Autora de "Sobreviventes" (2015), "Sudoeste" (2014) e "Contos Breves" (2013). Começou a escrever na adolescência para o "DNJovem" e desde aí tem colaborado em diversos sites, revistas literárias e coletâneas.
A viagem de comboio
Não era com frequência que o sonho se repetia, mas repetia-se. Sonhava sempre que andava de comboio, por linhas que sabia não existir. Em comboios desactivados há muito.
Sabia apenas que o destino dessas viagens era voltar para casa. Não sabia de onde vinha, não sabia o que fora fazer.
O comboio atravessava um deserto que ela sabia não existir. Num sítio, onde, na realidade, passa um rio e a paisagem é verdejante. O comboio dava muitas voltas para chegar ao destino. O seu percurso, por vezes, assemelhava-se mais a uma montanha russa que à linha de um comboio.
No final o comboio nunca conseguia chegar. Umas vezes era porque a linha terminava. Outras era porque não havia estação.
Sentia-se sempre estranha quando tinha este sonho. Acordava com uma terrível sensação de incompletude. Esforçava-se para afastar o sonho da sua mente e para evitá-lo comparar com a sua própria vida.
Ao primeiro olhar o sonho parecia não lhe dizer nada, mas dizia. Apesar de nunca dali ter saído, de nunca ter viajado, de não conhecer outras terras, o sonho gritava-lhe pela sua incapacidade de fazer o que fosse da sua vida. Os anos passavam e nada nela havia de obra. Deixara os estudos incompletos, nos empregos não renovava contratos, encontrava amantes mas não namorados. A sua vida ora parecia uma linha incompleta ora parecia que não tinha estação para onde ir.
Escrita vs Exercício Físico
Tem sido difícil conjugar estas duas actividades: escrita e exercício físico. Não porque não tenha tempo, até tenho, mas por causa da distribuição que lhe tenho de dar.
Na verdade tenho de dispensar tempo da escrita para o exercício físico. Antes que morra e não escreva nada.
A escrita é algo emocional. É algo que eu gosto de fazer.
O exercício físico, por seu lado, é racional. É algo que tenho de fazer.
A conjugação até tem resultado. Tenho-
me concentrado para aproveitar melhor o tempo que escrevo. Mas dizer que algo resulta não significa que esteja contente com isso.
O que eu queria mesmo era não ter de fazer exercício físico, e poder ficar mais esse tempo a escrever.
Na verdade tenho de dispensar tempo da escrita para o exercício físico. Antes que morra e não escreva nada.
A escrita é algo emocional. É algo que eu gosto de fazer.
O exercício físico, por seu lado, é racional. É algo que tenho de fazer.
A conjugação até tem resultado. Tenho-
me concentrado para aproveitar melhor o tempo que escrevo. Mas dizer que algo resulta não significa que esteja contente com isso.
O que eu queria mesmo era não ter de fazer exercício físico, e poder ficar mais esse tempo a escrever.
Na manhã em que se soube da morte de José Alencar
"Na manhã em que se soube da morte de José Alencar" é um pequeno conto da minha autoria que disponibilizei na plataforma Wattpad.
É uma pequena ficção histórica em que Bulhão Pato recorda José de Alencar.
É uma pequena ficção histórica em que Bulhão Pato recorda José de Alencar.
Assuntos de Escrita - Investir na Escrita por Marcelina Gama Leandro
Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Marcelina Gama Leandro, autora do blog: Fénix. Podem também visitar a sua página no Goodreads.
Investir na Escrita
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Investir na Escrita
A pedido da Olinda Gil, irei deixar aqui algumas breves reflexões sobre a escrita e da experiência de publicar. Começo por fazer um breve resumo do meu percurso literário, se tal se pode chamar aos breves momentos que tive no mundo da escrita.
Comecei a escrever em 2009 com o único intuito de postar num fórum de livros do qual fazia parte, e onde existia uma secção dedicada à escrita. Não havia cá ambições de publicar em livro, era algo que fazia porque me dava prazer. Comecei a escrever umas vinhetas e uns minicontos com muitas mortes e sangue e a postar no fórum. Divertia-me a temática, a reacção que a leitura provocava nos leitores e continuei. Surgiu na altura um concurso que aceitava contos, desenhos e poesia e que anunciava publicação em papel. Concorri e fui seleccionada e independentemente da problemática que envolveu o livro, gostei e foi a minha primeira publicação. Como na altura a editora não ofereceu um exemplar a cada autor, a crítica foi feroz e a editora foi categorizada como Vanity. Sinceramente foi-me quase indiferente, e sim comprei um exemplar, mas fui publicada e fiquei bem classificada, e isso incentivou-me a continuar a escrever.
