Autora de "Sobreviventes" (2015), "Sudoeste" (2014) e "Contos Breves" (2013). Começou a escrever na adolescência para o "DNJovem" e desde aí tem colaborado em diversos sites, revistas literárias e coletâneas.
Leitores: Ana C. Nunes (blog Floresta de Livros)
Para darmos início à nova rubrica do blog, leitores, convidámos a blogger e leitora Ana C. Nunes para responder às nossas perguntas. A Ana C. Nunes mostra as suas leituras no blog Floresta de Livros.
Que sentimentos procuras que um livro te deixe?
O que eu quero, realmente, com um livro é SENTIR. Sentir de tudo um pouco, tudo menos tédio. Seja alegria, tristeza, nojo, revolta, satisfação … o que seja, desde que sinta algo. Aborrecimento é que não, porque significa que estou a perder a paciência com o que estou a ler e isso nunca é bom. Mas claro, o melhor sentimento de todos é quando um livro nos deixa com a sensação de que ainda existe esperança. E ainda existem coisas que valem a pena na vida. Isso e a vontade de saber mais, porque o conhecimento nunca é demais.
A leitura, para ti, é uma companhia, um escape, uma busca pelo mundo sem sair de casa ou tudo isto?
Acaba por ser tudo num só, e muito mais, mas acima de tudo é um escape. Fugir à realidade nunca é solução, nem condiz com a minha forma de ser, mas tirar uns minutos ou umas horas para esquecer o mundo à nossa volta, faz bem e sabe ainda melhor. Ao preocupar-me com o destino das personagens de um livro, deixo de me preocupar com o meu e o dos que me rodeiam, pelo menos durante umas páginas.
Quando fores velhinho/a e já não vires bem as letras o que vais fazer à tua vida de leitor/a?
Há uns anos atrás diria que morria de desgosto, mas hoje em dia há uma solução: os audiolivros, aos quais me tenho apegado mais e mais. Custou-me, a princípio, mas agora são uma boa alternativa, para quando estou no ginásio, quando vou a pé para o emprego, quando estou a fazer as limpezas, e, no futuro, serão a escolha ideal se os olhos me falharem. E se tudo isso falhar, peço aos netos para me lerem histórias.
Nova rubrica neste blog: leitores
Este blog vai ter uma nova rubrica: Leitores.
Vai ser uma rubrica muito simples: irei fazer sempre as mesmas três perguntas a diferentes leitores. A piada vai estar em verificar como as pessoas respondem de modo diferente.
Com esta rubrica pretendo também dar a conhecer blogs de livros que gosto.
Deixo abaixo as questões:
Que sentimentos procuras que um livro te deixe?
A leitura, para ti, é uma companhia, um escape, uma busca pelo mundo sem sair de casa ou tudo isto?
Quando fores velhinho/a e já não vires bem as letras o que vais fazer à tua vida de leitor/a?
Short Story Literary Challenge (2014)
Serve este post/página para colocar as minhas actualizações sobre o Short Story Literary Challenge para 2014. Não me vou desafiar a nenhum nível em especial pelo que colocarei a negrito o nível que for atingindo.
Níveis
- Especialista - 104 contos (2 por semana)
- Profissional - 52 contos (1 por semana)
- Experiente - 26 contos (1 a cada 2 semanas)
- Aficionado - 24 contos (2 por mês)
- Mediano - 12 contos (1 por mês)
- Iniciado - 8 contos (2 por trimestre)
- Iniciante - 4 contos (1 por trimestre)
- Inexperiente - 1 conto
1 - BIERCE, Ambrose. O Mestre de Moxon. Disponível em: http://revistabang.com/2013/12/30/o-mestre-de-moxon-de-ambrose-bierce/ Acesso: Janeiro 2014.
Sem crítica ou classificação.
Terminado a 01-01-2014
2 - KELLERMAN, Paulo. Alienação. Disponível em: http://www.enfermaria6.com/blog/2013/12/31/alienao Acesso: Janeiro 2014.
Sem crítica ou classificação.
Terminado a 02-01-2014
3 - CIPRIANO, Pedro. Um Céu Nublado. Disponível em: http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/02/um-ceu-nublado-pedro-cipriano/ Acesso: Janeiro 2014.
Gosto deste tipo de textos de viagens no tempo em que o protagonista nem sabe bem o que aconteceu nem como lhe aconteceu.
3/5
Terminado a 04-01-2014
4 - CARQUEIJA, Miguel. A Sombra de Hayley Stark. Disponível em: http://www.scarium.info/a-sombra-de-hayley-stark/ Acesso: Janeiro 2014
Conto psicadélico, insólito, ao meu gosto. E uma bela lição que a personagem prega ao criminoso.
