luto.

“Dizem as velhas da praia que não voltas
São loucas!
São loucas!”

Todos os dias vou à praia a ver se te vejo voltar. Dizem que estou louca. O teu barco nunca mais foi visto, perdeu-se nas ondas da tempestade. Não! As loucas são elas.
Mas não. Porque sei que ainda és. Sinto-te em todo o lado: tu próprio mo segredas ao ouvido.

“Eu sei meu amor:
Nem chegaste a partir
Tudo, em meu redor,
Me diz que estás sempre comigo.”

Lembro-me ainda de, entre beijos e carícias, brincares comigo na praia, e lançares areia para cima de mim e eu sem gostar:

“No vento que lança
areia nos vidros;”

Continuas a brincar comigo. Outras vezes cantavas, só para mim, à noite, para eu adormecer, como se criança eu fora:

“Na água que canta;”

Ouço a tua voz na chuva. Ouço-a no mar que te engoliu. Sinto-te nas noites de inverno, no fogo do lume, que tu costumavas acender;

“No fogo mortiço;”

E deixavas morrer em brasas, para no dia seguinte eu assar o peixe que trazias do mar. Sinto ainda na nossa cama o teu corpo quente. Pela manhã está o sinal do teu corpo nos lençóis:

“No calor do leito;”

Continuo a por o teu prato na mesa. A tua roupa continua no armário. E quando me sento, sei que no lugar vazio ao meu lado também tu estás sentado:

“Nos bancos vazios;”

Pescador-fantasma, continuas a acompanhar-me, e eu sem medo, jogo a mão ao vazio, mas não agarro nada. À noite beijas-me e sopras-me ao ouvido: “Eu sei meu amor”, sei que sofres, mas estou aqui:

“No meu próprio peito
Estás sempre comigo.”

Só tenho pena de naquela noite na praia a tua semente não ter deixado fruto no meu ventre, para eu poder viver melhor a solidão do teu corpo vazio ao meu lado. Canto então para afastar o sofrimento.

Poemas de David Mourão-Ferreira.

Do Jardim das Hespérides ao Jardim do Éden

Como aluna desta faculdade* quis responder ao apelo que foi afixado em vários sítios: apelo à participação na revista comentário pela parte de professores, alunos e funcionários. O tema de “Jardins e Labirintos” suscitou-me interesse e resolvi escrever um artigo.
Estou longe de pegar num tema desconhecido. Todos sabemos da nossa comum proveniência de um pseudo povo indo-europeu, que é a base de toda a cultura da Índia ao Ocidente. A teoria é mais conhecida por causa da origem das línguas, mas a ideia de uma religião indo-europeia que depois variou conforme os povos não é totalmente desconhecida.
Há muitos temas de religião e mitologia (chamar-lhe-emos apenas mitologia) que se podem confrontar e ver pontos em comum (e também os divergentes) e tentar encontrar uma luz acerca do mito original.
Não me proponho a tão grande empresa: sinto-me incapacitada. Deixo-a para os especialistas e talvez mesmo, para os sábios. No entanto, como interessada pela mitologia, especialmente pela clássica, não quis deixar de fazer um artigo que de algum modo falasse disto, e se encontrasse com o tema “Jardins e Labirintos”.
Digo agora porque falo de mitologia e evito o termo religião. É certo que um dos “temas” que irei pegar é o Jardim do Éden, que aparece no primeiro livro da Bíblia: Génesis. Mas é conhecido de todos, e assumido pela própria Igreja, que teve de ceder perante a evidência do evolucionismo, que o Livro dos Génesis não corresponde à realidade, mas é apenas uma representação desta, uma leitura dos Homens da palavra de Deus.
Sem querer entrar em grandes pormenores, nem a querer definir mito, digo aqui que é a mito que a isto soa, e por isso falo em mitologia.
Não se pode negar, dadas as evidentes parecenças, as influencias dos povos Sumérios e das suas histórias nestes primeiros mitos da Bíblia.
São portanto dois mitos que confronto: o greco-latino do Jardim das Hespérides e o Bíblico do Jardim do Éden. Tão longe um do outro: o primeiro jardim situar-se-ia no Ocidente, em Marrocos; o segundo no Oriente, no Iraque. Contudo tão próximos também.