Como consequência escrevi bastante, os primeiros textos intragáveis como é óbvio, depois aprendi a rescrever e fui melhorando. Como em tudo, o treino faz a diferença, podemos já ter predisposição para alguma das “artes”, mas como costumo dizer aos meus filhos, para sermos muito bons em algo, teremos de trabalhar muito e treinar mais ainda, seja para ser tenista, jogador de polo-aquático (no caso dos meus dois rebentos), quer para escrever bons contos.
Continuei a escrever e foi crescendo então a vontade de voltar a publicar em papel em vez de deixar tudo “na gaveta”. A minha primeira tentativa foi direccionada para concursos de Câmaras, ainda tentei três ou quatro, mas os entraves são muitos, primeiro gastamos dinheiro no envio dos exemplares e na impressão das cópias, já que nenhuma aceita submissão via email. Depois os tempos de espera são enormes, os temas demasiado vagos, o júri demasiado heterogéneo, e depois os prémios em dinheiro já estão maioritariamente “entregues”. Como precisava de praticar e queria feedback, e como neste tipo de concursos, nunca ouviria uma palavra critica sobre o trabalho e como a qualidade ainda não estava no ponto necessário, repensei as minhas opções. Por isso, a fase seguinte foi procurar alternativas, por esta altura começaram a surgir fanzines e revistas em Portugal à procura de submissões. Tentei as que encontrei na net e tive algum sucesso e também muitos emails não respondidos.
Podem-se já convencer de uma coisa, pior que um “não”, é mesmo a indiferença. E foi o que eu encontrei mais, não respondem. Nem para dizer que receberam, nem para dizer que não estão a aceitar submissões ou que não querem contos não solicitados. Nada.
Mesmo assim, o importante é não parar. Não parar de escrever e de tentar. Existem inúmeras alternativas e cada “aspirante” a escritor deverá decidir qual a melhor para si. É possível criar o próprio blog e publicar os trabalhos na net, é possível criar ebooks (pdf, mobi e epub) e pôr em sites (pagos e não pagos), há concursos que aceitam submissões para antologias de contos, para publicar em papel ou em ebook. Há editoras a receber submissões. Há também opções para quem quiser pagar a sua edição, tudo é aceitável, desde que cada autor saiba o que vai fazer. É preciso ter muito cuidado com qualquer uma das opções. Em TODAS há hipóteses de correr mal. Publicar online trás o perigo de roubarem os vossos trabalhos ou de ninguém ler o que tentam publicitar com tanto carinho. Nos concursos podem ser publicados e nunca receberem o que vos prometeram. Podem também publicar numa edição com pouco mérito e de ficarem conotados a um mau trabalho. Se pagarem pela vossa edição, podem acabar por ter nas mãos um trabalho rude, com má capa ou má impressão e sem a devida edição, podem nunca ser distribuídos em lojas, ou de receberem em casa 400 exemplares e não terem ninguém que vos ajude nas vendas. Enfim, como em tudo informação há e muita é só preciso investigar.
Publicar é como investir num negócio (sem a parte de poderem ficar ricos), e para que o negócio corra bem, é preciso pensar antes de agir.
- Tem um bom produto → Tem um bom romance/conto para enviar para algum lado?
- Precisão de fazer uma pesquisa de mercado → Quais as editoras existentes no mercado? Quais as que publicam o vosso género de literatura? Aceitam submissões de trabalhos?
- Quanto dinheiro tem para investir no vosso negócio → Muito, pouco ou nenhum?
- Posso investir dinheiro? → Posso pagar uma revisão, tradução ou uma capa?
- Quanto tempo pode “perder”? → Blog, facebook, twitter? Publicitação, divulgação, entrevistas, emails, etc.
- Como publicitar? Onde?
- Quem vai participar/ajudar?
As dúvidas e dificuldades existirão em todo o vosso percurso, o que vos posso “aconselhar” é: não tenham pressa, nem se precipitem. Apenas tem uma oportunidade para criarem uma primeira boa impressão. Se o vosso primeiro trabalho for mau, as dificuldades irão duplicar ou triplicar.