4/5
Terminado a 04-01-2014
5 - LORD DUNSANY. A Demanda pelas Lágrimas da Rainha. Disponível em: http://revistabang.com/2013/12/10/a-demanda-pelas-lagrimas-da-rainha-de-lord-dunsany/ Acesso: Janeiro 2014.
Sem crítica ou classificação.
Terminado a 07-01-2014
6 - SILVA, Carlos. Avaria fantasma. Disponível em http://fantasyandco.wordpress.com/2014/01/05/avaria-fantasma-carlos-silva/ Acesso: Janeiro 2014
Não é de todo origial. Gostei do uso da expressão popular no final.
3/5
Terminado a 09-01-2014
7 - GARCIA, Cecília. Irrigando ao Vinho. Disponível em http://homoliteratus.com/conto-irrigando-ao-vinho/ Acesso: Janeiro 2014
Sem crítica ou classificação.
Terminado a 16-01-2014
8 - SAAVEDRA, Carola. Distâncias. Disponível em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2008/06/25/um-conto-inedito-de-carola-saavedra-110396.asp Acesso: Janeiro 2014
Sem crítica ou classificação.
Terminado a 17-01-2014
9 - SAAVEDRA, Carola. Happening. Disponível em: http://www.bestiario.com.br/19_arquivos/a_moca_de_vestido.html Acesso: Janeiro 2014
Sem crítica ou classificação.
Terminado a 18-01-2014
10 - PEREIRA, Renan. Chuva de Verão. Disponível em: http://homoliteratus.com/conto-chuva-de-verao/ Acesso: Janeiro 2014
Pequeno conto que em poucas palavras consegue exprimir a pureza de um amor adolescente.
5/5
Terminado a 23-01-2014
11- GAIMAN, Neil. Os Outros. Disponível em: http://literatortura.com/2014/01/os-outros-neil-gaiman-um-dos-escritores-mais-completos-da-atualidade-cantodoconto/ Acesso: Janeiro 2014
Sem crítica ou classificação.
Terminado a 23-01-2014
12 - FARINHA, Sara. Tua Aurora. Disponível em: http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/13/tua-aurora-14-sara-farinha/ , http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/16/tua-aurora-24-sara-farinha/ , http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/20/tua-aurora-34-sara-farinha/ e http://fantasyandco.wordpress.com/2014/02/23/tua-aurora-44-sara-farinha/comment-page-1/#comment-307 Acesso: Fevereiro 2014
Soube dar importância e profundidade aos sentimentos das personagens. Os acontecimentos do conto são dependentes do aspecto fantástico, o que revelou maestria da parte da autora em conjugar estes dois aspectos.
5/5
Terminado a 26-02-2014
13 - BUKOWSKY, Charles. Nenhum Caminho para o Paraíso. Disponível em: http://poemasbeatnick.blogspot.com.br/2011/12/nenhum-caminho-para-o-paraiso-charles.html Acesso: Março 2014
Sem crítica.
5/5
Terminado a 22-03-2014
14 - CLARKE, Arthur C. Os Nove Bilhões de Nomes de Deus. Já não está disponível online.
Sem crítica.
5/5
Terminado a 22-03-2014
15 - HEMINGWAY, Ernest. Os Assassinos. Disponível em: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/os-assassinos Acesso: Março 2014
Sem crítica.
4/5
Terminado a 22-03-2014
16 - BRADBURY, Ray. Um Som de Trovão. Disponível em: http://riesemberg.blogspot.com.br/2006/10/um-som-de-trovo-ray-bradbury.html Acesso: Março 2014
Sem crítica.
4/5
Terminado a 22-03-2014
17 - HENRY, O. O presente dos magos. Disponível em: http://www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura/2008/04/18/o-presente-dos-magos-de-o-henry/ Acesso: Março 2014
Sem crítica.
5/5
Terminado a 22-03-2014
18 - WILDE, Óscar. O Gigante Egoísta. Disponível em: http://www.paralerepensar.com.br/paralerepensar/texto.php?id_publicacao=11115 Acesso: Março 2014
Sem crítica.
4/5
Terminado a 22-03-2014
19 - KAFKA, Franz. Um artista no trapésio. Disponível em: http://promeukindle.blogspot.com.br/2012/09/um-artista-no-trapezio-de-kafka.html Acesso: Março 2014
Sem crítica.
4/5
Terminado a 22-03-2014
20 - Marquez, Gabriel Garcia. O Afogado mais bonito do mundo. Disponível em: http://www.deldebbio.com.br/2012/06/08/o-afogado-mais-bonito-do-mundo/ Acesso: Março 2014
Sem crítica.
5/5
Terminado a 22-03-2014
21 - Fonseca, Ruben. Corações Solitários. Disponível em: http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=15400 Acesso: Março 2014
Sem crítica.
