o Fotógrafo

Fotografia de Gina Granjeia

Foi fotógrafo por passatempo. Tinha comprado uma máquina razoável e lido umas coisas na internet sobre fotografia: para que as fotografias não parecessem assim tão amadoras quanto isso. Resolvera que se haveria de concentrar a fotografar nos dizeres que as pessoas grafitavam nos muros. Na sua maioria eram palavras de ordem política, as suas preferidas. Havia por vezes declarações amorosas, demasiado parecidas umas às outras. E os dizeres filosóficos de taxista. Mas raros eram os poemas, normalmente escolhidos entre o leque de autores do cânone antes de serem abandonados numa parede.
"Eu não quero viver, e tu?" - encontrou uma vez escrito no muro de uma escola. Era grave o que estava a ler, naquele local. A probabilidade de ser um adolescente deprimido e desesperado a ter escrito aquilo era alta. Sentiu que tinha de fazer alguma coisa, apesar disso se querer escorrer pelos seus dedos. A escola era grande, deveria ter centenas de alunos e não conhecia ali ninguém. Dirigiu-se ao portão de entrada e falou com um funcionário:
-Esses miúdos só o que fazem é estragar. Se souber quem foi mando-o limpar a parede.
Insistiu, que era um grito de alerta. Que um jovem poderia estar prestes a suicidar-se. Mas o funcionário só se interessava pela sugidade na parede.
- Pode-me dar a sua identificação? - Perguntou-lhe. Ele era um intruso na escola, estavam já a tratá-lo como suspeito de querer fazer algum dano àquela comunidade. Lá deixou que lhe tirassem fotocópia da sua identificação. Nunca passou lá perto. Sabia-se lá o que poderiam imaginar? Nunca mais tirou fotografias.


14 Imagens 14 Histórias



14 Imagens, 14 Histórias tem sido uma rubrica deste blog para 2014, com objectivo de promover o conto curto.
Por enquanto chegámos às 9 histórias, com a recente (e com um equívoco pelo meio) particiação, O Fotógrafo. Será que há por aí ainda 5 alminhas penadas a querer participar?

Deixo aqui as participações (link para os textos nas imagens!)

http://www.olindapgil.com/2014/03/descobrir-o-desconhecido.html http://www.olindapgil.com/2014/04/o-voo-do-moscardo.html 
http://www.olindapgil.com/2014/04/agrilhoada.html
http://www.olindapgil.com/2014/04/a-recriacao-do-mundo.html


http://www.olindapgil.com/2014/04/podia-ser-so-o-amor.htmlhttp://www.olindapgil.com/2014/04/o-cinema-imaginado.html



























Dieta Neolítica



Nos tempos antigos, na altura em que os grandes caçadores se tornaram pastores e os últimos recolectores agricultores, houve um grupo de pessoas que decidiu criar uma dieta a partir de pedras.
A primeira parte do grupo desistiu depois de partir os dentes. A segunda parte morreu de fome.
Nem te vejo a verdade

És belo pelo que penso ver em ti

As tuas verdades são as que contas e eu acredito

Só tenho o que me estás a dar
Só amo o que me deixas amar

Ter as minhas mãos cheias de ti,
Sei que é apenas uma ilusão.

Digo agora que impregnas o meu olhar em tudo
O que vejo e o meu entendimento
Em tudo o que penso e dirão os outros,
Certos que estou apaixonada por ti.
E transformei este poema num poema de amor.
Acabou-se a teoria, a universalidade, a eternidade.
Será mais um poema de amor malfeito.
Mas não é.
Recorrente, retórico, estilístico
Contém a verdade e eu amo-te mesmo!

Onde nasceram (palavras)
Onde surgiu o (crime)
De gravar
O pensamento infinito

Morrer
Debaixo do sol
E das lágrimas de fogo
Sob o ódio

A morte das (palavras)
O duplo (crime)

Ver soldados a lutar
Trocar (palavras) por pão
E insultos por amor

Assuntos de Escrita - Leitores e escritores: As redes sociais como meio de aproximação​

Assuntos de Escrita é a nova rubrica deste blog, que vai contar com a colaboração de outro blogger, todos os meses, para nos falar de um assunto relacionado com a escrita.Este mês foi convidada a autora do blog Ler e Reflectir, a Tchetcha.

Uma das coisas que costumo fazer, quando leio um livro de que gosto muito e quero saber mais sobre o autor que o escreveu, é "googlá-lo". O que acontece normalmente é uma das três seguintes situações: Ir parar à sua página oficial, ir parar à página que a editora a que o escritor pertence lhe criou ou apenas encontrá-lo na wikipédia porque já não é vivo. Das três situações a mais simpática, na minha opinião, é a primeira. No entanto não acho que todos os escritores devam ter uma página na internet.

Uma página oficial é como uma casa na internet
Quando vou parar à página oficial de um autor há 2 coisas que faço primeiro: ver que livros já escreveu e se tem excertos disponíveis para poder ler. Só depois procuro o resto: a biografia do autor, se tem um calendário de digressão para autógrafos e encontros com os fãs e por fim o blogue. Um artigo que li recentemente com dicas aos escritores sobre como "montar" o seu website foi este (em inglês) no blogue "Dear Author". São boas dicas principalmente para escritores que não têm ninguém que lhes faça esse trabalho.

Um blogue é uma faca de dois gumes.
Confesso que ler um blogue de um autor é o que me deixa mais apreensiva, pois não sou grande fã de ler poesia ou textos livres, assim como não estou interessada nas divagações sobre a sua vida privada ou algo do género. Para mim, como leitora, o que me interessa ler num blogue de um escritor é a sua perspectiva sobre o processo de escrita, o que o inspira, o que está a ler agora, o que o interessa nesse momento. Tudo isso poderá influenciar o seu próximo livro, dando-me assim um vislumbre do que poderei vir a ler.
O perigo para um autor em ter um blogue é que terá nos comentários um feedback imediato dos leitores. Pode parecer maravilhoso, principalmente quando os leitores se desdobram em elogios e pode induzir a uma sensação de proximidade, em que escritor e leitores são "amigos". O problema é que nem sempre os comentários são bons e nem sempre um bom escritor é uma boa pessoa. E as desilusões de parte a parte acontecem. 

Escrever, acima de tudo.
O ideal, nesta era de informação e redes sociais é ter uma página oficial simples e bem construída com a informação permanentemente actualizada e ter alguém que faça esse trabalho de uma forma profissional. Se o escritor quiser ter um blogue convém ter em mente que deve evitar a interação constante com quem comenta, excepto se é feita uma afirmação errada ou se é colocada uma pergunta para a qual não há resposta no website (e se for possível responder, claro). Além disso convém compreender que ficará mais vulnerável às "criticas" negativas assim como às "ameaças" feitas pelos leitores mais descontentes.
Na minha sincera opinião um escritor deve focar a sua atenção em escrever livros. Se montar uma página oficial e manter um blogue actualizado significa menos um capítulo no livro, eu como leitora prefiro sempre mais um capítulo do livro.

By Tchetcha

O profeta não cumpre o oráculo;
O poeta não realiza o sonho;
O arquitecto destrói a torre,
As palavras voam sem sentido
Desprendidas de uma tela podre.

Sim, este poema seria
Para ti, que não me ouves,
Homem corrompido,
Apenas a vaguear no mundo
Para existir
Efémero e insano.

Este poema serve em todos
Os falsos profetas e falsos poetas,
Em todos os juízes sem lei,
Em todas as palavras vãs,
Em todos os pianos sem teclas.

Chega de robots que falam
E ideais toldados em música.