Boa sorte e boa escrita.
Assuntos de Escrita - Escrever por Escrever e Escrever para Divulgar por Sara Farinha
Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidada Sara Farinha, autora do blog: Sara Farinha. É autora do romance Percepção.
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Escrever por escrever e Escrever para divulgar
Há muito que a divulgação daquilo que escrevemos está entregue a nós próprios. Longe vão os tempos, se é que alguma vez existiram de facto, em que as editoras e os meios de comunicação social se interessavam pela produção literária a nível nacional. Cada vez mais recai sobre nós, escritores e artistas, parte importante da promoção dos nossos trabalhos.
Hoje, é preciso ter conhecimentos numa série de áreas para além da escrita em si mesma. É necessário perceber um pouco de publicidade, de marketing, do funcionamento das redes sociais e de escrever com outras vozes que não a de autor literário.
Ser-se escritor passa, também, por gerir uma ou várias plataformas que ajudem a divulgar o nosso trabalho. Uma delas é (criar e manter) um blogue. Gerir um espaço virtual deste género implica fazer uso de uma verdadeira plataforma de autor, desenhada para expor o que escrevemos, quem somos, aquilo em que acreditamos e defendemos enquanto pessoas e escritores.
Escrever num blogue, mesmo num que é assumidamente a nossa plataforma de autor, exige toda uma nova voz de escritor. Não usamos aquela que nos distingue em prosa, nem a que nos identifica em poesia, ou em qualquer outro género literário que seja da nossa preferência. Aqui, aventuramo-nos com a nossa própria voz e usamos o espaço virtual para chegarmos aos leitores e, em simultâneo, damo-nos a conhecer como indivíduos.
Como tenho afirmado, em outros artigos e entrevistas relacionadas, a blogosfera tem um papel cada vez mais relevante na divulgação do nosso trabalho. O mundo paralelo formado por blogues e redes sociais, administrados por pessoas dedicadas à promoção dos valores culturais no nosso país, são uma ferramenta de valor inestimável nesta busca por exposição dos nossos escritos.
Como blogger, coisa que faço desde 2007, tenho testemunhado um crescimento espantoso de colegas. Muitos deles trabalham com afinco e dignificam-nos, acrescentam valor sem pedir nada em troca.
Na minha experiência pessoal, acredito que o meu cantinho virtual muito tem contribuído para divulgar os meus escritos. É uma espécie de guia da minha realidade diária que agrega as várias facetas do meu percurso como escritora, autora publicada, poetisa e aprendiz constante desta arte que se faz de palavras.
Sei que muitos há que não gostam ou acreditam que escrever num blogue possa trazer algo de bom para a sua escrita. Eu discordo em absoluto. Manter um blogue significa crescer como autores e como pessoas, aprender a lidar com a exposição pública, abrir as nossas portas à crítica, escrever com regularidade, partilhar aquilo que pensamos, analisar o caminho sob outra perspectiva e permitir que novos desafios nos encontrem.
Um blogue, para além de ajudar a divulgar a minha escrita, ajuda-me a escrever mais e melhor. Responsabiliza-me por aquilo que crio. Incentiva-me a partilhar o que sei e a aprender constantemente. Mas, acima de tudo, ensina-me que só o esforço regularmente exercido traz benefícios, um deles, a enorme satisfação pessoal.
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Escrever por escrever e Escrever para divulgar
Há muito que a divulgação daquilo que escrevemos está entregue a nós próprios. Longe vão os tempos, se é que alguma vez existiram de facto, em que as editoras e os meios de comunicação social se interessavam pela produção literária a nível nacional. Cada vez mais recai sobre nós, escritores e artistas, parte importante da promoção dos nossos trabalhos.
Hoje, é preciso ter conhecimentos numa série de áreas para além da escrita em si mesma. É necessário perceber um pouco de publicidade, de marketing, do funcionamento das redes sociais e de escrever com outras vozes que não a de autor literário.
Ser-se escritor passa, também, por gerir uma ou várias plataformas que ajudem a divulgar o nosso trabalho. Uma delas é (criar e manter) um blogue. Gerir um espaço virtual deste género implica fazer uso de uma verdadeira plataforma de autor, desenhada para expor o que escrevemos, quem somos, aquilo em que acreditamos e defendemos enquanto pessoas e escritores.