5/5
Terminado a 22-03-2014
22 - Quiroga, Horácio. À Deriva. Disponível em: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/-deriva Acesso: Março 2014
Sem crítica.
4/5
Terminado a 22-03-2014
23 - MEDEL, Elena. "Conhecimento do Meio". In Contos Eróticos de São Valentim. Lisboa: Editorial Presença, 2008 (p. 13-30)
Sem crítica.
2/5
Terminado a 23-03-2014
24 - MUNRO, Alice. "Para Chegar ao Japão". In Amada Vida. Lisboa: Relógio d'Água. 2013. (p. 9-31)
Sem crítica.
4/5
Terminado a 29-03-2014
25 e 26- TORDO, João. O outro e Quinceanera. Ebook disponibilizado gratuitamente no site da revista Estante (FNAC) no dia mundial do livro de 2014.
"O outro e Quinceanera" (título do ebook disponibilizado pela revista Estante - Fnac - se houver por aqui alguém que consiga alterar o título, por favor, faça-o)!
São dois contos. Adorei o primeiro ("O outro" - 4 estrelas), por ter uma força muito grande ao mesmo tempo que delírio (um delírio doce que se encontra na obra de João Tordo). É um metatexto que nos fala sobre bloqueios de escrita, e que quase transforma uma cidade do Canadá numa cidade de América do Sul.
Não gostei do segundo conto ("Quinceanera" - 2 estrelas). Há um grande desamor no conto, indiferença. Há algo de incestuoso, violento e invasivo que me incomodou no mau sentido.
3/5
Terminado a 27-04-2014
27 - CRUZ, Afonso. A Queda de um Anjo. Disponível em http://www.dn.pt/Especiais/bibliotecadigital.aspx Acesso em: Abril 2013
A temática do conto não é novidade, nem a perspectiva como o autor a trabalha. O que há aqui de bom é a inovação linguística, o insólito, a graduação de consciência ao longo da queda que nos permite conhecer mais sobre a personagem.
4-5
Terminado a 27-04-2014
28 - PAIXÃO, Pedro. A Musa Irrequieta. Disponível em http://www.dn.pt/Especiais/bibliotecadigital.aspx Acesso em: Abril 2013
Tenho um pouco de dificuldade em me concentrar com textos deste autor, mas ontem, à custa de uma noite de insónias lá para a terceira tentativa consegui arrancar.
Há algo de incestuoso neste conto, na paixão do homem mais velho pela rapariga, mas há algo de infantil, quando a ex-mulher se ri dele e "lhe passa a mão pela cabeça". Talvez o homem que nunca cresce, o eterno Peter Pan? A rapariga está numa de "tudo por tudo", "que se dane", com grande desapego à vida.
Irracionalidade de quem quer ser racional, mais perseguição do amor que o amor em si. Talvez como tudo se escape das nossas mãos.
4/5
Terminado a 27-04-2014
29 - GARCIA, Alessandro. "Salobro". In Flaubert, 1. 2014. Disponível em: http://issuu.com/revistaflaubert/docs/flaubert Acesso em: Maio 2014
Apesar de ser um conto com alguns lugares comuns, a sua força está no modo como consegue incomodar, assim como no português bonito e suave, que apesar do outro lado do Atlântico não causa estranheza.
4/5
Terminado a 08-05-2014
30 - FONSECA, Anderson. "O Prémio". In Flaubert, 1. 2014. Disponível em: http://issuu.com/revistaflaubert/docs/flaubert Acesso em: Maio 2014
Curto que soube ser consiso. Absurdo, que é bom no curto.
4/5
Terminado a 08-05-2014
31 - RICARDO, Luis Miguel. "A história das Sotries". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 6-19)
Sem crítica.
3/5
Terminado a 11-06-2014
32 - ENCARNAÇÃO, Vítor. "A doze léguas de Beja". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 20-37)
Sem crítica.
4/5
Terminado a 11-06-2014
33 - ÉVORA, Fernando. "Ladrova". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 38-59)
Sem crítica.
3/5
Terminado a 11-06-2014
34 - AMEIXA, Maria Ana. "Aventura e amizade em Mértola". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 60-79)
Sem crítica.
2/5
Terminado a 11-06-2014
35 - RICARDO, Luis Miguel. "É como andar de pedalêra". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 80-99)
Um conto perfeito de anti-heróis com quem simpatizamos pela sua genuinidade, e cujo fio narrativo se desenrola em espiral até ao final, sem nos deixar de saborear com as suas partes cómicas e dramáticas.
4/5
Terminado a 11-06-2014
36 - SILVA, Antónia Luísa. "Sonhando sobre um tapete de Arraiolos". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 100-115)
Sem crítica.
2/5
Terminado a 11-06-2014
37 - MORAIS, Miguel. "À sombra duma olivêra". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 116-127)
Sem crítica.
