Piano Surdo

By Olinda P. Gil
Rating: Not yet rated.
Published: July 15, 2013
Words: 4,140 (approximate)
Language:Portuguese
ISBN: 9781301416745

Descrição:
 Conto que retrata a loucura de uma pianista após um acidente que a deixou surda.

Disponível em:

Opiniões e referências:

    O gato de guarda

    Devia ter desconfiado que estava a ser demasiado fácil. A cerca baixa, sem electrificação, a vivenda sem alarmes, as portas que estavam trancadas. Devia ter pegado nas pernas e fugido imediatamente dali.
    Assim que abriu a porta soube o porquê de tanta falta de segurança por parte dos donos da casa: um gato de guarda. Grande, opulento, musculado. Certinho que estava pronto para o atacar, pular-lhe para cima do rosto e arranhar-lhe os olhos.


    - Brrr.
    E o gato monstruoso deitou-se no chão, oferecendo-lhe a barriga para receber festinhas. O ladrão sorriu. Mais uns que tinham comprado gato por lebre.

    Memórias Parasitas


    Uma mulher está a trabalhar no seu jardim. Aproveita as primeiras horas da manhã antes do dia começar a aquecer. Com muita paciência, poda devagar as roseiras. Tens umas luvas grossas calçadas, para evitar magoar as mãos. Limpa o suor da testa: o dia está demasiado quente. Com o mesmo gesto afasta as memórias de uma vida que não a sua. As memórias de outra mulher.

    Sabia que não eram memórias de vidas passadas. Havia datas, na década de 1970. Ela própria nasceram em 1958, por isso era impossível que essas memórias fosse de outra encarnação. Teriam passado de alguém que tinha falecido, para si? Mas como? Tinha pesquisado e não havia registo sobre tal fenómeno. Não passara por nada traumático, tinha a certeza que nunca se cruzara com ela na vida. Como podia isso ter acontecido. Que o seu corpo tivesse possuído pelo espírito dessa mulher era algo que também afastava pelas mesmas razões, e por outra ainda: não a sentia. Sabia que eram só memórias e nenhum espírito em si.

    A mulher era o oposto de si: uma artista de circo aventureira e viajada. Não eram memórias más, mas... não eram suas. Sempre que surgiam sentia-as como uma mosca que não nos larga e nos enerva.

    Respirou fundo. Afastou essas memórias e os seus pensamentos. Voltou a podar as rosas, e nesse momento, voltou a ser apenas ela e as rosas.

    Coisas de escritor/a independente

    Uma coisa que os meus leitores-beta e revisores me estão sempre a chamar a atenção tem a ver com os travessões. O meu word, e talvez o de muitas pessoas, nem sempre insere travessões nos diálogos, inserindo hífens. Já tentei descobrir como se pode colocar essa ordem automaticamente, mas não descobri como. Também podia optar por colocar o travessão enquanto estava a escrever, através de um comando complicado que inclui ctrl, shift e coisas que tais. Nada prático.
    Como tal, muitas vezes os meus textos têm hífens em vez de travessões. E quem me lê farta-se de me chamar a atenção, e com razão.
    Já tinha terminado a revisão do meu livro de micro-narrativas, Primordial, que vou auto-editar no Outono, feito as correcções e enviado o texto à prefaciadora. Faltava este processo: transformar em travessões todos os hífens que são travessões. Uma seca... Mas não tão complicado quanto isso. Basta fazer copy paste de travessões. E já que tinha a mão na massa fiz também hífens não separáveis, para evitar que palavras como "encontrou-se" fiquem erradamente separadas no final de linha. É que por muito que tentemos, mesmo escrevendo dois hifens, a translineação destas palavras nunca fica bem feita no word. O comando dos hífens não separáveis é muito simples: ctrl+shift+hífen. Talvez me devesse habituar a fazê-los enquanto escrevo...
    Quanto tiver o prefácio terei de fazer este processo todo no texto. Penso que vai ser um texto pequeno, por isso não há-de ser complicado. Depois é escolher uma fonte bonita (aceitam-se sugestões) e fazer a paginação!

