O que de bom vem depois de publicar

O meu livro foi publicado ainda há muito pouco tempo. Creio que ainda terá oportunidade de me reservar muitas boas surpresas (pelo menos assim espero). Mas até agora já tive oportunidade de ter uns bons momentos agradáveis por causa deste livro.
Não estou a falar dos elogios nem das palmadinhas de costas das pessoas conhecidas (e até bem que poderiam rir comigo por causa de outros conhecidos que agora me são incapazes de olhar de frente...), nem das mensagens e mails recebidos daqueles que não conheço, mas que sei que são leitores do que escrevo (e que anda por aí na Smashowrds e no Blog e nalguns trabalhos em que já participei). Estou a falar daqueles que eu não fazia ideia que me conheciam.
Digamos que nestas duas últimas semanas recebi dois convites para participar em duas revistas online. Uma generalista e outra literária. Foram dois convites que me deram muita satisfação. Atempadamente, e quando os textos saírem, deixar-vos-ei os links e as indicações para seguirem e lerem.
Uma das pessoas que comigo contactou, da revista literária, confessa que seguia o meu trabalho desde o DNJovem. Mas como é possível? Foi há tanto tempo... Conversa puxa conversa acabámos por descobrir que nunca nos encontrámos e conhecemos nos tempos de Faculdade por uma unha negra, uma vez que temos vários conhecimentos em comum.
Sim, saber isto dá alegria, mas sobretudo espanto. Naqueles tempos eu era só uma miúda (e agora talvez ainda seja).
E também me deu revolta: porque o DNJovem terminou, porque se dizia que ninguém lia. Ah, afinal, parece que havia leitores. Leitores que o jornal nunca procurou saber se existiam...
É certo que a vida continua. Mas tenho pena que outros jovens de 15 anos não tenham a mesma oportunidade que tive, e que, afinal, me veio dar alegrias e satisfações aos 30.

Entrevista à Rádio Castrense

A partir de um livro perdido

As viagens de comboio dos subúrbios até à cidade nem são das piores deslocações pendulares que se podem fazer. Há sempre oportunidade de observar o passar das estações do ano, o rio que a linha férrea segue, a mudança da hora da luz, as pessoas, sonolentas de manhã e cansadas de tarde. Por vezes passavam semanas sem que houvesse nada que valesse a pena prestar atenção. Outras vezes sucediam-se dias com aspetos particulares e curiosos.

Naquele dia foi uma rapariga. Oh! Eu sei, há sempre tantas raparigas e é tão fácil um rapaz encantar-se nelas. Ela encantou-me, apesar de, racionalmente, não o dever ter feito. Havia outras raparigas naquele comboio, mais ao jeito que me costuma encantar. Como uma de olhos verdes e caracóis castanhos num nó que eu já tinha notado a olhar para mim. Ou outra, de lábios grossos e dentes grandes que já me sorrira.

Aquela, contudo, nem me vira sequer. Quando entrei no comboio ela ia com o olhar pregado num livro, deixando que dos seus olhos visse apenas a ténue linha negra das pestanas. Depois adormeceu com o livro no colo e o sol na pele branca. Nariz pequeno, sem personalidade, lábios finos, de rosa desidratado. Cabelo liso, negro, cortado pelo queixo. O corpo pequeno e franzino, as mãos minúsculas, de dedos muito finos e unhas não tratadas. Vestia tão simples que parecia sóbria. Sapatilhas, jeans, uma camisola azul. Agarrava uma mochila com os seus pertences. Parecia tão insignificante, como se o mundo não se importasse com ela, e isso não a incomodasse.

Peguei na minha mochila, que trazia coisas que não faziam falta nenhuma aos meus estudos: tabaco de enrolar, uma harmónica, uma revista de música, a carteira, um caderno para a eventualidade de um apontamento. Era mais certo vir cheia no regresso a casa, caso me dessem uns folhetos sobre ambientalismo, política ou ativismo social. Coisas com que ocupava o meu tempo, não sobrando grande espaço na agenda para o estudo. Ela deveria levar a mochila cheia de livros e fotocópias. Tinha aspeto de estudiosa.

Passei pelas duas raparigas atraentes antes de sair, que me sorriram, e só depois notei que ela já tinha saído. Mas no seu banco estava o livro, esquecido. Impulsivamente peguei-lhe, e só depois de sair é que o olhei. Se ela saíra naquela estação, talvez estudasse na mesma faculdade que eu.