2/5
Terminado a 11-06-2014
38 - PINA, Manuela. "Um amor mal acabado". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 128-145)
Sem crítica.
3/5
Terminado a 11-06-2014
39 - MORAIS, Maria. "O sonho Alentejano". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 146-159)
Sem crítica.
2/5
Terminado a 11-06-2014
40 - OLIVEIRA, Miguel Brito de. "Tour em Alqueva". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 160-175)
Sem crítica.
2/5
Terminado a 11-06-2014
41 - LACERDA, José Teles. "Entre o Sado e a solidão". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 176-191)
Sem crítica.
3/5
Terminado a 11-06-2014
42 - GAGO, Dora. "Eu devo o meu corpo à terra". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 192-203)
Sem crítica.
3/5
Terminado a 11-06-2014
43 - CABEÇÃO, Joaninha Duarte de. "Ti Pina na rota do carvão". In RICARDO, Luis Miguel (coord.) Stories do Alentejo. Rio Tinto: Lugar da Palavra. 2013 (p. 204-228)
Sem crítica.
2/5
Terminado a 11-06-2014
44-57. AAVV. 27 Acrobacias sobre (quase) a mesma coisa. Esdime: 2014
Participei nesta colectânea. Está um trabalho muito aprimorado e as ilustrações são muito bonitas.
Terminado a 2-7-2014
3000€
José era apenas um mendigo na casa dos cinquenta e tal anos. Tinha uma história igual a tantos outros, que se confundia com as histórias daqueles que ele conhecia e acompanhava nas ruas. Às vezes nem ele mesmo tinha a certeza onde começava a sua história e acabava a dos outros. Desemprego tinha sido o primeiro sinal. Desemprego prolongado foi o segundo. José não conhecia colocação em lado nenhum apesar da sua habilidade para o desenrascanço. Era bom em bricolage, não havia móvel que não conseguisse montar, torneira que não conseguisse arranjar, fechadura que não conseguisse mudar. Também sabia consertar electrodomésticos, se conseguisse encontrar as peças que necessitava. Aliás, no desemprego vivia de biscates de arranjos de elecrodomésticos, mas depois foi-se tornando cada vez mais difícil encontrar peças que pudesse usar. Sabia também um pouco de mecânica, de serralharia, de soldadura. Mas não sabia muito de nada, não tinha estudos nem especializações. Era o seu problema, diziam-lhe no centro de emprego. Já tinha sido talhante, trabalhado num balcão de um café, varreu ruas, foi estafeta e ainda comercial. Por fim arrumava carros. Lá no centro de emprego mandaram-no para um curso, para ele tirar o 9º ano. Mas os meses passaram, terminou o curso, terminou a bolsa, ficou com o 9º ano mas o emprego nunca mais aparecia.
Tinha uma filha. Fora casado durante 4 anos e foi durante esse tempo que a menina nasceu. Depois veio o divórcio, a ex-mulher foi para outra cidade. Enquanto ela foi pequena via-a duas vezes por ano: Ano Novo e verão. Quando era adolescente já só a via uma vez no verão. Depois só falava com ela por telefone, e os telefonemas escacearam. Agora só lhe telefonava pelo Natal e nunca lhe disse que estava na rua. Parece que tem duas netas. Nunca as viu. Deu uma morada falsa para que a filha tivesse para onde enviar as fotografias e dizia sempre que as meninas eram bonitas.
O alcoolismo veio depois. Já depois de dormir debaixo de vão de escada, protegendo-se com papelões do vento e do frio. Tinha um colchão encontrado à porta de uma casa, um saco-cama roubado numa estação de comboio, mantas fornecidas pela Cruz Vermelha. Para além disso havia uma caixa onde guardava um pouco de sabão, a fotografia da filha em pequena, uma mecha do seu cabelo e uma fotografia dos tempos da tropa. Ainda havia um relógio, que fora do seu pai, quinquilharia velha que nem sequer trabalhava.
De manhãzinha cedo ia aos balneários públicos. A roupa que vestia depois do banho era sempre a mesma. O corpo podia estar limpo, mas o cheiro da roupa suja persistia.
O dia continuava igual aos outros. Ir à Cruz Vermelha buscar comida ou agasalhos. Falar com a Assistente Social. Ver os editais do Centro de Emprego. Vender Bordas d’Água.
José dava tratamento diferente ao dinheiro que fazia a vender Bordas d’Água e dinheiro que encontrava por acaso na rua. Com o primeiro comprava comida, tabaco, vinho e cerveja. Com o segundo comprava raspadinhas.
Naquela tarde encontrou 2€. Guardou-os no bolso até que encontrou uma papelaria. Entrou e comprou uma raspadinha. O bilhete era premiado: 3000€. O valor era demasiado alto para que lho pagassem ali na papelaria. Indicaram-lhe uma instituição bancária onde poderia ir buscar o dinherio. E José viu-se na rua com 3000 no bolso.