Escrever num blogue, mesmo num que é assumidamente a nossa plataforma de autor, exige toda uma nova voz de escritor. Não usamos aquela que nos distingue em prosa, nem a que nos identifica em poesia, ou em qualquer outro género literário que seja da nossa preferência. Aqui, aventuramo-nos com a nossa própria voz e usamos o espaço virtual para chegarmos aos leitores e, em simultâneo, damo-nos a conhecer como indivíduos.
Como tenho afirmado, em outros artigos e entrevistas relacionadas, a blogosfera tem um papel cada vez mais relevante na divulgação do nosso trabalho. O mundo paralelo formado por blogues e redes sociais, administrados por pessoas dedicadas à promoção dos valores culturais no nosso país, são uma ferramenta de valor inestimável nesta busca por exposição dos nossos escritos.
Como blogger, coisa que faço desde 2007, tenho testemunhado um crescimento espantoso de colegas. Muitos deles trabalham com afinco e dignificam-nos, acrescentam valor sem pedir nada em troca.
Na minha experiência pessoal, acredito que o meu cantinho virtual muito tem contribuído para divulgar os meus escritos. É uma espécie de guia da minha realidade diária que agrega as várias facetas do meu percurso como escritora, autora publicada, poetisa e aprendiz constante desta arte que se faz de palavras.
Sei que muitos há que não gostam ou acreditam que escrever num blogue possa trazer algo de bom para a sua escrita. Eu discordo em absoluto. Manter um blogue significa crescer como autores e como pessoas, aprender a lidar com a exposição pública, abrir as nossas portas à crítica, escrever com regularidade, partilhar aquilo que pensamos, analisar o caminho sob outra perspectiva e permitir que novos desafios nos encontrem.
Um blogue, para além de ajudar a divulgar a minha escrita, ajuda-me a escrever mais e melhor. Responsabiliza-me por aquilo que crio. Incentiva-me a partilhar o que sei e a aprender constantemente. Mas, acima de tudo, ensina-me que só o esforço regularmente exercido traz benefícios, um deles, a enorme satisfação pessoal.
Os diálogos ("Diz que disse")
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| retirado daqui |
Quando iniciei as minhas primeiras aventuras na escrita, lá para os idos de 1996/1997 escrevia uns diálogos muito secos, sem aquilo que eu chamo o "diz que disse". Era qualquer coisa como:
- Olá está tudo bem?
- Sim, está tudo, obrigada. E tu, como vais?
Depois lá me avisaram que não era muito correcto escrever assim, e que deveria dar indicações de que falas deveriam pertencer a cada personagem. Então lá comecei a introduzir o "diz que disse":
- Olá está tudo bem? - Disse o Manuel.
- Sim, está tudo, obrigada. E tu, como vais? - Disse o Ricardo.
Depois comecei a melhorar esta fórmula. Estas frases do "diz que disse" servem muito bem para colocar expressões dos personagens, sentimentos, gestos e por aí fora. E ainda há aquela questão de não utilizar só verbo dizer, como tão bem gostamos de ensinar aos meninos nas aulas de Português. Porque há outros verbos introdutores do diálogo: responder, gritar, sussurrar ... replicar... (entre tantos outros).
Mas ainda hoje o replicar me causa ânsias. A maior parte dos verbos introdutores do diálogo não são minimamente naturais (digam-me qual a naturalidade dos verbos "questionar" e "inquirir", por exemplo). Encontrar o verbo "replicar" num texto é sinal que desisto dele naquele preciso momento, mesmo que seja um texto meu dos meus idos.
Para dizer a verdade, também não considero o "diz que disse" natural. Não seria tudo mais natural como no teatro?
MANUEL - Olá está tudo bem?
RICARDO - Sim, está tudo, obrigada. E tu, como vais?
Esta conversa toda porquê?
Porque ultimamente, quando escrevo, não coloco na primeira versão o "diz que disse". Os diálogos saem muito mais naturais. Depois, quando começo a rever (e a primeira revisão é quase uma reescrita)lá introduzo as ditas indicações, forçosamente. Não gosto delas. Apetece-me aboli-las. E depois aturar as consequências e as reclamações dos leitores e escritores novecentistas que por aí andam e que às vezes me lêem.
