Sweet Porcelain

imagem daqui: http://www.hickerphoto.com/picture/czechoslovakian-handmade-dolls-17513.htm

Eram para mais de vinte bonecas, sentadas na flanela que tapava a bancada. Os olhos brilhantes, as faces brancas e rosadas. As boquinhas pequeninas. A suavidade da porcelana. Os seus vestidos rendilhados e delicados.
Havia-as louras, ruivas. Umas de cabelinho escuro, com franja à Beatriz Costa. Havia-as com totós, tranças, caracóis, lacinhos. Havia-as com doces olhos negros, com expressivos olhos azuis, com atraentes olhos verdes. Havia-as sérias, chorosas, bochechudas, carinhosas, desdentadas como pequenos bebés.
A sua bancada encimava o final da feira. As pessoas olharam encantadas. Os homens sorriam, as crianças não se aproximavam, envergonhadas com tanta beleza.
As velhotas iam ter com elas, sonhadoras das bonecas que nunca tiveram. Acariciavam-lhes os cabelos, ajeitavam-lhes os tecidos.
- Quanto custa uma boneca?
É cara, talvez. Os olhos perdem-se nas necessidades mais básicas. Tecido branco para lençóis. O marido tinha a serra velha: era capaz de aparecer para a comprar, com mais umas árvores de fruto e uns pés de cebolinho. Os baldes e as bacias de plástico até não estavam caros. Mas ainda faltava a fruta, os queijos.
Os transeuntes seguem e passam durante o dia. No final, quando as barracas foram arrumadas, apenas algumas bonecas tinham sido vendidas. O suficiente para o feirante fazer o dia.
Uma senhora que a comprara para a neta. Uma menina que abrira o mealheiro. O coleccionador de bonecas de porcelana. O outro, de objectos curiosos. A estrangeira que nunca tinha estado numa feira.
Amanhã, as bonecas seguirão para outro local, encantar outros olhares.

CrossRoad


in http://olhares.aeiou.pt/madalenapercheiro
Percorri uma estrada ao sabor da manhã, no sentido de um destino perdido no meio do horizonte, longe, mas perto, como todos os locais no Alentejo.
Liguei o rádio, que rugiu porque me tinha esquecido da antena, apenas a apanhar o RCP. Sem problema: é uma das minhas estações preferidas.

Ah, mas soube-me bem o Sol a aquecer através dos vidros (estava frio do lado de fora). Percorri a estrada ladeada de estevas ainda por florir, e os campos cromáticos, dos primeiros verdes das chuvas tardias, junto com os amarelos-palha desbotados pela seca, as envergonhadas margaridas, flores talvez mais resistentes. As pedras da força deste espaço, os tímidos regatos a borbulharem.
Parei. Desliguei o rádio. Abri o vidro para poder ouvir os sons dos pássaros.
Depois prossegui. Pela estrada de estevas a encontrar os pastores que me cumprimentavam sem me conhecerem de lado nenhum. Eu buzinava à sua solitária e idílica profissão, e por fim dei uma gargalhada à Janis Joplin. Talvez por causa da música.
Ou talvez porque estava a gostar muito da viagem.
E fiquei pensando nos pastores. Talvez um dia fale da profissão-sonho dos poetas.

O Silêncio




in http://olhares.aeiou.pt/jdematos

Ouço agora o barulho provocado pela vibração causada pela brisa a bater nas minhas orelhas.
Vejam o silêncio quase absoluto que aqui existe, para eu ouvir o que conto que estou a ouvir.
Aproveito o prazer nos sons ténues, tão caro é ouvi-los. Os meus ouvidos vivem ofuscados no barulho na cidade (não me queixo, gosto dele), mas foram educados no silêncio. Aproveito o conhecimento adquirido dessa oportunidade para distinguir os sons que ouço.
Dizem que quem é educado no silêncio é capaz de ouvir mais.
Já estou aqui há um momento, enquanto escrevo. Logo que desci do comboio fiquei fascinada pelo silêncio. Agora pareço já habituada, e deixo de estranhar. O som dos pássaros numa árvore torna-se infernal. Infernalmente aprazível.
De vez a vez ouço ao longe o batucar dum martelo.
Foi um som a que me habituei no silêncio. O eco que o martelar faz ao longe. No meio do silêncio e da paz alguém trabalha. Daqui far-se-ia uma história de um camponês solitário.
De repente os meus ouvidos são magoados. O altifalante anuncia a chegada do comboio vindo do Algarve, daí a 10 minutos. Aposto que feriu o vale todo. Ao contrário do martelar.
Silêncio de novo. Ouço um telefone. Daqueles pretos antigos, anos 70. Lembro-me das reminiscências de um filme qualquer.
O som do telefone parece-me condizer com tudo. Dá-me prazer. Eu nem sei porquê.