O que haveria de fazer? 3000€ só o iriam tirar da rua poucos meses, se os poupasse bem. O desemprego continuaria, o dinheiro acabaria, e voltar à rua era sentença certa. Quanto muito podia investir numa tenda, que ao mais pequeno descuido seria roubada. Empreender também não era solução. Aquilo que o podia desenrascar não exigia dinheiro, mas sim peças e clientes.
Passou por uma loja de chineses e comprou um fato-de-treino, um impermeável e umas sapatilhas. Foi até uma pensão sua conhecida. 25€ a noite. Franziram o nariz, mas ele mostrou o maço de notas. Deram-lhe o quarto. Lavou a roupa que comprou e meteu-a a secar no radiador. Tomou banho e deitou a sua roupa suja e mal cheirosa fora. Deitou-se nú, mal dormiu.
De manhã saíu do hotel. Pagou e a rapariga, que era a mesma que a tinha atendido à noite, segurou-lhe a mão com força:
- Tenha cuidado, não mostre o dinheiro. Ainda lho roubam. E gaste-o bem.
José foi até ao balneário naquela manhã. Não tomou banho. Mostrou os 2495€. Porque já não eram 3000. Todos disseram o mesmo:
- Não mostres o dinheiro.
- Poupa-o bem!
- Aluga um quarto!
Foi à Cruz Vermelha. Passou pela Assistente Social. Todos lhe disseram o mesmo. Almoçou num tasco com refeições a 5€. Voltou à mesma pensão. Desta vez dormiu. No outro dia de manhã tinha 2910€.
Fez a mesma ronda: balneário, Cruz Vermelha, Assistente Social. A todos disse o mesmo:
- Fui esta manhã a uma agência de viagens. Vou fazer uma viagem aos Açores.
De todos ouviu a mesma resposta:
- Não faças isso, tens falta do dinheiro.
- Vais gastar tudo num instante.
- O dinheiro pode fazer-te falta para outras coisas.
- Não tens vergonha? Tens uma sorte dessas e vais gastar o dinheiro numa viagem?
- Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Esse dinheiro devia era ter-me saído a mim.
- Há gente que não merece a sorte que tem.
Mas ir aos Açores era o sonho da sua vida, e aquela oportunidade não se repetiria. Antes de abalar telefonou à filha e despediu-se dos companheiros de rua. Passou por uma grande superfície comercial e comprou mais fatos-de-treino, meias, cuecas. Uma mala de viagem.
Morreu no dia em que ia regressar. Um enfarte. Ainda sobrou dinheiro para o funeral, e ficou enterrado nos Açores. Toda a gente pensou que ele tinha ficado sem dinheiro para voltar.
Assuntos de Escrita - Entrevista com Ágata Ramos Simões
Ágata Ramos Simões é autora de Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos publicado pela editora Saída de Emergência, que recentemente reeditou em ebook. A autora também tem disponíveis outros títulos em ebook, como podem verificar nos sites da Smashwords, Amazon e Kobo, entre outros. Mantém o blog Escrita.
Gentilmente a autora aceitou ser entrevistada para a rúbrica Assuntos de Escrita, deste blog.
Assuntos de Escrita (AE): Porquê a opção pela publicação de ebooks após teres tido um livro publicado numa editora tradicional?
Ágata Ramos Simões (ARS): Optei pela publicação dos meus livros em formato electrónico uma vez que não tinha nenhuma editora que mos publicasse em formato físico. Pensei: porque não experimentar? Além disso, no futuro próximo, planeio colocar também os meus livros à disposição dos leitores no formato físico - através do site CreateSpace (ainda não sei bem é para quando será).
AE: Recentemente esse teu livro, Mr. Bentley, o Enraba-Passarinhos foi alvo de uma polémica. Às vezes a má publicidade é boa. Aconteceu-te?
ARS: Tanto faz, no meu caso, aparentemente, ter muita publicidade como publicidade nenhuma, não tem grande diferença. Isso não se traduziu em vendas. Na Smashwords tive um total de duas (duas!) vendas do Sr. Bentley. Desconfio que a maioria da malta, em vez de pagar à autora (moi), preferiu simplesmente fazer o download gratuito da obra.
AE: Nem sequer recebeste convite para ir ao "5 para a meia noite"?
ARS: Yap, nem sequer convite para... para lado nenhum!
AE: Download gratuito? Como foi isso acontecer?
ARS: Download gratuito, não através das minhas páginas de autor, claro (embora eu tenha lá livros gratuitos). Digamos que, quando a malta quer, a malta "arranja". C'est la vie!
AE: Podias explicar melhor. Significa que os teus livros foram pirateados? Foi o Mr. Bentley?