Era um livro de histórias de amor, com a capa amarrotadíssima e as pontas das páginas machucadas.

Folheei o livro à procura dos dados do possuidor, que nos sítios habituais, quer nos improváveis, mas nada encontrei. Contudo, das suas páginas caiu um folheto, que observei atento. Tratava-se de uma conferência sobre autores portugueses contemporâneos, organizada e proferida por alunos de diferentes faculdades, estando assinalada uma palestra sobre o autor do livro. Possivelmente tinha-lhe interessado. As conferências eram na minha faculdade, dentro de poucos dias. Talvez aí a julgasse presente e tivesse possibilidade de lhe entregar o livro.

À noite, no sossego da minha cama, não consegui dormir. Eu, que o pouco que lia nem sequer incluía literatura relacionada com os meus estudos, folhei o livro, tentando descortinar através dele algum traço da personalidade da rapariga.

O livro era uma colectânea de histórias de amor, publicadas pelo seu autor numa revista, e agora melhoradas. Tentei recordar-me da rapariga, mas a memória parecia trair-me, não conseguindo vislumbrar nada nela que revelasse gostar de histórias de amor. O livro nada parecia ter a ver com ela, e contudo, vira-a a lê-lo.

O mistério continuou indecifrável até ao dia da conferência. Até lá dormi mal e levei os dias sobressaltado, olhando por cima dos ombros na esperança vã de a encontrar nos corredores da faculdade.

Inesperadamente, porque nunca apreciara a leitura, e menos ainda autores portugueses, tinha o livro lido, tendo-me provocado um qualquer sentimento romântico que me aumentara a vontade de a encontrar. Na hora da palestra entrei no auditório, onde já decorria. Percorri o público com o olhar, ansioso por a encontrar, sem sucesso, e só depois notei que ela era a conferencista.

Não sabia ainda o seu curso ou faculdade, mas em breve iria saber muito mais coisas sobre ela. Quando terminasse, entregar-lhe-ia o livro perdido. Agora entendi porque ela o lia. E entendi que o livro acabou por servir como a desculpa perfeita para lhe dirigir palavra.



© 2012

O meu Flames num ano

Uma espécie de entrevista que podem encontrar no blog Flames.

O teu FLAMES num ano

2016 foi um ano repleto de surpresas. Por ter sido um ano fora do comum, acreditamos que ainda vamos ouvir falar nele bastante em 2017. No FLAMES queremos fazer o mesmo. De um ano que tanta gente apelidou de um dos piores na história da humanidade, nós queremos retirar o que de melhor houve. Assim nasce a rubrica "O teu FLAMES num ano"



Olinda Gil
2016

Página facebook: https://www.facebook.com/olindapgil/

Blogue: www.olindapgil.blogspot.com

Canal Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCAtuP9atfiGyG5PjuRPQ8Kg

Filmes: Star Wars VII – O despertar da força… (reviver de memórias antigas)
Livros: O quadro da mulher sentada a olhar para o ar com cara de parva (de Luís Afonso, com um conto, “O Operário” dos melhores que já li até hoje); Esse Cabelo (Djaimilia Pereira de Almeida); Lavínia (Ursula LeGuin); A deusa no jardim das Hespérides, de Luíza Frazão (ed. Autor) que aconselho a todas as mulheres lerem!
Animes:
Mangas:
Eventos, espetáculos e/ou entretenimento:
Séries: Guerra dos Tronos e Ficheiros Secretos!

Contos: tendência digital?

retirado daqui
Porque digo isto?

As editoras nunca apostam muito em contos. Ou editam um livro de contos de um autor já em consagrado (Sophia de Mello Breyner Andresen e José Rodrigues Miguéis, por exemplo); ou fazem uma colectânea de autores consagrados (normalmente com temáticas específicas como no caso de A República Nunca Existiu); ou, ainda menos vezes, lançam colectâneas de autores estreantes (caso recente de Lisboa no Ano 2000 não se costuma ver muito - aliás, quase nada!).
Diz-se que os livros de contos não rendem dinheiro. Que os leitores preferem romance. Na verdade, e apesar do conto ser um género mais pequeno e mais conciso, nem sempre a sua leitura é fácil. O romance, como é mais longo e mais rico em pormenores fica melhor retido na memória. Eu própria confesso que tenho mais facilidade em me recordar de um romance do que dum conto.
Ler um livro de contos talvez também não seja fácil. O leitor talvez lhe apeteça ler um conto hoje, outro daí a duas semanas e acaba por esquecer o livro. Mais uma vez falo por experiência própria: não leio de seguida livros de contos.

