"Sudoeste" - excerto com foto


Os contos que integram a obra "Sudoeste" levam-nos, como neste excerto, a viajar até uma das zonas mais bonitas do nosso país:

«- Estás errada em relação ao nosso irmão. Ele não é como o pai. - Numa manhã invernal de chuva intesa, a minha irmã viera-me buscar ao anexo, onde agora era mais fácil encontrar-me. Pegou em mim e meteu-me no jipe para levar-me à praia. Ficámos lá dentro a observar as vagas espumosas a vociferar, as nunvens densas e escuras a chorar sobre nós. Começou, assim, a falar do nosso irmão sem razão aparente.»

www.coolbooks.pt/sudoeste

Sobre a escrita de contos


Muito se pode dizer sobre a escrita de contos. Há quem diga que é um bom meio para um escritor começar, para se treinar para o romance. Há quem diga que é uma forma menor. Há quem diga, pelo contrário, que o conto é mais exigente, porque dispensa o supérfluo e porque obra a dizer em poucas palavras o que antes de outro modo se diria em muitas.
Uma coisa é o que se diz por aí, outra coisa é o que o autor sente quando escreve contos.
A maior parte das minhas ideias, mesmo que nunca as venha a desenvolver, são ideias para contos. Sei à partida que são contos porque logo na ideia reconheço a economia narrativa do texto que dali pode surgir.
Apesar disso, o conto não deixa de ser para mim um modo de treino e de aprendizagem. Se quero experimentar um certo tipo de narrador, por exemplo, mais vale experimentar em dois ou três contos do que partir para um romance. Mais vale três contos medíocres na gaveta que um romance, porque afinal, o conto até leva menos tempo a escrever.
Mas o conto é também uma forma de experimentalismo. Se quiser experimento fantasia, experimento. Se quiser experimentar terror, experimento. E por aí fora. Fazer experiências com romance não é tão prático, e certamente, menos divertido. E ser um contista esquisofrénico não me parece grande problema. Se for um romancista já não sei...

"Sudoeste" c/ fotos



«Cresci na companhia de minha mãe, uma irmã mais velha e um irmão mais novo. Nunca conheci o meu pai. Contaram-me as pessoas na aldeia, com maldade, ser um vagabundo que ali pousara apenas para me conceber, partindo em seguida, sem qualquer interesse em mim.
A minha mãe nada me contou a respeito dele. Em terra de praia havia muita gente só de passagem. Terá sido uma dessas pessoas. Ou então terá sido um marinheiro. Em criança, gostava de imaginar que ele era um marinheiro, em aventuras constantes no mar, na solidão e sofrimento, não imaginando sequer que eu existia e que poderia estar a pensar nele. Sempre quis acreditar que não fosse o pai dos meus irmãos, não havendo qualquer razão para que julgasse isso. Agradava-me. Nunca o conheci, mas sabia, e ficava feliz, por imaginar que podia não o partilhar com eles.»
Olinda P. Gil, "Sudoeste"
www.coolbooks.pt/sudoeste

Eu e os Ebooks - Guest post no blog de Rute Canhoto

A Rute convidou-me para escrever um textinho no blog dela. Passem por lá, leiam, dêem a vossa opinião. Fica aqui um excerto:

Contudo, a apresentação do livro é um momento importante, quase como que um ritual que declarasse o livro aberto às leituras. É um momento único em que o autor pode ter contacto directo com os seus leitores. Foi por isso que decidi estar presente na apresentação colectiva da Coolbooks.
O ebook é um produto ainda novo e desconhecido da maior parte dos leitores. Por isso, uma apresentação colectiva foi a melhor forma que a Coolbooks encontrou para dar a conhecer as obras. Sem um livro que as pessoas pudessem folhear e ler no local, restou-nos falar sobre o livro, como faríamos noutra apresentação qualquer, assim como responder a questões.

Sophia e o Panteão





Já alguma vez foram ao Panteão Nacional? Eu uma vez decidi que haveria de ir. Foi nos meus tempos de Faculdade. Estava um dia de calor, era o final do segundo semestre. Se não me engano, tinha feito um exame qualquer e aquele foi o passeio eleito para desanuviar a cabeça. Sei que apanhei um eléctrico, andei às voltas pela rua, passei por debaixo de um arco e, por fim, lá encontrei o edifício. Tenho algumas memórias desse dia que são vagas. Outras estão bem presentes.
O edifício fez-me lembrar, de alguma forma, os Invalides, que já tinha visitado em Paris. Para além das semelhanças arquitectónicas em ambos os edifícios experimentei sentimentos negativos, que não sei explicar, mas que estão entre a aflição, claustrofobia, sensação de vazio ou de nada, sensação de abandono.
No dia em que visitei o panteão tive acesso ao terraço, esse sim o único lugar do edifício que me pareceu aprazível. De facto, a vista lá de cima é soberba. Não sei se é costume ter-se acesso a este local, se foi sorte a minha, por ser a única visitante naquele momento.
O Panteão Nacional é a Igreja de Santa Engrácia. Não é coincidência com o nosso dizer “as obras de Santa Engrácia”, pois é mesmo da demora na sua construção que nasceu a expressão.
É neste local de mau início que está Sophia, em conjunto com Amália Rodrigues e outras personalidades. Quem conhece a obra de Sophia sabe perfeitamente o quanto está longe dos sentimentos transmitidos pelo edifício.
Pergunto: é algum castigo por se ser uma personalidade de destaque da cultura portuguesa? Porque a ida para o panteão parece um castigo, deixando o morto afastados dos seus lugares, dos seus familiares.

Quando eu morrer voltarei para buscar. Os instantes que não vivi junto do mar

Pois eu acho que se devia respeitar a vontade dos mortos.

Apresentação do livro "27 acrobacias sobre (quase) a mesma coisa"


Este livro foi resultado de um projecto relacionado com a Igualdade de Género promovido pela Esdime - Agência para o Desenvolvimento Local no Alentejo Sudoeste.

Convidaram-me a participar neste obra, em conjunto com outros autores e com ilustradores. Fiquei muito feliz pelo convite, mas não precisei de escrever um conto propositadamente para aqui. Na verdade, eu tinha um conto escrito em 2011 que se adequava perfeitamente a esta temática, e que estava na gaveta à espera de uma oportunidade.

O meu texto é O Livro de Cassandra, texto com inspirações bíblicas e Homéricas. Como ilustradora tive novamente a oportunidade de trabalhar com a Claudia Banza.

O resultado final é um livro cheio de diferentes histórias, diferentes perspectivas e ilustrações muito bonitas.