1.                 As maçãs

Símbolo da sabedoria, ligada ao feminino, a maçã aparece tanto num como noutro como objecto essencial de passagem a uma iniciação. Num a sabedoria dá a vida, noutro, dá a morte. É uma diferença que vem da diferença do carácter dos dois povos. Nós, influenciados por ambos, oscilamos na balança. Umas vezes sonhamos com a imortalidade que a sabedoria nos pode dar: a obra feita em vida e que perdura depois da nossa morte. Outras lamentamos a infelicidade que o conhecimento nos traz: sabemos qual vai ser o nosso trágico fim, e ao desacreditar numa possível vida depois da morte, ficamos depressivos pelo nosso fim absoluto. E vem então a nostalgia da felicidade dos ignorantes, cujo símbolo máximo são as crianças e a sua inocência. Inocência que perdemos inevitavelmente durante a adolescência.
No Jardim do Éden a árvore proibida, no centro do jardim, é a árvore da ciência do bem e do mal. No entanto, comer aquele fruto, ganhar ciência e capacidade de discernimento e de distinção entre o bem e o mal, matava.
Ou melhor: ficava-se a saber que se morria.
Nada mais é que o perder da infância, uma passagem, a adolescência do homem, altura em que a capacidade de entendimento cresce: mas o saber das coisas é incomodativo: saber que para além do bem existe o mal, saber que caminhamos inevitavelmente para a morte.
Todos sabemos a história: Adão e Eva viviam felizes e inocentes. Caminhavam ao lado um do outro mas sem que sentissem vergonha pela sua nudez. É a felicidade da ignorância, de que tanto se fala, e se tem falado.
Entretanto Eva é espicaçada pela serpente, que lhe desmente a palavra de Deus, e lhe promete que não morrerá. Deus não quereria que eles comessem o fruto da árvore proibida, porque atingiriam um conhecimento do bem e do mal e seriam como ele.
Eva não resistiu à tentação. Comeu e deu a comer a Adão. Imediatamente perderam a inocência, assim que obtiveram a ciência. Deu-se a Queda do Homem.
Uma passagem toda ela repleta de culpa, originária do pecado original, onde a mulher é a principal culpada, ou por outras palavras, o agente da acção, a principal interveniente. O nascimento de Maria Mãe de Deus, concebida sem pecado original, conseguido pelos pais não terem tido relações, veio dar origem a uma nova era, fundada por um homem-deus, Jesus, que quebra com toda a tradição até aí.
Não nos podemos esquecer que o pecado original será fortemente conotado com a relação sexual. No entanto, Adão e Eva (que se chamava Virago, e que Deus só chama Eva depois de comer o fruto) só se conhecem depois de expulsos do Paraíso.
É um ponto de vista que culpabiliza a mulher, por ter sido ela a primeira a ceder, e por ter levado Adão a comer o fruto. Mas Eva acaba por ser o ponto central desta passagem, e o seu meio principal. É ela a primeira a perder a inocência, ou melhor, a adquirir o conhecimento. A ciência e o senso comum mostram-nos que são as raparigas a chegar primeiro à puberdade e a dela saírem. É ela que também sofre a maior mudança, pois também muda o nome.
É depois pela mão de Eva que Adão recebe o fruto. Talvez referencia às antigas sociedades matriarcais, aos seus antigos ritos. Ou talvez dizendo que o homem não é capaz de viver sem a mulher, sem a sua sabedoria e maturidade. Do mesmo modo que ela depende dele quando lhe é entregue, quando Deus a entrega à sua protecção.
A má interpretação do crescimento por parte dos homens leva a esta culpabilização, a uma nostalgia da perda da infância e da inocência, a uma vergonha do sexo.
A Héracles são dados dez trabalhos que cumpriu, mas tendo Eristeu lhe desqualificado dois, são então aumentados o número de trabalhos. O décimo primeiro é o de roubar as maçãs do Jardim das Hespérides. Aqui já o fruto é explicitamente a maçã.
Enquanto que o Jardim do Éden seria a Oriente, este agora situa-se num lugar mítico a Ocidente, onde os cavalos do Carro do Sol terminavam a sua jornada e onde Atlas sustinha os céus. Não nos esqueçamos da semelhança entre os vocábulos Hespérides e Hespéria. A Hespéria para os gregos era a terra colocada a Ocidente. Primeiramente teria sido a Península Itálica, depois a Ibérica. Seria um lugar mítico a Ocidente, não longe da ilha dos Bem-Aventurados; por si só já fascinante para os clássicos, ou não fosse o lugar onde o sol se punha. Um lugar mítico, colocado num extremo do mundo, do mesmo modo que o era o jardim do Éden.
Neste jardim havia umas macieiras que geravam pomos de ouro. Tinham sido plantados por Hera, quando esta os recebeu como presente de casamento de sua mãe Gaia (Mãe Terra).
Quem guardava as macieiras eram as filhas de Atlas, as três Hespérides, Egle, Erítia e Hesperaretusa.
No entanto elas já tinham roubado maçãs, pelo que agora estava como guardião vigilante Ládon, um dragão. Há fontes que o indicam como primogénito de Gaia. E então temos a ligação das maçãs à terra e à mulher.
Guardado por três mulheres, pertencendo a uma, Hera, oferecidas por outra, Gaia. As maçãs de ouro, ao contrário do fruto bíblico, prometem a imortalidade. Um modo diferente de entender o adquirir do conhecimento: faz-nos crescer e não sofrer. Talvez esteja de algum modo ligado à filosofia, nem que fosse no âmago destes povos e no seu modo de pensar. Mas a verdade é que tanto estóicos como epicuristas consideravam o conhecimento e o estudo um dos modos de afastar o medo da morte.
E por muito heróico que seja este mito e triste que seja o bíblico, o grego está muito mais longe do humano que o segundo.
Eva oferece a maçã a Adão. O conhecimento é transmitido por um ritual, a maçã é oferecida de livre vontade. No entanto Heracles rouba as maçãs. Engana Atlas, que até as vai apanhar apenas para se livrar por um momento do pesado fardo de sustentar os céus e mata o dragão. As Hespérides dão de boa vontade as maçãs. Mas elas já tinham mostrado ser más guardiãs.
Não há a mesma cumplicidade que há entre Adão e Eva.
A sabedoria de Gaia, da mãe terra, feminina, é roubada por caprichos e manhas dos homens. Pode não haver culpabilização, mas o acto foi mais atroz. Enquanto no mito bíblico temos uma serpente como personificadora do mal, aqui é o homem de sua livre vontade que o comete. Não evita a atrocidade humana.
Felizmente, assim que Héracles levou as maçãs a Eristeu, este resolveu devolvê-las. Deu-as a Atenas (deusa da sabedoria, Minerva romana), que as deu às ninfas, pois os bens de Hera não lhe podiam ser retirados. É assim que a sabedoria volta à origem, à terra, à mãe e o mundo é reequilibrado. Do mesmo modo que Jesus veio reequilibrar, quebrando com o passado.