Há um projecto, enfiado na gaveta logo às uns dez anos, que vai dar para eu fazer umas coisas assim...
Assuntos de Escrita - O que pode dizer um rapaz normal com quase nenhuma experiência na área sobre a nobre arte da edição - Carlos Silva
Assuntos de Escrita é uma rubrica deste blog que conta com a colaboração de outro blogger para nos falar de um assunto relacionado com a escrita. Este mês foi convidado Carlos Silva, autor do blog: Abracadabra. Tem textos publicados em diversas publicações (ver aqui), e-books disponibilizados gratuitamente (aqui) e ainda o romance Urbania em formato digital. É ainda editor da revista Lusitânia.
O que pode dizer um rapaz normal com quase nenhuma experiência na área sobre a nobre arte da edição
por Carlos Silva
Há cerca de um ano atrás surgiu-me uma ideia: criar uma publicação amadora que visasse o incentivo da criação de literatura especulativa de raízes portuguesas. Não histórias que apenas se passassem em Portugal, ou que as personagens tivessem nomes portugueses, mas que o leitor ao se debruçar sobre elas sentisse que se estava a falar deste rectângulo a oeste da Europa.
Foi assim que surgiu a Lusitânia. Uma publicação que reúne uma antologia de contos que teve tanto sucesso que neste momento estamos a trabalhar para organizar uma nova a sair ainda este ano. Tal como agora, abrimos concurso público para que todos os escritores em língua portuguesa pudessem enviar as suas propostas (se quiserem participar com um texto ou arte gráfica vejam aqui como: http://revistalusitania.blogs.sapo.pt/702.html) e foi aí que a porca torceu o rabo.
Foi ao sentar-me para ler as dezenas de textos submetidos que pude olhar para os confins do abismo negro do mundo editorial. Ainda que o meu olhar só conseguisse penetrar nos primeiros metros brumosos, o que lá vi marcou a minha perspectiva sobre o assunto. Imaginem-me então, defronte ao browser, com uma caneta numa mão, um bloco de post-its na outra e uma pergunta na cabeça: Quais serão os critérios pelos quais decidirei a inclusão de um texto ou não?
À primeira vista, parece um problema de solução simples. Escolhe-se pela qualidade literária, pois claro! Será assim tão claro? É óbvio que a qualidade literária é o factor mais importante, especialmente num projecto da natureza da Lusitânia (arrisco-me a dizer que o factor mais importante para uma editora comercial é a vendibilidade da obra). Primeiro de tudo, o texto tem de estar bem escrito. Se um ou outro erro tipográfico é desculpável, já frases mal construídas a torto e a direito é um passo directo para a rejeição. Em segundo lugar, talvez uma das maiores influências do Carlos leitor no Carlos editor, dou muita importância à história que está a ser contada. O tema é interessante? A história tem conteúdo? Se sim, o autor soube aproveitar bem o conteúdo da história? De nada importa se a personagem tem uma infância trágica se isso não for explorado de modo algum. Perdoem-me o classicismo, mas uma história tem de estar pejada de pathos. Claro que se pode escrever uma história excelente sobre um homem a lavar meias sem que nada aconteça de interessante. É possível, agora ser provável encontrar uma pérola dessas... Ainda dentro da qualidade literária gostaria de falar de como a história é contada. Pode-se ter um tema interessante, bem explorado, mas cuja linguagem ou ritmo não fazem jus ao que se quer transmitir. Não há receitas perfeitas. Há contos que pedem uma linguagem mais lírica, outros mais directos, uns que começam com um ritmo alucinante, outros que só têm a ganhar com um final calmo. A todos os escritores: vejam bem o que a história pede e escolham as palavras, o comprimento das frases, a pontuação e as figuras de estilo que mais a enriqueçam. Não se fiem em fórmulas feitas.
Lidos os contos todos e feita a triagem pela sua qualidade (que invariavelmente é algo subjectivo e, por mais que se tente fugir, é feito por comparação de uns com os outros) sobra-nos ainda um mundo inteiro de factores que é preciso ter em conta. Podemos ter muitas flores bonitas, mas isso não equivale a um bonito ramalhete. Por via da natureza do projecto, na Lusitânia, uma das coisas que há a ter em atenção é o enquadramento no tema. O texto até pode ser bom, mas se não reflectir a temática que a revista quer incentivar a explorar, não podemos incluí-lo, estaríamos a trair o nosso objectivo. No entanto, com esta abordagem é também preciso cuidado para evitar cair no lado oposto da questão. Longe de nós querer publicar textos que pareçam carros alegóricos ou caricaturas.
