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Investir na Escrita
A pedido da Olinda Gil, irei deixar aqui algumas breves reflexões sobre a escrita e da experiência de publicar. Começo por fazer um breve resumo do meu percurso literário, se tal se pode chamar aos breves momentos que tive no mundo da escrita.
Comecei a escrever em 2009 com o único intuito de postar num fórum de livros do qual fazia parte, e onde existia uma secção dedicada à escrita. Não havia cá ambições de publicar em livro, era algo que fazia porque me dava prazer. Comecei a escrever umas vinhetas e uns minicontos com muitas mortes e sangue e a postar no fórum. Divertia-me a temática, a reacção que a leitura provocava nos leitores e continuei. Surgiu na altura um concurso que aceitava contos, desenhos e poesia e que anunciava publicação em papel. Concorri e fui seleccionada e independentemente da problemática que envolveu o livro, gostei e foi a minha primeira publicação. Como na altura a editora não ofereceu um exemplar a cada autor, a crítica foi feroz e a editora foi categorizada como Vanity. Sinceramente foi-me quase indiferente, e sim comprei um exemplar, mas fui publicada e fiquei bem classificada, e isso incentivou-me a continuar a escrever.
Como consequência escrevi bastante, os primeiros textos intragáveis como é óbvio, depois aprendi a rescrever e fui melhorando. Como em tudo, o treino faz a diferença, podemos já ter predisposição para alguma das “artes”, mas como costumo dizer aos meus filhos, para sermos muito bons em algo, teremos de trabalhar muito e treinar mais ainda, seja para ser tenista, jogador de polo-aquático (no caso dos meus dois rebentos), quer para escrever bons contos.
Continuei a escrever e foi crescendo então a vontade de voltar a publicar em papel em vez de deixar tudo “na gaveta”. A minha primeira tentativa foi direccionada para concursos de Câmaras, ainda tentei três ou quatro, mas os entraves são muitos, primeiro gastamos dinheiro no envio dos exemplares e na impressão das cópias, já que nenhuma aceita submissão via email. Depois os tempos de espera são enormes, os temas demasiado vagos, o júri demasiado heterogéneo, e depois os prémios em dinheiro já estão maioritariamente “entregues”. Como precisava de praticar e queria feedback, e como neste tipo de concursos, nunca ouviria uma palavra critica sobre o trabalho e como a qualidade ainda não estava no ponto necessário, repensei as minhas opções. Por isso, a fase seguinte foi procurar alternativas, por esta altura começaram a surgir fanzines e revistas em Portugal à procura de submissões. Tentei as que encontrei na net e tive algum sucesso e também muitos emails não respondidos.
Podem-se já convencer de uma coisa, pior que um “não”, é mesmo a indiferença. E foi o que eu encontrei mais, não respondem. Nem para dizer que receberam, nem para dizer que não estão a aceitar submissões ou que não querem contos não solicitados. Nada.
Mesmo assim, o importante é não parar. Não parar de escrever e de tentar. Existem inúmeras alternativas e cada “aspirante” a escritor deverá decidir qual a melhor para si. É possível criar o próprio blog e publicar os trabalhos na net, é possível criar ebooks (pdf, mobi e epub) e pôr em sites (pagos e não pagos), há concursos que aceitam submissões para antologias de contos, para publicar em papel ou em ebook. Há editoras a receber submissões. Há também opções para quem quiser pagar a sua edição, tudo é aceitável, desde que cada autor saiba o que vai fazer. É preciso ter muito cuidado com qualquer uma das opções. Em TODAS há hipóteses de correr mal. Publicar online trás o perigo de roubarem os vossos trabalhos ou de ninguém ler o que tentam publicitar com tanto carinho. Nos concursos podem ser publicados e nunca receberem o que vos prometeram. Podem também publicar numa edição com pouco mérito e de ficarem conotados a um mau trabalho. Se pagarem pela vossa edição, podem acabar por ter nas mãos um trabalho rude, com má capa ou má impressão e sem a devida edição, podem nunca ser distribuídos em lojas, ou de receberem em casa 400 exemplares e não terem ninguém que vos ajude nas vendas. Enfim, como em tudo informação há e muita é só preciso investigar.
Publicar é como investir num negócio (sem a parte de poderem ficar ricos), e para que o negócio corra bem, é preciso pensar antes de agir.
- Tem um bom produto → Tem um bom romance/conto para enviar para algum lado?
- Precisão de fazer uma pesquisa de mercado → Quais as editoras existentes no mercado? Quais as que publicam o vosso género de literatura? Aceitam submissões de trabalhos?
- Quanto dinheiro tem para investir no vosso negócio → Muito, pouco ou nenhum?
- Posso investir dinheiro? → Posso pagar uma revisão, tradução ou uma capa?
- Quanto tempo pode “perder”? → Blog, facebook, twitter? Publicitação, divulgação, entrevistas, emails, etc.
- Como publicitar? Onde?
- Quem vai participar/ajudar?
As dúvidas e dificuldades existirão em todo o vosso percurso, o que vos posso “aconselhar” é: não tenham pressa, nem se precipitem. Apenas tem uma oportunidade para criarem uma primeira boa impressão. Se o vosso primeiro trabalho for mau, as dificuldades irão duplicar ou triplicar.
Boa sorte e boa escrita.