2.                 A serpente

Um ser presente em muitos mitos, e com uma especial relevância na mitologia de origem indo-europeia. Originariamente não representa o mal, está em ligação com a Terra Mãe, com o matriarcado, e simboliza a sabedoria.
No mito de Apolo, a serpente Píton protegia um oráculo. Ora, o oráculo está intimamente ligado à sabedoria. Por ordem de Hera, Píton persegue Latona quando está grávida dos gémeos Ártemis e Apolo. Mais tarde, para se vingar do mal feito à sua mãe, Apolo mata Píton, e fica com o seu oráculo. Contudo, não lhe deixa de fazer as devidas homenagens. Instituiu em Delfos os jogos Píticos, que eram jogos fúnebres a Píton. A sacerdotisa que profere o oráculo continua a chamar-se Pitonisa.
Com o passar para a era do patriarcado o poder da serpente, ligado à mulher, torna-se mal visto. A serpente torna-se então um obstáculo a ultrapassar para adquirir a sabedoria. A mulher não passa de um obstáculo entre o homem e a sabedoria.
Nos Gênesis torna-se num confronto, entrega-se o poder da mulher ao homem, que a possui e a afastada da serpente, ficando ambas inimigas. No entanto há um maior equilíbrio. A mulher dá sabedoria ao homem, quando lhe entrega o fruto, e este dá-lhe protecção quando são expulsos do paraíso. E ambos ficam afastados da serpente, ser desprezível, rastejante, no início da cadeia da evolução.
Apesar de expulsos do paraíso (ou melhor, vendo que o mundo que os rodeava não era um paraíso, como era para eles o mundo quando crianças) Adão e Eva evoluem, afastam-se da animalidade, e juntos constroem a sua vida, por meio da partilha.
Aquando da nova era, o filho de Deus nasce da nova mulher, imaculada e afastada do pecado original que o dá à luz no interior de uma gruta: é o retorno à Terra mãe e o regresso do equilíbrio.
No mito do Jardim das Hespérides a serpente é o Dragão Ládon, filho primogénito de Gaia, e é morto por Heracles, que representa a força masculina (viri), que rouba as maçãs. Que rouba a sabedoria que Gaia ofereceu a Hera. Ládon é morto e deste modo também se afasta a primitividade. As maçãs são devolvidas, e o mundo é reequilibrado, livre de uma influência nefasta.
A serpente na Bíblia torna-se a representação do mal absoluto, no demónio, e acompanha o imaginário da vida de Santos. S. Jorge e S. Miguel Arcanjo lutam com ela tal como lutou Apolo.