Outro factor é a questão da originalidade. Se em alguns casos funciona bem, noutros é um pouco decepcionante abrir uma antologia e todos os textos serem sobre o Vasco da Gama ou passados na idade média. É algo que na Lusitânia tentamos escapar e que já nos fez escolher um texto em detrimento de outro. Uma das coisas que reparámos na primeira vaga de submissões, foi uma grande de quantidade de textos em contexto rural ou no passado, denotando que ainda há alguma resistência ao conceito de ficção especulativa contemporânea e/ou urbana. Talvez seja pela maioria dos media a que temos acesso, relacionados com fantasia e Portugal em simultâneo, sejam o recontar de lendas do nosso folclore.
Por fim, gostaria apenas de focar ainda mais um ponto, um pouco afastado da escolha dos textos, mas ainda dentro da temática. Quando se edita algo num objecto físico, as limitações do próprio objecto (e orçamento para o produzir) acabam por influenciar os textos. Quando se criou a Lusitânia, um dos objectivos foi criar uma boa razão de preço/benefício. Trocando por miúdos, queríamos fazer algo barato e bom. Daí lutarmos para o produto final rondar os 2€. Ora, isso limita o espaço disponível para textos e querendo nós uma diversidade de textos moderada em cada número, acaba por limitar o número de caracteres máximo para cada texto. Daí sermos maçadores com o limite superior de palavras. Só por razões excepcionais poderemos aceitar um texto com o dobro dos caracteres pedidos (claro que se passarem um bocadinho ninguém olha). Curiosamente, ainda não recebemos nenhuma submissão em formato de micro-conto.
É com estas considerações todas que nos debatemos cada vez que temos de seleccionar textos. Porém, considero que é algo muito positivo para o meu crescimento pessoal enquanto leitor, escritor e editor. O fim do prazo para a segunda vaga de textos é dia 31 de Maio e mal posso esperar para aplicar tudo o que aprendi com a edição da antologia anterior para conseguir um ainda melhor produto final. Ah, sim…porque nós não nos limitamos a dizer sim ou não aos autores. Independentemente de a resposta ser positiva ou negativa, tentamos dar sempre a nossa opinião e sugestões de melhoria, para que os autores possam crescer connosco nesta grande aventura que é a Lusitânia.
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O que pode dizer um rapaz normal com quase nenhuma experiência na área sobre a nobre arte da edição
por Carlos Silva
Há cerca de um ano atrás surgiu-me uma ideia: criar uma publicação amadora que visasse o incentivo da criação de literatura especulativa de raízes portuguesas. Não histórias que apenas se passassem em Portugal, ou que as personagens tivessem nomes portugueses, mas que o leitor ao se debruçar sobre elas sentisse que se estava a falar deste rectângulo a oeste da Europa.
Foi assim que surgiu a Lusitânia. Uma publicação que reúne uma antologia de contos que teve tanto sucesso que neste momento estamos a trabalhar para organizar uma nova a sair ainda este ano. Tal como agora, abrimos concurso público para que todos os escritores em língua portuguesa pudessem enviar as suas propostas (se quiserem participar com um texto ou arte gráfica vejam aqui como: http://revistalusitania.blogs.sapo.pt/702.html) e foi aí que a porca torceu o rabo.
Foi ao sentar-me para ler as dezenas de textos submetidos que pude olhar para os confins do abismo negro do mundo editorial. Ainda que o meu olhar só conseguisse penetrar nos primeiros metros brumosos, o que lá vi marcou a minha perspectiva sobre o assunto. Imaginem-me então, defronte ao browser, com uma caneta numa mão, um bloco de post-its na outra e uma pergunta na cabeça: Quais serão os critérios pelos quais decidirei a inclusão de um texto ou não?