ARS: Penso que sim, essa é a explicação mais lógica. Ou isso ou, apesar da publicidade, não houve grande interesse pelo livro - acabando por não gerar vendas.
AE: Então não sabes mesmo se foi pireateado. Não pesquisaste?
ARS: Não sei mesmo - tentei pesquisar, mas como eu não estou nesses sites, não sei.
Embora... houve uma pessoa que me contactou directamente e me pediu o livro pois a versão a que ele
tinha acesso não estava completa. Eu direccionei-o para a Smashwords, ele comprou o livro, e depois eu enviei-lhe a versão completa do Sr. Bentley (agora desnecessário porque tenho no meu blog a parte que falta, acessível a todos).
AE: Como tem sido a receptividade dos teus ebooks?
ARS: Humm, não tem sido má... mas podia ser melhor! Isto é um projecto de longo alcance, isto é, conto com o crescimento futuro. Ainda só tenho 19 ebooks publicados (parece muito, mas não é). Em termos de vendas, quem sabe quando tiver muitos mais é que se notará uma diferença substancial. Até lá continuo a escrever.
Gentilmente a autora aceitou ser entrevistada para a rúbrica Assuntos de Escrita, deste blog.
Assuntos de Escrita (AE): Porquê a opção pela publicação de ebooks após teres tido um livro publicado numa editora tradicional?
Ágata Ramos Simões (ARS): Optei pela publicação dos meus livros em formato electrónico uma vez que não tinha nenhuma editora que mos publicasse em formato físico. Pensei: porque não experimentar? Além disso, no futuro próximo, planeio colocar também os meus livros à disposição dos leitores no formato físico - através do site CreateSpace (ainda não sei bem é para quando será).
AE: Recentemente esse teu livro, Mr. Bentley, o Enraba-Passarinhos foi alvo de uma polémica. Às vezes a má publicidade é boa. Aconteceu-te?
ARS: Tanto faz, no meu caso, aparentemente, ter muita publicidade como publicidade nenhuma, não tem grande diferença. Isso não se traduziu em vendas. Na Smashwords tive um total de duas (duas!) vendas do Sr. Bentley. Desconfio que a maioria da malta, em vez de pagar à autora (moi), preferiu simplesmente fazer o download gratuito da obra.
AE: Nem sequer recebeste convite para ir ao "5 para a meia noite"?
ARS: Yap, nem sequer convite para... para lado nenhum!
AE: Download gratuito? Como foi isso acontecer?
ARS: Download gratuito, não através das minhas páginas de autor, claro (embora eu tenha lá livros gratuitos). Digamos que, quando a malta quer, a malta "arranja". C'est la vie!
AE: Podias explicar melhor. Significa que os teus livros foram pirateados? Foi o Mr. Bentley?
ARS: Penso que sim, essa é a explicação mais lógica. Ou isso ou, apesar da publicidade, não houve grande interesse pelo livro - acabando por não gerar vendas.
AE: Então não sabes mesmo se foi pireateado. Não pesquisaste?
ARS: Não sei mesmo - tentei pesquisar, mas como eu não estou nesses sites, não sei.
Embora... houve uma pessoa que me contactou directamente e me pediu o livro pois a versão a que ele
tinha acesso não estava completa. Eu direccionei-o para a Smashwords, ele comprou o livro, e depois eu enviei-lhe a versão completa do Sr. Bentley (agora desnecessário porque tenho no meu blog a parte que falta, acessível a todos).
AE: Como tem sido a receptividade dos teus ebooks?
ARS: Humm, não tem sido má... mas podia ser melhor! Isto é um projecto de longo alcance, isto é, conto com o crescimento futuro. Ainda só tenho 19 ebooks publicados (parece muito, mas não é). Em termos de vendas, quem sabe quando tiver muitos mais é que se notará uma diferença substancial. Até lá continuo a escrever.
A espada do vampiro Yoru
Mal a noite tinha começado quando Vladimir se deslocou até ao hospital para muitas das suas visitas a Charles. Esperou discretamente, como quem espera por uma consulta, pela sua vez, e entrou no consultório.
- Tenho material.
- Xi, hoje é um dia mau... O Merhet está por cá... Pode aguardar para amanhã?
- Posso: mas sabes que quando mais dias tem o sangue menos bem sabe. Tu é que ficas a perder com a mercadoria.
- Mas está bem acondicionado?
- Sim, não te preocupes.
- Então amanhã assim que o sol se pôr passo pelo teu apartamento, antes de vir para o Hospital. Hoje não tenho hipótese de sair daqui.
Vladimir saíu do consultório, descontraído. O Charles que demorasse o tempo que quisesse, a ele não lhe fazia diferença. Afinal, a vida de vampiro traficante de sangue dos recantos mais exóticos do planeta para pitéus gourmet de vampiros que achavam que tinham status quo requeria uma certa dose de paciência.
