(texto publicado no Diário do Alentejo a 29-11-2013)
O destino da rapariga naquele dia era Garvão, e não nenhum petisco de cabeça de borrego assada no café da estação da Funcheira, bastando para isso apenas virar no sentido contrário no cruzamento da estrada que iria seguir. Desta vez a obrigação falou mais alto, e virou para a vila, onde iria dar formação de novas tecnologias, a um grupo de pessoas com idade para ser seus pais e avós, numa sala sem rede de telemóvel ou Internet, tendo ainda a companhia de um cão cheio de pulgas e carraças que um formando insistia em levar para a sala.
A viagem não tinha sido das melhores. Antes mesmo de Santa Luzia tivera de percorrer alguns kilómetros atrás de um camião carregado de troncos de árvores, vendo-se impossibilitada de o ultrapassar, devido ao trânsito fora do vulgar naquele dia, por causa da Feira de Garvão. Valeu-lhe um incidente que a poderia ter morto: soltou-se um tronco de árvore do camião em direccção ao seu carro, que por acaso, depois de bater no asfalto, foi cair longe do veículo deixando-a a salvo. O condutor do camião, tendo-se apercebido do sucedido, encostou o veículo à berma da estrada. Ela teria seguido tranquila, mas ficara com o corpo todo a tremer, inclusive as unhas dos pés que devia ter cortado pela manhã, no banho.
Antes mesmo do cruzamento entre a Funcheira e Garvão, ainda muito afectada, haveria de ser testemunha de um cenário tão mirabolante que chegou mesmo a pensar que estava a abrir um daqueles mails de piadas que as pessoas enviam umas às outras quando não têm nada para fazer no trabalho (ou são mestres em procrastinação). Na caixa de uma carrinha, 4x4, que seguia à sua frente, estava um cavalo em pé, mas com difícil equilíbrio devido às suspensões lixadas. Haveria o animal de ir para venda na feira, só podia, e o seu dono, à falta de transporte e detentor do dito desenrascanço português, decidiu resolver o problema cometendo várias contra-ordenações ao código da estrada ao mesmo tempo.
Ora, e porque ela também enviava mails desnecessários aos seus contactos e gostava de partilhar futilidades no facebook, resolveu tirar uma fotografia ao cavalo, a partir do seu telemóvel, em pleno acto de condução.
Estava ainda a focar a imagem, tarefa difícil, dada a situação, quando houve um apito longo e repara que estava a ser utrapassada por um jipe da GNR, com um guarda bracejando ferozmente direito a si, indicando assim, que tinha de encostar. A jovem teve de parar o carro sem ter conseguido tirar a fotografia.
- Sabe que falar ao telemóvel enquanto conduz dá direito a multa?
Ia responder o quê? Que não estava a falar ao telemóvel, quando estava a fazer outra operação, da qual não tinha prova, mas que se tivesse de nada lhe valia, porque lhe reservava multa na mesma.
- Viu o cavalo na carrinha de caixa aberta? – Tentou ainda desviar a atenção do militar da GNR.
- Muito gostam de ver os ciscos nos olhos dos outros. – Respondeu-lhe o guarda, enquanto começava a passar a multa.
Autora de "Sobreviventes" (2015), "Sudoeste" (2014) e "Contos Breves" (2013). Começou a escrever na adolescência para o "DNJovem" e desde aí tem colaborado em diversos sites, revistas literárias e coletâneas.
Os meus contos disponíveis na Smashwords
Tenho três contos disponíveis, gratuitamente, na Smashwords:
O Reflexo da Morte (ou da Vida) nas Janelas do Rio, com um total de 311 downloads!!! Irra bem bom. Recebi algum feedback, que podem verificar na página do Goodreads e também na página do blog deste conto.
Na Estrada de Mértola, com um total de 127 dowloads. Deste conto tenho recebido pouco feedback. Podem visitar de qualquer modo a sua página no Goodreads e também a sua página neste blog.
Piano Surdo foi o último a ser disponibilizado, e talvez seja por isso que não tem tantos dowloads: apenas 53. Também tenho recebido pouco feedback, contudo bastante positivo. Podem visitar no Goodreads na a sua página neste blog.