À primeira vista, parece um problema de solução simples. Escolhe-se pela qualidade literária, pois claro! Será assim tão claro? É óbvio que a qualidade literária é o factor mais importante, especialmente num projecto da natureza da Lusitânia (arrisco-me a dizer que o factor mais importante para uma editora comercial é a vendibilidade da obra). Primeiro de tudo, o texto tem de estar bem escrito. Se um ou outro erro tipográfico é desculpável, já frases mal construídas a torto e a direito é um passo directo para a rejeição. Em segundo lugar, talvez uma das maiores influências do Carlos leitor no Carlos editor, dou muita importância à história que está a ser contada. O tema é interessante? A história tem conteúdo? Se sim, o autor soube aproveitar bem o conteúdo da história? De nada importa se a personagem tem uma infância trágica se isso não for explorado de modo algum. Perdoem-me o classicismo, mas uma história tem de estar pejada de pathos. Claro que se pode escrever uma história excelente sobre um homem a lavar meias sem que nada aconteça de interessante. É possível, agora ser provável encontrar uma pérola dessas... Ainda dentro da qualidade literária gostaria de falar de como a história é contada. Pode-se ter um tema interessante, bem explorado, mas cuja linguagem ou ritmo não fazem jus ao que se quer transmitir. Não há receitas perfeitas. Há contos que pedem uma linguagem mais lírica, outros mais directos, uns que começam com um ritmo alucinante, outros que só têm a ganhar com um final calmo. A todos os escritores: vejam bem o que a história pede e escolham as palavras, o comprimento das frases, a pontuação e as figuras de estilo que mais a enriqueçam. Não se fiem em fórmulas feitas.
Lidos os contos todos e feita a triagem pela sua qualidade (que invariavelmente é algo subjectivo e, por mais que se tente fugir, é feito por comparação de uns com os outros) sobra-nos ainda um mundo inteiro de factores que é preciso ter em conta. Podemos ter muitas flores bonitas, mas isso não equivale a um bonito ramalhete. Por via da natureza do projecto, na Lusitânia, uma das coisas que há a ter em atenção é o enquadramento no tema. O texto até pode ser bom, mas se não reflectir a temática que a revista quer incentivar a explorar, não podemos incluí-lo, estaríamos a trair o nosso objectivo. No entanto, com esta abordagem é também preciso cuidado para evitar cair no lado oposto da questão. Longe de nós querer publicar textos que pareçam carros alegóricos ou caricaturas.
Outro factor é a questão da originalidade. Se em alguns casos funciona bem, noutros é um pouco decepcionante abrir uma antologia e todos os textos serem sobre o Vasco da Gama ou passados na idade média. É algo que na Lusitânia tentamos escapar e que já nos fez escolher um texto em detrimento de outro. Uma das coisas que reparámos na primeira vaga de submissões, foi uma grande de quantidade de textos em contexto rural ou no passado, denotando que ainda há alguma resistência ao conceito de ficção especulativa contemporânea e/ou urbana. Talvez seja pela maioria dos media a que temos acesso, relacionados com fantasia e Portugal em simultâneo, sejam o recontar de lendas do nosso folclore.
Por fim, gostaria apenas de focar ainda mais um ponto, um pouco afastado da escolha dos textos, mas ainda dentro da temática. Quando se edita algo num objecto físico, as limitações do próprio objecto (e orçamento para o produzir) acabam por influenciar os textos. Quando se criou a Lusitânia, um dos objectivos foi criar uma boa razão de preço/benefício. Trocando por miúdos, queríamos fazer algo barato e bom. Daí lutarmos para o produto final rondar os 2€. Ora, isso limita o espaço disponível para textos e querendo nós uma diversidade de textos moderada em cada número, acaba por limitar o número de caracteres máximo para cada texto. Daí sermos maçadores com o limite superior de palavras. Só por razões excepcionais poderemos aceitar um texto com o dobro dos caracteres pedidos (claro que se passarem um bocadinho ninguém olha). Curiosamente, ainda não recebemos nenhuma submissão em formato de micro-conto.
É com estas considerações todas que nos debatemos cada vez que temos de seleccionar textos. Porém, considero que é algo muito positivo para o meu crescimento pessoal enquanto leitor, escritor e editor. O fim do prazo para a segunda vaga de textos é dia 31 de Maio e mal posso esperar para aplicar tudo o que aprendi com a edição da antologia anterior para conseguir um ainda melhor produto final. Ah, sim…porque nós não nos limitamos a dizer sim ou não aos autores. Independentemente de a resposta ser positiva ou negativa, tentamos dar sempre a nossa opinião e sugestões de melhoria, para que os autores possam crescer connosco nesta grande aventura que é a Lusitânia.
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