* À altura era estudante na FCSH/UNL

Nas Tuas Mãos - Despir da Sensualidade


 «Nesse verão de 1968 fui presa por nudismo, com mais cinco amigos, numa praia deserta para os lados de Sesimbra. Já se usavam biquinis, mas a grande moda do ano eram os fatos de banho sem lados. Jenny costumava dizer, olhando para as revistas de moda com um ar desanimado: “ Qualquer dia os costureiros ficam no desemprego.” Quando eu voltei para casa, depois de o meu pai pagar a fiança e de três dias de castigo na prisão de Caxias, Jenny sorriu, abraçou-me, beijou-me e serviu-me uma limonada com um bolo de chocolate acabado de fazer. Antes de ir buscar Natália, ainda voltou a sorrir e disse: “Agora que a pele se tornou um tecido, as pessoas já não têm como se despir. Que tristeza. É o fim do erotismo.”»
Inês Pedrosa

Nas Tuas Mãos - Despir da Sensualidade

Durante uma leitura que me surpreendeu pela positiva (juro que não esperava, nunca tinha lido Inês Pedrosa) deparei com esta frase: “Agora que a pele se tornou um tecido, as pessoas já não têm como se despir. Que tristeza. É o fim do erotismo.”
Falar de moda implica muitas vezes falar de roupa. Claro que a moda não acarreta apenas vestuário, mas todos aqueles “mimos” (expressão apanhada num documentário sobre selecção natural) de que vivemos rodeados, dos sofás em que nos sentamos às obras de arte que colamos nas paredes de nossas casas. Os próprios comportamentos sofrem modas.
Mas desta vez vou ser muito tradicionalista e vou falar de roupa. Não de passerelles, não quero falar de arte. Quero apenas falar de quotidiano.
Vamos começar tudo de princípio: pré-história, Jardim do Éden, tanto faz. A verdade é que no início andávamos todos nuzinhos, assim mesmo... em pelota! Está certo, nessa altura estávamos muito cobertos de pêlo. Não se poderia, com toda a certeza, ter mais do que erotismo de macaco.
Os pêlos foram caindo, e peles de animais foram cobrindo os corpos humanos. A era glacial aproximava-se, e as vestes eram, acima de tudo, para proteger o corpo. Mas... bem podemos imaginar um homem-pré-histórico a [des]cobrir as vestes da mulher-pré-histórica, e a descobrir a maravilha que estava embrulhada...
Enquanto a era glaciar aos poucos desaparece, a roupa persiste. Tornou-se um hábito. Mesmo quando no estio era dispensável. Sabemos que os Homens desta altura em nada eram diferentes de nós. Só lhes faltava descobrir ou inventar, ao longo de milénios, as pequenas coisas de que estamos rodeados. Os “mimos”. A sobrevivência da espécie já não está ameaçada e agora o sucesso de cada ser humano não depende de como sobrevive no meio natural, mas sim de como vive no meio social.
Faltava descobrir que as roupas leves no verão até protegiam a pele. Descobrir, aos poucos, que despertar a curiosidade pode despertar a sensualidade, que o “saber tapar” suscita o erotismo.
As palavras que Inês Pedrosa fez a sua personagem dizer revelam uma preocupação: a perda do erotismo. Se não se tapa o corpo, se já todos o conhecem, não é despertada curiosidade em o descobrir. Um homem já não se surpreende ao despir pela primeira vez uma determinada mulher porque já lhe tinha adivinhado o corpo.
Numa altura em que se perdeu a desculpa da vergonha (nascida da sacralização do amor: “o meu corpo é só para ele; o meu corpo é só para ela”), pensa-se ter perdido a necessidade de tapar o corpo, vendo neste gesto uma necessidade primitiva indispensável apenas no Inverno. Achando-nos subdesenvolvidos, porque ainda tapamos os nossos corpos no verão, se bem que pouco. Recorremos ao nudismo e ao naturalismo nas praias mais recônditas, para de algum modo sermos evoluídos e civilizados. Porque achamos civilizado olhar o corpo de outra pessoa sem sentir qualquer sinal de desejo. Sem querer estamos a voltar ao primitivismo.
Contudo, se atentarmos, vemos que a maioria dos adeptos do nudismo são casais. Porque não há nada a descobrir no corpo um do outro. Como estão juntos, ver os outros nus não tem qualquer interesse, e é como se estivessem os dois a sós. Já são amantes há muito.
Não há nenhuma regressão, há antes uma tentativa de regressão que não dá resultado. É inevitável estarmos sempre a evoluir. Talvez apenas tenha mudado o modo de vermos as coisas. O corpo há-de ser sempre um local de sensualidade, e o amor teima em ser sagrado.
O sexo e o amor estarão sempre ligados a um acto íntimo. Não estamos a ser púdicos quando cobrimos o corpo. Apenas estamos a dizer: “isto não é de todos, é só de quem eu quero.” Talvez seja por isso que se perca o respeito por alguém que não saiba cobrir o corpo devidamente.
Vestirmo-nos não é só um acto de necessidade fisiológica ou social. É um viver da sensualidade. O suscitar da curiosidade e da descoberta, tão humanos.
Claro, que cobrirmo-nos não significa andar de burca.
Talvez assim se explique a explosão da moda das tatuagens e dos piercings. Numa época em que o corpo se libertou da vergonha de outros tempos, dá-se-lhe uma outra pele, uma obra de arte permanente no corpo. De algum modo, estamo-nos sempre a cobrir.