Quando estava no lóbi de saída do Hospital encontrou Merhet, vampiro seu conhecido de há muito, patrocinador daquele Hospital e traficante de antiguidades egípcias. O crime, sem dúvida, era uma boa forma de viver para um vampiro. Ou isso ou ter de trabalhar para alguém como Mereht. Vladimir preferia o crime e a sua independência económica.
- Vladimir, não gosto que venhas fazer negócios ao meu Hospital. Aqui só quero negócios meus.
- Esteja descansado! - Vladimir só queria sair dali depressa, evitar aquela conversa e morder a primeira jovem incauta que encontrasse numa esquina da noite.
Foi então que reparou numa vampira chinesa, que acompanhava Merhet. De bata branca, certamente trabalhava ali.
- É Yoru, o nosso novo dentista. - Anunciou Merhet. Afinal era um homem.
- Mas ele está armado! - Escandalizou-se Vladimir. Apesar de uma das formas de se matar vampiros ser a decapitação da cabeça, havia uma norma de conduta que levava a que a maioria dos vampiros não andasse armado. Só alguns, por mera tradição, usavam espadas. Era o caso de Vladimir. - Mas quem é ele para andar armado?
- Vladimir, não esteja preocupado com Yoru. Ele é um lendário lutador japonês da época de revolução.
- Um Samurai?
- Não, um ronin. - Respondeu o Japonês com os olhos em brasa - Eu era filho de camponeses, nunca poderia ser um Samurai. - E a sua mão acariciou o cabo da espada de uma forma que Vladimir não gostou nada.
- Não admito tamanho desafio na minha presença! - Bramiu Vladimir enquanto segurava a sua espada medieval, pesada e a encaminhava na direcção de Yoru. Se a intenção era magoar o japonês ou simplesmente assustá-lo não saberemos, porque Yoru deslocou-se mais rapidamente do que a visão dos vampiros permitia ver. Num instante retirou da baínha a sua espada leve, de gume invertido, e fez voar a espada de Vladimir. Este caíu, com a força do impacto. Yoru encostou a espada ao pescoço de Vladimir. Os seus olhos flamejavam.
- Eu depressa acabo com isto. - disse, enquanto virou a espada para o seu lado afiado.
- Bem, vamos lá acabar com a brincadeira. - Interveio Merhet, encostando as suas mãos aos ombros de Yoru. O japonês relaxou e guardou a sua espada. - Certamente que precisam de se conhecer melhor. Vladimir, deves ter qualquer coisa boa para nos servir na tua casa, não? Talvez sangue com sakê?
- Sim, por acaso tenho. - Não lhe apetecia disfarçar que não era traficante de sangue com um carregamento de sangue acabado de chegar.
- Podes-nos trazer? Só para conversarmos um pouco melhor?
Não lhe bastava toda aquela confusão e ainda tinha de oferecer sangue àquele japonês descontrolado.
- Tenho material.
- Xi, hoje é um dia mau... O Merhet está por cá... Pode aguardar para amanhã?
- Posso: mas sabes que quando mais dias tem o sangue menos bem sabe. Tu é que ficas a perder com a mercadoria.
- Mas está bem acondicionado?
- Sim, não te preocupes.
- Então amanhã assim que o sol se pôr passo pelo teu apartamento, antes de vir para o Hospital. Hoje não tenho hipótese de sair daqui.
Vladimir saíu do consultório, descontraído. O Charles que demorasse o tempo que quisesse, a ele não lhe fazia diferença. Afinal, a vida de vampiro traficante de sangue dos recantos mais exóticos do planeta para pitéus gourmet de vampiros que achavam que tinham status quo requeria uma certa dose de paciência.
Quando estava no lóbi de saída do Hospital encontrou Merhet, vampiro seu conhecido de há muito, patrocinador daquele Hospital e traficante de antiguidades egípcias. O crime, sem dúvida, era uma boa forma de viver para um vampiro. Ou isso ou ter de trabalhar para alguém como Mereht. Vladimir preferia o crime e a sua independência económica.
- Vladimir, não gosto que venhas fazer negócios ao meu Hospital. Aqui só quero negócios meus.
- Esteja descansado! - Vladimir só queria sair dali depressa, evitar aquela conversa e morder a primeira jovem incauta que encontrasse numa esquina da noite.
Foi então que reparou numa vampira chinesa, que acompanhava Merhet. De bata branca, certamente trabalhava ali.
- É Yoru, o nosso novo dentista. - Anunciou Merhet. Afinal era um homem.
- Mas ele está armado! - Escandalizou-se Vladimir. Apesar de uma das formas de se matar vampiros ser a decapitação da cabeça, havia uma norma de conduta que levava a que a maioria dos vampiros não andasse armado. Só alguns, por mera tradição, usavam espadas. Era o caso de Vladimir. - Mas quem é ele para andar armado?
