Noite Insólita


Chegámos à sua casa e ela pousou a pequena mala preta em cima do móvel da entrada.
- Espera um pouco. - Depois sorriu tímida. - Está à vontade!
E desapareceu para dentro do corredor. Devia de ir à casa de banho. Eu tinha sede, e só me restava procurar a cozinha. Valia que o apartamento era pequeno. Ela apareceu na cozinha enquanto eu bebia o copo de água. Trazia os sapatos de salto na mão, mas de resto estava igual. Ainda tinha o cabelo apanhado. Pousei o copo, agarrei-a pela cintura e beijei-a de forma escaldante. Ela deixou cair os sapatos no chão.
- Os sapatos!
- Deixa os sapatos! -  Disse-lhe eu.
- Não posso deixar os sapatos aqui! - Afastou com os seus braços o meu corpo  e abalou, deixando-me novamente sozinho na cozinha. Comecei à procura de bebidas alccólicas, mas não encontrei nada. Ela voltou, descalça.
Voltei a agarrá-la desejoso de a amar. Mas o seu corpo parecia que se queria afastar, os seus beijos não tinham entrega. Ela queria, mas parecia não querer. Eu não entendia.
Acendi a luz quando entrei no quarto. Ela soltou-se de mim e foi, cuidadosa, dobrar a colcha da cama e afastar o lençol de cima. Eu não tive com meias medidas e empurrei o seu corpo para cima do leito enquanto a beijava de alto a baixo. Comecei a desabotoar-lhe o vestido. A luz apagou-se. Tinha sido ela que, de mansinho, aproximara a mão do interruptor que havia perto da sua mesinha de cabeceira.
- Eu prefiro assim.
Eu não. Mas o momento já estava tão avançado que não reclamei. Continuei a despi-la, pronto para a amar.

- Quantos filhos queres ter? - Perguntou ela antes de adormecer. Naquele momento eu já estava demasiado assustado, tinha sido tudo terrível. Eu não sei se tinha amado uma mulher, se tinha amado um bloco de cimento frio. Resistia ao toque, pouco se mexia.
- Nenhum. - Respondi-lhe só para a calar. Não era verdade, mas eu já não queria saber de lhe dizer a verdade. Agradeci o momento em que me lembrei que trazia um preservativo na carteira.
Ela adormeceu. Eu fiquei acordado a madrugada toda, contado as horas para sair dali.

No elevador do Hotel



Quando a porta do elevador abriu para descer, e eu entrei, vi que lá dentro vinha o melhor amigo dele, acompanhado de uma mulher que eu não conhecia. Não era a esposa dele.
- No hotel? - Perguntou-me discaradamente, como se pudesse estranhar.
- Tive uma avaria na canalização, a casa está numa bagunça. - Menti-lhe enquanto observava a sua expressão. Era óbvio que ele não sabia o que acontecera. Também não seria eu a contar-lhe que encontrei o meu marido deitado com outra mulher, na nossa cama. Onde poderia eu estar, senão no hotel? Nem mais um minuto eu aguentava naquela casa.
- O Jorge?
- Está em trabalho, no Norte. - Menti outra vez, sem razão de ser. Será que o iria perdoar?
- Se não contares que me viste aqui eu também não conto que te vi aqui. - Pediu-me.
- Podes contar a toda a gente que me viste aqui, sem problema. - Respondi-lhe, enquanto o elevador se abria para o lóbi. Depois saí.

Recomeçar



Eu queria recomeçar, mas não conseguia. Recomeçar a vida, como se tivesse nascido de novo. Não era bem fazer tudo outra vez como se fosse a primeira, mas havia um ponto de viragem e eu tinha de recomeçar a viver. Procurar emprego, reatar relações, voltar a ser mulher.
Quando me punha a pensar nisso não entendia porque não conseguia recomeçar. Porque continuava fechada dentro de casa, porque continuava com identidades falsas na internet, porque não ia pintar o cabelo, comprar roupa nova, enviar curriculos, telefonar aos amigos e àquele homem que me fazia palpitar o coração. Não entendia porque continuava a entreter-me com os meus discos, os meus livros e a ver acontecer o mundo do lado de fora da janela.
Não havia explicação.
Sabia de pessoas, porque conhecia ou ouvira falar, que tinham passado por grandes tragédias e conseguiam recomeçar. A morte de um filho, um acidente que os deixa incapacitados. Coisas más.
Eu tinha emagrecido. Deixara de ser obesa. Baixara o nível do colesterol, da diabetes, da hipertensão. Corria meia hora todos os dias numa passadeira que tinha em casa. Mas não conseguia recomeçar.