In Largo das Portas do Sol (Lisboa)

Lisboa e o Tejo,
Abel Manta
Relaxo sentada num misto de olhar e sentir. O vento sopra fresco e adivinha a noite, mas quando acalma, deixa o sol aquecer a pele, sol que ainda brilha nesta tarde de fim de primavera.
O rio parece um mar à primeira vista, mas vislumbra-se a outra margem debaixo de uma ténue bruma.
Ainda na outra noite, de Santo António, andei meio perdida nas ruas de Alfama: a confusão da multidão humana não me permitiu aproveitar a doce arquitectura daquilo que é realmente a Lisboa portuguesa, a Lisboa antiga.
O cheiro da brisa vinda do rio, o sol ameno, a luz e o céu azul de primavera. O som dos pássaros entremeia o som dos eléctricos a passar nos carris.
O meu corpo está cansado de andar (hoje) e os meus olhos de estudar (sempre). O meu espírito pesa em sentimentos. A alegria, a aventura, a solidão. Sei que estou só. Aqui e sempre, mesmo que agora alguém estivesse ao meu lado, eu estava só. Contudo parece que é isso que me dá alento à vida. Que me dá força: sentir-me uma pedra que escolheu o caminho para rolar da encosta abaixo.
A visão oposta: ver o rio e os barcos a passar...Quando venho de comboio para Lisboa tenho de atravessar o rio de barco e ganho a oportunidade de ver a cidade de uma prisma único, sagrado. Como se tivesse sido construída para as vistas das ninfas do rio. E estar aqui, deste lado da cidade, faz-me parecer parte da paisagem. Quando olho o rio, estou a espreitá-lo, a cometer o sacrilégio de vê-la.
Quem sabe encontre uma ninfa que tenha tirado a sua cabeça do rio para espreitar. E podia fazer daí um conto. Eu transformar-me ia no homem vestido de negro, de feições nobres e alma perdida, que ficaria sentado na mesma cadeira onde eu estou, a observar: veria a ninfa e escreveria sobre ela. Talvez se atrevesse a procurá-la. Mas a ninfa, assustada, fugiria (e arrepender-se-ia o resto da vida) e ele partiria, sem nunca mais ser visto nas ruas de Lisboa.
Devia ficar quieta, a continuar o meu papel de estátua, mas a vida espera-me e tenho de ir.