O Reflexo da Morte (ou da Vida) nas Janelas do Rio, com um total de 311 downloads!!! Irra bem bom. Recebi algum feedback, que podem verificar na página do Goodreads e também na página do blog deste conto.
Na Estrada de Mértola, com um total de 127 dowloads. Deste conto tenho recebido pouco feedback. Podem visitar de qualquer modo a sua página no Goodreads e também a sua página neste blog.
Piano Surdo foi o último a ser disponibilizado, e talvez seja por isso que não tem tantos dowloads: apenas 53. Também tenho recebido pouco feedback, contudo bastante positivo. Podem visitar no Goodreads na a sua página neste blog.
Robot Doméstico
Abriu o armário onde estava guardado o robot doméstico e acariciou a sua chapa velha. Era muito diferente do que tinha em casa, na cidade: um topo de gama recente. Aquele era do tempo da sua avó, demasiado lento para as exigências dos dias de hoje, raramente se avariava, e quando isso acontecia tinha sempre arranjo. Aliás, como acontecia sempre com objectos velhos.
Mas na casa de férias perto da praia, pouca diferença fazia se o robot doméstico era velho e lento. Porque o tempo ali parecia passar de outro modo. Os dias eram mais longos, talvez porque neles houvesse tempo para o descanso, a brincadeira e o contemplar do horizonte.
O velho robot fazia-lhe lembrar o jipe da bisavó, que continuava guardado na garagem da casa da praia como uma preciosidade: muito pó em cima, teias de aranha, ferrugem. Talvez só lhe faltasse os torrões de lama seca agarrados à chapa.
Lembrou-se então dessa mulher que nunca conhecera, a sua bisavó, e a razão porque chegara ela ali, àquela casa de praia.
Os filhos criados e a recente viuvez afastaram-na da cidade. Viajou muito no jipe, e por fim comprou aquela casa para passar o resto dos seus dias. Fechou o jipe na garagem e ali se manteve, longe da civilização.
As suas histórias eram tão idênticas!
Fechou o armário onde se guardava o velho robot, sem sequer ter verificado a sua bateria, decidida a não o utilizar. Assim como assim já era quase hora do almoço e ele não teria tempo de cozinhar. Ela própria faria uma sandes para o almoço, com os mantimentos que comprara num supermercado não muito longe dali. E, depois, quando chegasse o jantar, cozinharia pela primeira vez na vida. Havia muitos livros da sua bisvó na casa de praia, algum deles seria de culinária. Ou então encontraria receitas em velhas páginas web que ninguém sabe como apagar.
Roupinhas de Bebé
A pele dos seus dedos era quase tão macia como o algodão das roupinhas de bebé, que com muito carinho, guardava numa gaveta da cómoda, previamente destinada para o efeito. Eram roupinhas que via em lojas e pelas quais se apaixonava. Estavam ali por certo mais do que aquilo que um bebé precisaria.
Depois de as comprar, regressava a casa, e sempre com muito cuidado, lavava-as, estendia-as, passava-as a ferro e guardava. A cómoda estava no outro quarto do T2 que não era o seu. Um quarto vazio. Para além das roupinhas muitos eram os brinquedos que também estavam ali.
Se pelas roupas preferia as de bebé, quanto aos brinquedos preferia as bonecas, com seus vestidinhos em tom pastel e rendas, que tantas vezes encantavam as meninas em idade da escola primária.
Nunca tinha tido filhos. A sua vida foi de solidão: filha única, perdeu os pais cedo, os relacionamentos amorosos seguiam-se em frustração. Pouco contacto tinha com outros familiares.
Quando naquele quarto as roupas e as bonecas eram demais do que aquilo que podia guardar, colocava-as em sacos, bem dobradinhas, com um ou dois sabonetes lá dentro para não perderem o cheiro a lavado, e entregava-as em organizações de solidariedade social.
"Contos Breves"
Venho deixar-vos dois links, para o blog da ilustradora Cláudia Banza, em que ela demonstra o dia do lançamento e algumas das ilustrações.
Lançamento de "Contos Breves"
Foi um momento agradável e passou num instante. Houve direito a leituras de contos, a passagem de música, à visualização das ilustrações. Houve momento de convívio, blol, jerupiga e vinho do Porto! E livros vendidos!
Quem quizer adquirir o livro, por favor contacte-me pelo e-mail olindg@gmail.com
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