    No consultório de psicologia

    - Posso entrar? - Pediu o adolescente cheio de borbulhas a espreitar pela porta entreaberta do consultório de psicologia da Dr.ª Ella. Reprimiu o tique que tinha de agitar o pescoço e fazer os seus cabelos negros brilhantes voarem. Não o podia fazer à frente de um adolescente. Era impróprio. Ia-lhe provocar sensações que, em primeiro lugar, poderiam comprometer o relacionamento com o paciente. E em segundo lugar a última coisa que ela queria era um adolescente apaixonado por ela. Gostava de vampiros maduros, com, no mínimo 100 anos de transformados e 40 de aspecto. Encostou-se à secretária pouco natural, pois a sensualidade era intrínseca para si. Todo o seu corpo voluptuoso, escondido pela bata, era um exagero à frente de um vampiro tão jovem.
    - O que o trás por cá?
    - Bem, eu... ergh... Desculpe... Nunca tinha vido a nenhum psicólogo, nem sei bem por onde começar.
    – Não tens de pedir desculpa. - Olhou novamente a ficha do jovem. MetalD. Que raio de nomes com que ultimamente se costumavam baptizar. Olhou melhor para ele e concluiu que tinha mais ar de agarradinho aos computadores do que fã de "Metal". Bem, o aspecto não queria dizer nada.
    – Costumam fazer-te perguntas tontas?
    – Costumam. - "Oh que raio de conversa. Sê paciente, conta até 10, respira fundo" pensou Ella para consigo própria. Na ficha médica estava assinalados os dois anos de transformado. Tão jovem das duas maneiras. E adolescente! Não sabia o que era pior: se um vampiro criança se um vampiro adolescente.
    - Estamos aqui para falar de ti. Seja que problema for não é eterno como tu. Os vampiros têm grande capacidade de adaptação. Se assim não fosse, como poderiam viver eternamente? Porque quiseste vir aqui?
    – Ergh… Bem… Sabe… Tenho vergonha… - MetalD baixou os olhos. Parecia estar a ser sincero.
    –Vergonha? De quê? Um vampiro não deve ter vergonha de nada! - Depois de ter disparado esta frase com a voz mais alta do que devia arrependeu-se. Tinha de ter calma, era o que se exigia naquela profissão. Mesmo que não gostasse de pacientes tão novos.
    – Sou um vampiro muito recente.
    – Compreendo. É uma fase muito difícil. A adaptação à essência de vampiro… Mas não tens de ter vergonha.
    – Sim. Mas não é isso. Eu… ah… - Ele parecia não conseguir-se expressar. - Sou um vampiro deste século. Fui transformado há dois anos.
    – Os meus parabéns! Já passaste a pior fase, que é o primeiro ano. Agora que controlas os teus instintos, só tens de te concentrar em aprender o máximo que puderes. Nunca tenhas vergonha de ser recente!
    – Não é isso!... Eu era muito jovem quando fui transformado. Um adolescente. Se calhar ainda o sou.
    – Um vampiro não se mede pela idade que tinha antes de ser transformado, mas pelos anos que passa depois da transformação. - Agora Ella sentia que já estava a conseguir concentrar-se no seu trabalho de psicóloga.
    – É que… Você não faz ideia.
    – Se não me disseres não faço. São borbulhas?
    - Não. - E o jovem vampiro mostra o maior sorriso amarelo forçado que se pode imaginar. - É o aparelho nos dentes.
    –E?
    – Agora não sai!

    A minha relação com a escrita


    Já muitas vezes tenho dito que não tenho uma relação feliz com a escrita. Sofro muito quando escrevo, sofro ainda mais quando não escrevo. Procastino, perco-me em mil e um projectos, sou incapaz de dar um texto como terminado.
    A escrita é incompatível com qualquer dieta ou qualquer exercíco físico. É incompatível com o trabalho, com o relacionamento amoroso, com a família.
    A escrita é incompatível com o Verão.
    Tenho dias em que penso que não vale a pena o esforço. Tenho dias em que me apetece parar. Mas depois penso que foram demasiados anos desperdiçados para parar agora, mais vale a pena continuar com a ilusão de que faço alguma coisa bem, quando não faço.
    Abrandar um pouco porque é verão. Voltar em força nos dias de chuva? Talvez.