Opinião de "Contos Breves"

Este mês tenho tentado promover a leitura do meu livro junto de bloggers, cedendo uma versão digital do mesmo para que possam ler, e, posteriormente possam dar a sua opinião.

A Rute Canhoto aceitou o desafio e já deixou a sua opinião! Passem por lá e espreitem!

O que de bom vem depois de publicar

O meu livro foi publicado ainda há muito pouco tempo. Creio que ainda terá oportunidade de me reservar muitas boas surpresas (pelo menos assim espero). Mas até agora já tive oportunidade de ter uns bons momentos agradáveis por causa deste livro.
Não estou a falar dos elogios nem das palmadinhas de costas das pessoas conhecidas (e até bem que poderiam rir comigo por causa de outros conhecidos que agora me são incapazes de olhar de frente...), nem das mensagens e mails recebidos daqueles que não conheço, mas que sei que são leitores do que escrevo (e que anda por aí na Smashowrds e no Blog e nalguns trabalhos em que já participei). Estou a falar daqueles que eu não fazia ideia que me conheciam.
Digamos que nestas duas últimas semanas recebi dois convites para participar em duas revistas online. Uma generalista e outra literária. Foram dois convites que me deram muita satisfação. Atempadamente, e quando os textos saírem, deixar-vos-ei os links e as indicações para seguirem e lerem.
Uma das pessoas que comigo contactou, da revista literária, confessa que seguia o meu trabalho desde o DNJovem. Mas como é possível? Foi há tanto tempo... Conversa puxa conversa acabámos por descobrir que nunca nos encontrámos e conhecemos nos tempos de Faculdade por uma unha negra, uma vez que temos vários conhecimentos em comum.
Sim, saber isto dá alegria, mas sobretudo espanto. Naqueles tempos eu era só uma miúda (e agora talvez ainda seja).
E também me deu revolta: porque o DNJovem terminou, porque se dizia que ninguém lia. Ah, afinal, parece que havia leitores. Leitores que o jornal nunca procurou saber se existiam...
É certo que a vida continua. Mas tenho pena que outros jovens de 15 anos não tenham a mesma oportunidade que tive, e que, afinal, me veio dar alegrias e satisfações aos 30.

Entrevista à Rádio Castrense

A partir de um livro perdido

As viagens de comboio dos subúrbios até à cidade nem são das piores deslocações pendulares que se podem fazer. Há sempre oportunidade de observar o passar das estações do ano, o rio que a linha férrea segue, a mudança da hora da luz, as pessoas, sonolentas de manhã e cansadas de tarde. Por vezes passavam semanas sem que houvesse nada que valesse a pena prestar atenção. Outras vezes sucediam-se dias com aspetos particulares e curiosos.

Naquele dia foi uma rapariga. Oh! Eu sei, há sempre tantas raparigas e é tão fácil um rapaz encantar-se nelas. Ela encantou-me, apesar de, racionalmente, não o dever ter feito. Havia outras raparigas naquele comboio, mais ao jeito que me costuma encantar. Como uma de olhos verdes e caracóis castanhos num nó que eu já tinha notado a olhar para mim. Ou outra, de lábios grossos e dentes grandes que já me sorrira.

Aquela, contudo, nem me vira sequer. Quando entrei no comboio ela ia com o olhar pregado num livro, deixando que dos seus olhos visse apenas a ténue linha negra das pestanas. Depois adormeceu com o livro no colo e o sol na pele branca. Nariz pequeno, sem personalidade, lábios finos, de rosa desidratado. Cabelo liso, negro, cortado pelo queixo. O corpo pequeno e franzino, as mãos minúsculas, de dedos muito finos e unhas não tratadas. Vestia tão simples que parecia sóbria. Sapatilhas, jeans, uma camisola azul. Agarrava uma mochila com os seus pertences. Parecia tão insignificante, como se o mundo não se importasse com ela, e isso não a incomodasse.

Peguei na minha mochila, que trazia coisas que não faziam falta nenhuma aos meus estudos: tabaco de enrolar, uma harmónica, uma revista de música, a carteira, um caderno para a eventualidade de um apontamento. Era mais certo vir cheia no regresso a casa, caso me dessem uns folhetos sobre ambientalismo, política ou ativismo social. Coisas com que ocupava o meu tempo, não sobrando grande espaço na agenda para o estudo. Ela deveria levar a mochila cheia de livros e fotocópias. Tinha aspeto de estudiosa.