- Vladimir, não esteja preocupado com Yoru. Ele é um lendário lutador japonês da época de revolução.
- Um Samurai?
- Não, um ronin. - Respondeu o Japonês com os olhos em brasa - Eu era filho de camponeses, nunca poderia ser um Samurai. - E a sua mão acariciou o cabo da espada de uma forma que Vladimir não gostou nada.
- Não admito tamanho desafio na minha presença! - Bramiu Vladimir enquanto segurava a sua espada medieval, pesada e a encaminhava na direcção de Yoru. Se a intenção era magoar o japonês ou simplesmente assustá-lo não saberemos, porque Yoru deslocou-se mais rapidamente do que a visão dos vampiros permitia ver. Num instante retirou da baínha a sua espada leve, de gume invertido, e fez voar a espada de Vladimir. Este caíu, com a força do impacto. Yoru encostou a espada ao pescoço de Vladimir. Os seus olhos flamejavam.
- Eu depressa acabo com isto. - disse, enquanto virou a espada para o seu lado afiado.
- Bem, vamos lá acabar com a brincadeira. - Interveio Merhet, encostando as suas mãos aos ombros de Yoru. O japonês relaxou e guardou a sua espada. - Certamente que precisam de se conhecer melhor. Vladimir, deves ter qualquer coisa boa para nos servir na tua casa, não? Talvez sangue com sakê?
- Sim, por acaso tenho. - Não lhe apetecia disfarçar que não era traficante de sangue com um carregamento de sangue acabado de chegar.
- Podes-nos trazer? Só para conversarmos um pouco melhor?
Não lhe bastava toda aquela confusão e ainda tinha de oferecer sangue àquele japonês descontrolado.
Reencontrar pessoas
Ainda estamos em época de Festas, e queria-vos contar como este ano o Natal me chegou mais cedo.
Uma destas manhãs, no trabalho, em que faço o mesmo que em todas as minhas manhãs (ligar o computador, fazer chá, arrumar a papelada que me colocaram na secretária para ir tratar, ver os mails), verifico a recepção de um e-mail, direccionado de um P., cujo assunto era algo como: "És mesmo tu?"
Nem foi preciso abrir o e-mail e verificar o sobrenome do emissor para eu me ter apercebido, naquele momento, de quem era aquela mensagem. E foi já de olhos húmidos, a fazer um esforço tremendo para evitar que as lágrimas me caíssem em pleno escritório, e evitar perguntas desnecessárias por parte dos colegas, que li a mensagem.
P. foi meu colega da escola primária, coleguinha de carteira e de brincadeiras depois da escola, uma vez que ele era meu vizinho. Brincámos muitas vezes na rua em que ele vivia, com a irmã dele e outros miúdos que por ali andavam. Lembro-me de P. como bom rapazinho, bom aluno a matemática, sorriso na cara e caracóis negros. Trocámos milhentos e-mails, como se tivesse sido ontem que, depois de terminado o 3º ano ele tivesse abalado com a família, e como se nunca mais o tivesse visto. Não me tinha esquecido, conseguiu encontrar-me. Eu também nunca o tinha esquecido. O facebook agora permite que continuemos em contacto. Pude ver as fotografias, continua com a mesma cara mas num corpo crescido e é agora pai de uma menina que parece a versão dele feminina quando tinha aquela idade.
Semanas mais tarde volta a acontecer-me o mesmo. Desta feita, pelo facebook, recebo uma mensagem de F., colega do básico a quem eu também tinha perdido o rasto. Lembro-me quando a família dela partiu daqui, no final do nosso 8º ano, depois de um acidente trágico que retirara a vida a uma das suas irmãs. Ainda lhe enviei cartas, lembro-me que não a queria perder assim como tinha perdido o P., mas as cartas não tiveram retorno. F. tinha-se mudado outra vez, e assim perdi o contacto da menina gordinha e sorridente que fazia parte do nosso grupo de amigas. Na festa do final desse ano, eu e N. tocámos e dedicámo-lhes a nossas músicas.
F. tinha visto alguém partilhar uma publicação minha e assim me encontrou o rasto. Falámos, vimos as nossas fotografias. E foi com um nó na garganta que vejo uma F. renovada, linda e magra, muito parecida com a irmã que faleceu.
Há já muitos anos que verifiquei que a minha vida é comandada por uma qualquer força de retorno, no que toca a pessoas. Têm sido muitas as pessoas que tenho voltado a reecontrar e a reatar relações. E como se não bastasse isso, ainda haveria nisto tudo mais uma coincidência, para provar novamente como o nosso mundo é pequenino: afinal P. e F. conhecem-se. Andaram na mesma escola do ensino secundário.
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