Na Estrada de Mértola

Disponibilizei recentemente outro conto na plataforma Smashwords. Desta vez é um thriller em plena paisagem Alentejana. Descarregue o ebook aqui.


By Olinda P. Gil
Rating: Not yet rated.
Published: July 15, 2013
Words: 5,280 (approximate)
Language: Portuguese
ISBN: 9781301482702



Description

Durante uma viagem nocturna uma jovem tem uma surpresa desagradável

Onde pode encontrar o conto "Na Estrada de Mértola":


Críticas:
Por Rui Alex, no Goodreads 
Por Ana C. Nunes, no blog Floresta de Livros
Por Artur Coelho, no blog Intergalacticrobot
Por Nádia Batista, no blog Eu e o Bam
Por Tânia M, no blog Rua de Papel

    A Lua não a transformou



    A lua cheia já ia alta e era sinal que as horas passavam. Era inverno, a noite estava límpida e fria. Naquela noite, como em todas as de lua cheia, os lobisomens transformavam-se, corriam pelas florestas e uivavam em conjunto.
    Ela não tinha nascido assim. Quando chegou à adolescência esperou pela sua primeira transformação e nada aconteceu. Os pais esperaram, como se espera por uma miúda a quem a menstruação aparece tarde.
    Tinha 18 anos quando todos constataram que ela era diferente. Naquela altura a relação dos seus pais já estava destruída, e ela só trouxera a resposta que iria desencadear o divórcio. O seu pai não podia ser lobisomem, portanto, a sua mãe teria traído aquele homem a quem chamara pai.
    A mãe acabou por se afastar da família e ela ficou sempre com o pai que não era pai e os irmãos que eram só meio irmãos.
    Pode ir estudar para a Faculdade porque não se  transformava. Continuou sempre ligada à matilha, e voltou já formada . Decidiu que iria usar o facto de não ser lobisomem como um factor positivo, de diferença para melhor. Foi por isso que estudou medicina, profissão rara na comunidade e que muito fazia falta. Conseguiu ser respeitada, apesar da sua diferença. E amada para além dos da sua família.
    Naquela noite suspirava porque era noite de Lua Cheia, e o marido e os filhos corriam na floresta. Nenhum lhe saíra a ela. Suspirava porque era Inverno e se sentia sozinha. Mas era feliz.

    Esta noite na Cidade


    Uma mulher vageava pela rua deserta e fria. Agarrava a mala com força debaixo do braço e continuava a avançar decidida. Não tinha medo. Nunca teve medo. Os seus passos eram largos.
    Da mala tirou uma chave que abriu uma porta. Do outro lado esperava-a um beijo ofegante a estender-se na sua boca.
    Sim, tinha medo. Não de ser assaltada na rua. Tinha medo do seu segredo ser descoberto. De ser apontada pelos outros por procurar a meio da noite o consolo num outro corpo. Tinha medo que terminasse aquele suspiro profundo que emitia quando dentro do seu corpo havia algo que rebentava.

    Tecendo Nós

    Há uns tempos recebi um convite, através do Goodreads, para participar numa antologia dirigida por utilizadores dessa plataforma.
    Decidi que haveria de aceitar o desafio, e escrevi o conto "Por Detrás de uma Leitura", que podem encontrar no ebook com o título "Tecendo Nós".



    Tecendo Nós é uma pequena antologia de contos criados para celebrar o primeiro aniversário do Clube de Leitores em Português, um grupo criado na comunidade Goodreads. Todos os contos encontram-se subordinados ao tema Imaginação vs Realidade, sendo que cada um dos autores teve plena liberdade quanto à sua interpretação.

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