Passei pelas duas raparigas atraentes antes de sair, que me sorriram, e só depois notei que ela já tinha saído. Mas no seu banco estava o livro, esquecido. Impulsivamente peguei-lhe, e só depois de sair é que o olhei. Se ela saíra naquela estação, talvez estudasse na mesma faculdade que eu.

Era um livro de histórias de amor, com a capa amarrotadíssima e as pontas das páginas machucadas.

Folheei o livro à procura dos dados do possuidor, que nos sítios habituais, quer nos improváveis, mas nada encontrei. Contudo, das suas páginas caiu um folheto, que observei atento. Tratava-se de uma conferência sobre autores portugueses contemporâneos, organizada e proferida por alunos de diferentes faculdades, estando assinalada uma palestra sobre o autor do livro. Possivelmente tinha-lhe interessado. As conferências eram na minha faculdade, dentro de poucos dias. Talvez aí a julgasse presente e tivesse possibilidade de lhe entregar o livro.

À noite, no sossego da minha cama, não consegui dormir. Eu, que o pouco que lia nem sequer incluía literatura relacionada com os meus estudos, folhei o livro, tentando descortinar através dele algum traço da personalidade da rapariga.

O livro era uma colectânea de histórias de amor, publicadas pelo seu autor numa revista, e agora melhoradas. Tentei recordar-me da rapariga, mas a memória parecia trair-me, não conseguindo vislumbrar nada nela que revelasse gostar de histórias de amor. O livro nada parecia ter a ver com ela, e contudo, vira-a a lê-lo.

O mistério continuou indecifrável até ao dia da conferência. Até lá dormi mal e levei os dias sobressaltado, olhando por cima dos ombros na esperança vã de a encontrar nos corredores da faculdade.

Inesperadamente, porque nunca apreciara a leitura, e menos ainda autores portugueses, tinha o livro lido, tendo-me provocado um qualquer sentimento romântico que me aumentara a vontade de a encontrar. Na hora da palestra entrei no auditório, onde já decorria. Percorri o público com o olhar, ansioso por a encontrar, sem sucesso, e só depois notei que ela era a conferencista.

Não sabia ainda o seu curso ou faculdade, mas em breve iria saber muito mais coisas sobre ela. Quando terminasse, entregar-lhe-ia o livro perdido. Agora entendi porque ela o lia. E entendi que o livro acabou por servir como a desculpa perfeita para lhe dirigir palavra.



© 2012

O meu Flames num ano

Uma espécie de entrevista que podem encontrar no blog Flames.

O teu FLAMES num ano

2016 foi um ano repleto de surpresas. Por ter sido um ano fora do comum, acreditamos que ainda vamos ouvir falar nele bastante em 2017. No FLAMES queremos fazer o mesmo. De um ano que tanta gente apelidou de um dos piores na história da humanidade, nós queremos retirar o que de melhor houve. Assim nasce a rubrica "O teu FLAMES num ano"



Olinda Gil
2016

Página facebook: https://www.facebook.com/olindapgil/

Blogue: www.olindapgil.blogspot.com

Canal Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCAtuP9atfiGyG5PjuRPQ8Kg

Filmes: Star Wars VII – O despertar da força… (reviver de memórias antigas)
Livros: O quadro da mulher sentada a olhar para o ar com cara de parva (de Luís Afonso, com um conto, “O Operário” dos melhores que já li até hoje); Esse Cabelo (Djaimilia Pereira de Almeida); Lavínia (Ursula LeGuin); A deusa no jardim das Hespérides, de Luíza Frazão (ed. Autor) que aconselho a todas as mulheres lerem!
Animes:
Mangas:
Eventos, espetáculos e/ou entretenimento:
Séries: Guerra dos Tronos e Ficheiros Secretos!

Contos: tendência digital?

retirado daqui
Porque digo isto?

As editoras nunca apostam muito em contos. Ou editam um livro de contos de um autor já em consagrado (Sophia de Mello Breyner Andresen e José Rodrigues Miguéis, por exemplo); ou fazem uma colectânea de autores consagrados (normalmente com temáticas específicas como no caso de A República Nunca Existiu); ou, ainda menos vezes, lançam colectâneas de autores estreantes (caso recente de Lisboa no Ano 2000 não se costuma ver muito - aliás, quase nada!).
Diz-se que os livros de contos não rendem dinheiro. Que os leitores preferem romance. Na verdade, e apesar do conto ser um género mais pequeno e mais conciso, nem sempre a sua leitura é fácil. O romance, como é mais longo e mais rico em pormenores fica melhor retido na memória. Eu própria confesso que tenho mais facilidade em me recordar de um romance do que dum conto.
Ler um livro de contos talvez também não seja fácil. O leitor talvez lhe apeteça ler um conto hoje, outro daí a duas semanas e acaba por esquecer o livro. Mais uma vez falo por experiência própria: não leio de seguida livros de contos.