Contudo, ultimamente, com o advento dos ebooks e dos ereaders apercebi-me que o conto parece estar a espreitar à janela e tomar o seu lugar. O conto talvez se adapte melhor a uma leitura digital.

Vejamos um exemplo ficcionado: um leitor, no seu ereader guarda várias obras: romance, não-ficção e contos. Não tem poesia (porque não gosta de ler poesia no ereader, mania dele). Às vezes lê contos, e antes de ter o ereader quase nunca lia contos. Por exemplo, quando está a ler uma passagem aborrecida de um romance que naquele momento não lhe apetece continuar a ler: pega num conto. Quando está à espera no dentista e sabe que não vale a pena pegar no romance pois pode acontecer ter de o largar no momento mais emocionante: então lê um conto.

E porque digo eu que os contos estão a aparecer com mais força em formato digital? Não estou a inventar nada, mas parece ser essa a tendência. Vou dar dois exemplos (cuja ordem é aleatória)
Curiosamente, através de Trëma encontrei este artigo sobre contos e antologias: as colectâneas mataram os blogs de contos?

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Actualização a 31 de Janeiro 2013: recebi da Amazon Brasil uma publicidade de ebooks de contos por R$1,79. Curioso

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Actualização a 10 de Fevereiro 2013: artigo do The Guardian defende que os contos são o género literário perfeito para a era do e-reader.

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Actualização a 13 de Fevereiro 2013: Excelente artigo de Marcel Breton sobre como os leitores vêm (por vezes mal) os contistas.

O Anel de Noivado


imagem daqui: http://www.reception-wedding.com/wedding_rings.htm
Cliente – Olá muito bom dia!
Vendedor – Bom dia! Por acaso deseja alguma coisa?
Cliente – Desejo sim.
Vendedor – Sendo assim, pode dizer o que deseja?
Cliente – Gostava de ver um anel.
Vendedor – Só ver? Não pretende comprar ou alugar?
Cliente – Por acaso gostaria de ver um anel para comprar.
Vendedor – Mas, gostaria de ver, ou gostaria de comprar? É que aqui só vendemos ou alugamos anéis. Não mostramos!
Cliente – Gostaria de comprar.
Vendedor – E que anel gostaria de comprar? Um anel de diamantes? Um anel de ouro de lei?
Cliente – Pretendo comprar um anel de noivado.
Vendedor – De noivado? Para a mão ou para o pé?
Cliente – Para a mão, com certeza. Um anel de noivado tem de ser para a mão.
Vendedor – É que também vendemos anéis para os pés. E pulseiras para os tornozelos. E brincos para o umbigo.
Cliente – Mas eu pretendo um anel de noivado, para a mão direita!
Vendedor – Muito bem. Diga-me então, e para que dedo?
Cliente – Para que dedo?
Vendedor – Sim, para que dedo? Consoante o dedo, assim o tamanho.
Cliente – Não se preocupe, eu sei a medida. E é um anel para o dedo anelar.
Vendedor – Aguarde um momento, vou trazer alguns, para o senhor escolher.
(o Vendedor vai buscar um mostrador de anéis) Ora aqui está! Estes são os anéis de noivado que temos disponíveis.
Cliente – (olha atentamente para os anéis) Desculpe, mas não vou levar nenhum. Não são do agrado da minha noiva.
Vendedor – Ah, mas isso não importa! Eles são todos baratos!
Cliente – Não estou preocupado com o preço. Estou disposto a pagar muito dinheiro, desde que eu saiba que o anel vai ser do agrado da minha noiva.
Vendedor – Digo-lhe, devia levar um anel do seu agrado.
Cliente – Do meu agrado? Mas não é para mim…
Vendedor – Mas é você que vai oferecer! É isso que interessa. Veja lá se gosta de algum destes!
Cliente – Por acaso até há um ou dois que não me desagradam. Mas não são ao gosto dela.
Vendedor – Mas ela também tem a obrigação de lhe agradar. Se você lhe oferecer um anel que ela não goste, ela tem a obrigação de gostar desse anel.
Cliente – A minha noiva não é desse tipo de mulher. Ou gosta ou não gosta! Ela não finge.
Vendedor – E pretende casar com uma senhora assim?
Cliente – Claro, ela é verdadeiramente sincera.
Vendedor – Acredito. Mas uma esposa é melhor que seja mentirosa. Se ela arranjar um amante, conta-lhe logo!
Cliente – A sério? Mas eu não quero que ela me conte!
Vendedor – É o que lhe estou a dizer. Arranje uma noiva mentirosa. Uma sincera conta-lhe tudo, e depois você vê-se obrigado a divorciar-se.
Cliente – O senhor é capaz de ter razão… Um casamento com uma mulher sincera não é um casamento para a vida.
Vendedor – Já nenhum casamento é para a vida!
Cliente – Diga-me então, e que outros anéis me poderia vender?
Vendedor – Tenho ali uns anéis de curso, acho que são indicados para si.
Cliente – Acha? (amanha o colarinho vaidoso). Bem, um anel de curso sempre é para vida. Um anel de noivado já não.
Vendedor – Está a ver? O senhor sabe escolher! Tenho de várias qualidades, preços e feitios. Que prefere?
Cliente – Um dos caros e dos bons! Para não ficar desempregado logo a seguir.
Vendedor – (em segrego) Tenho ali uns excelentes! Emprego garantido. Até já vêm com diploma e tudo!
Cliente – A sério?! E quais são?
Vendedor – Tenho de engenheiro, de médico e de advogado. Mas de médico já só tenho um, e está pelos olhos da cara!
Cliente – Olhe… então talvez seja melhor um de engenheiro, sempre é capaz de ser mais discreto. Também não quero suscitar as invejas.
Vendedor – Acho que tem toda a razão! Os de engenheiro são excelentes! Vou já buscar um. Quere-lo numa caixa ou leva já na mão?
Cliente – Na mão! E levo o canudo debaixo do braço!

