Sudoeste: excerto 2

Excerto de Sudoeste:

"O verão não foi eterno, mas o calor de Eros parecia-o ser. Porém, eu andava estranha como nunca. Quando se tornou evidente que Ema existia dentro de mim, o seu olhar tomou ar de cinza cada vez que avistava o horizonte. Era constante o chamamento do mundo. A mente nublada e tempestuosa. Ema trouxera-lhe laços de sangue que o prendiam à minha quinta, à minha falésia e ao meu mar. Laços não desejados a enlaçarem-lhe o coração ao meu.
E entre a dúvida de ir e ficar, deixou-se estar.
E no dia em que Ema nasceu e ele pode tocar no seu corpo vermelho e dorido, o cinzento dos seus olhos abalou e o azul voltou. O desejo pelo desconhecido parecia ter-se ido, mas estava apenas adormecido. Adormecido pelo amor à filha.
O sol brilhou todo esse dia, mas, estranhamente, ao se pôr, surgiram umas nuvens repentinas e uma tempestade assolou o horizonte marítimo. Na costa não choveu, sentia-se, contudo, o frio e o barulho dos trovões que brilhavam no mar.
Quando o meu corpo recuperou e pude voltar a ser mulher para ele, pegamos na menina para lhe mostrarmos o mundo. Primeiro, demos-lhe a conhecer a quinta, todos os cantos, plantas e animais. Depois, fomos à falésia e elevámos o seu corpinho ao cheiro das marés. Fomos, por fim, à aldeia. Mostrar-lhe as casas, as pessoas, o porto, os turistas. Como se ela fosse uma princesa e fosse a nossa obrigação mostrá-la a tudo e todos.
Nos primeiros dias da sua existência deixei de ver todo o resto. Só via Ema. Deixei de pensar em todo o mais. Só pensava em Ema, nem mesmo em Eros. Mesmo a fazer amor o pensamento caía na menina e na estranha tempestade no dia do seu nascimento.
O tempo que passa e vai faz a normalidade regressar à vida. E a recordação da tempestade foi-se esvanecendo. Controlei o amor pela menina para me poder voltar a olhar ao espelho: para ver o meu porte de orgulho por ser mãe e por amar Eros."

Sudoeste: excerto 1

Excerto de Sudoeste:

"Era final de março, princípios de primavera. Quase sozinha de pessoas, pois viver no campo, cuidar da terra e dar-lhe vida com a família é de conviver restrito. Camponesa jovem, filha única entre rapazes. Vivíamos perto do mar sem sermos pescadores: a praia perto de nós era de águas fustigadoras, de rochas duras. Só à linha é que, por vezes, se pescava. No verão, mesmo assim, na maré vazia, o mar dava-nos pequenos mimos como percebes, conquilhas, amêijoas, canivetes e caranguejos que serviam apenas de petisco guloso.
Podia ser só de gente, mas vivia numa multidão de mundo."

Ao Domingo com... Texto meu em "O Tempo entre os meus livros"

"Talvez venha daí, desses domingos à tarde de criança, o meu ensejo por liberdade. Não vos sei explicar bem que liberdade é esta, porque não é uma liberdade de palavras, é uma liberdade de sentidos. É uma liberdade que nada tem a ver com política ou com libertinismo. É uma liberdade que tem a ver com encruzilhadas de destinos desconhecidos, com um depósito de combustível cheio, com o vento a bater-me na cara. Chamei-lhe “chamamento do mundo”, “chamamento pelo desconhecido”, e como desconhecido é nunca soube muito bem para onde é que este chamamento me puxava."

Leiam mais em  O Tempo entre os meus livros e fiquem a saber mais um pouco da origem da minha escrita.

Opinião de "Sudoeste" no blog Flames

"É fácil criarmos empatia com qualquer uma destas três mulheres, e é fácil entender as suas escolhas, perceber as suas mudanças e sofrer com elas.
Numa escrita mais poética do que é habitual e um pouco mais vincada, Olinda não desilude e traz, novamente a público, um livro que recomendo vivamente!"


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