Um Sobreiro na Minha Rua




in http://olhares.aeiou.pt/nfbc
Passeava pela rua, nos primeiros dias de estadia no novo sítio: exploração de terrenos. Novos caminhos. Novas vistas. Onde é a mercearia? E a farmácia? Qual o caminho mais perto? Ali é o cinema? Ah, uma escola!
As crianças balburdiavam no recreio, jeito de crianças que brincam felizes. Aquele burburinho saudável que nos recorda momentos felizes da infância. Ia a olhar para elas, revendo-me em cada gesto quinze anos antes, quando sinto que os meus pés pisam algo duro e escorregadio. Pequeno, jeito de baga. Olho para o chão: qual o meu espanto quando vejo montes de bolotas, ainda verdes, talvez caídas pelo vento, espalhadas pelo chão. Elas só poderiam vir de um sítio.
Olhei para cima e vi qual a sombra que me amainava o espírito. Os braços enormes de um sobreiro protegiam o meu frágil ser alentejano em diáspora, qual ventre da terra mãe. Bendita arvore sagrada.
Ali, na minha rua, a fazer-me lembrar que no mundo há mais que a realidade, os horários e o estudo. Há momentos de sonho, surpresa, em que se ouve a infância a invadir-nos, debaixo de um sobreiro, viajando por momentos no tempo e no espaço, voltando de novo para o pátio da escola que foi a minha.

DN Jovem Entre o Papel e a Net – História e Memórias de uma Transição

Soube através do Blog da Revista Os Meus Livros da publicação do livro DN Jovem Entre o Papel e a Net – História e Memórias de uma Transição, da autoria de Helena de Sousa Freitas, ex-diretora adjunta do Diário de Notícias.

A apresentação vai ser feita por Pedro Mexia (ex-dnjónico), no próximo dia 28, às 18h30 na livraria Bulhosa Books & Living Entrecampos.

Ai tantas saudades dos velhos tempos!




Para mais informações: Esfera do Caos Editores

Dourados Alentejanos




in http://olhares.aeiou.pt/galeria-pessoal/31536

Não só porque é Outono. Final de Outono. Temos a ideia feita das folhas das árvores a cair. Ideia dada por filmes americanos.
No Alentejo caem as folhas das figueiras. Grandes e rápidas. Caem as folhas das videiras, que antes de morrer tingem de tinto as encostas.
Ou então perto das ribeiras, os carvalhos e plátanos ficam dourados, e transformam em lugares românticos o que há uns meses era um ribeiro seco.
Nas nossas vilas e pequenas cidades, principalmente em escolas, praças e lugares públicos ajardinados é costume ver-se plátanos, que por estas alturas se desnudam.
Não só porque é Outono, final de Outono. Noutros países é a altura da neve começar a cair. Por cá, só este fim-de-semana dei por uma queda abrupta das folhas.
De manhã cedo acordei e fui até à Gulbenkian. Quando entrei no jardim havia pouco que se havia começado a limpar as folhas caídas. A humidade exaltava, e eu ficava feliz, pisando as folhas, aos milhares, construindo um tapete dourado aos meus pés.
E lembro-me de recordações. Muito antigo antigas para a minha juventude: a  represa, antes de ter sido remodelada, era assim, repleta de folhas secas, que satisfaziam com a alegria as minhas botas que as teimavam em lançar ao ar. Ou então, o dourado da minha felicidade, junto ao Liceu. Por pura e simplesmente estar junto da minha mãe, e achar que todas aquelas folhas só poderiam ser a coisa mais bela que existia. E que eu era a menina mais feliz do mundo só porque estava ali.
De resto, Outono no Alentejo, para mim é sinónimo dos primeiros verdes, que surgem tímidos debaixo das folhas já castanhas da humidade.
De resto, o dourado é uma cor de Verão.

Comboio do Sado




in http://www.arteflow.org/pintura/angelo/angeloini.html

Manhã matina. Avanço no badalar suave do comboio intercidades Lisboa-Faro, até ao bar. Tomar um café para vencer o sono. Beber uma água, abrir as páginas de um livro, mas antes de o ler, entregar as pálpebras cerradas ao afago da luz solar.
Ler no comboio é um prazer infindável, sobretudo, quando esse comboio nos leva de regresso ao Alentejo, a uns dias de descanso. Há todo um sentimento de paz e de calma: esperam-me um fim-de-semana de um nada que fazer.
Mas hoje a viagem deveria ser dedicada à escrita: percebi-o após a meiguice quente do Sol, quando descerro os olhos e vejo o Vale do Sado a amanhecer.
Soube, que até chegar a Alcácer, a viagem seria entre o papel e a contemplação dos arrozais, dos seus secos restos do longínquo verão, das suas aves de voos elegantes, do brilho da água repousante.
Só depois a viagem, e a leitura continuaram.