Psyco_v82 vs. MetalD

M – MetalD

P – Psyco_v82



M – Nunca tinha vido ao psicólogo.

P –E continuas sem vir. Estás só a falar comigo online.

M – Ergh… Eu sei. Desculpa.

P –Não tens de pedir desculpa.

M – Costumam fazer-te perguntas tontas?

P –Costumam.

                        Silêncio (não se houve ninguém a teclar)

M – Eu prefiro que seja online.

P –Muitos dos vampiros preferem. Eu também prefiro.

M – A sério?

P –Sim. Os vampiros são diferentes dos humanos, não costumam esquecer-se de ninguém. Se me conhecerem pessoalmente vão querer levar a eternidade a falar comigo.

M – Mas és psicóloga. Não gostas de falar com os vampiros?

P –Gosto de tratar de vampiros quando precisam, e à distância. Não gosto que me aborreçam.

M – Não preferias que as consultas fossem presenciais? Não tens vampiros que não sabem ir à internet?

P –Os vampiros adaptam-se bastante bem às mudanças. Se assim não fosse, como poderiam viver eternamente?

M – Sim. Mas tu poderias preferir presencial.

P –Estamos aqui para falar de ti, não de mim. Porque preferes consultas à distância?

M – Ergh… Bem… Sabes… Tenho vergonha…

P –Vergonha? De quê? Um vampiro não deve ter vergonha de nada!

M – Sou um vampiro muito recente, sabes.

P –Compreendo. É uma fase muito difícil. A adaptação à essência de vampiro… Mas não tens de ter vergonha.

M – Sim. Mas não é isso. Eu… ah… Sou um vampiro deste século. Fui transformado há dois anos.

P –Os meus parabéns! Já passaste a pior fase, que é o primeiro ano. Ago que controlas os teus instintos, só tens de te concentrar em aprender o máximo que puderes. Nunca tenhas vergonha de ser recente!

M – Não é isso!... Eu era muito jovem quando fui transformado. Um adolescente. Se calhar ainda o sou.

P –Um vampiro não se mede pela idade que tinha antes de ser transformado, mas pelos anos que passa depois da transformação.

M – É que… A psicóloga não me está a ver, não faz ideia.

P –São borbulhas?

M – Não. Eu tinha aparelho nos dentes…

P –E?

M – Agora não sai!