Contudo, ultimamente, com o advento dos ebooks e dos ereaders apercebi-me que o conto parece estar a espreitar à janela e tomar o seu lugar. O conto talvez se adapte melhor a uma leitura digital.

Vejamos um exemplo ficcionado: um leitor, no seu ereader guarda várias obras: romance, não-ficção e contos. Não tem poesia (porque não gosta de ler poesia no ereader, mania dele). Às vezes lê contos, e antes de ter o ereader quase nunca lia contos. Por exemplo, quando está a ler uma passagem aborrecida de um romance que naquele momento não lhe apetece continuar a ler: pega num conto. Quando está à espera no dentista e sabe que não vale a pena pegar no romance pois pode acontecer ter de o largar no momento mais emocionante: então lê um conto.

E porque digo eu que os contos estão a aparecer com mais força em formato digital? Não estou a inventar nada, mas parece ser essa a tendência. Vou dar dois exemplos (cuja ordem é aleatória)
Curiosamente, através de Trëma encontrei este artigo sobre contos e antologias: as colectâneas mataram os blogs de contos?

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Actualização a 31 de Janeiro 2013: recebi da Amazon Brasil uma publicidade de ebooks de contos por R$1,79. Curioso

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Actualização a 10 de Fevereiro 2013: artigo do The Guardian defende que os contos são o género literário perfeito para a era do e-reader.

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Actualização a 13 de Fevereiro 2013: Excelente artigo de Marcel Breton sobre como os leitores vêm (por vezes mal) os contistas.

O Anel de Noivado


imagem daqui: http://www.reception-wedding.com/wedding_rings.htm
Cliente – Olá muito bom dia!
Vendedor – Bom dia! Por acaso deseja alguma coisa?
Cliente – Desejo sim.
Vendedor – Sendo assim, pode dizer o que deseja?
Cliente – Gostava de ver um anel.
Vendedor – Só ver? Não pretende comprar ou alugar?
Cliente – Por acaso gostaria de ver um anel para comprar.
Vendedor – Mas, gostaria de ver, ou gostaria de comprar? É que aqui só vendemos ou alugamos anéis. Não mostramos!
Cliente – Gostaria de comprar.
Vendedor – E que anel gostaria de comprar? Um anel de diamantes? Um anel de ouro de lei?
Cliente – Pretendo comprar um anel de noivado.
Vendedor – De noivado? Para a mão ou para o pé?
Cliente – Para a mão, com certeza. Um anel de noivado tem de ser para a mão.
Vendedor – É que também vendemos anéis para os pés. E pulseiras para os tornozelos. E brincos para o umbigo.
Cliente – Mas eu pretendo um anel de noivado, para a mão direita!
Vendedor – Muito bem. Diga-me então, e para que dedo?
Cliente – Para que dedo?
Vendedor – Sim, para que dedo? Consoante o dedo, assim o tamanho.
Cliente – Não se preocupe, eu sei a medida. E é um anel para o dedo anelar.
Vendedor – Aguarde um momento, vou trazer alguns, para o senhor escolher.
(o Vendedor vai buscar um mostrador de anéis) Ora aqui está! Estes são os anéis de noivado que temos disponíveis.
Cliente – (olha atentamente para os anéis) Desculpe, mas não vou levar nenhum. Não são do agrado da minha noiva.
Vendedor – Ah, mas isso não importa! Eles são todos baratos!
Cliente – Não estou preocupado com o preço. Estou disposto a pagar muito dinheiro, desde que eu saiba que o anel vai ser do agrado da minha noiva.
Vendedor – Digo-lhe, devia levar um anel do seu agrado.
Cliente – Do meu agrado? Mas não é para mim…
Vendedor – Mas é você que vai oferecer! É isso que interessa. Veja lá se gosta de algum destes!
Cliente – Por acaso até há um ou dois que não me desagradam. Mas não são ao gosto dela.
Vendedor – Mas ela também tem a obrigação de lhe agradar. Se você lhe oferecer um anel que ela não goste, ela tem a obrigação de gostar desse anel.
Cliente – A minha noiva não é desse tipo de mulher. Ou gosta ou não gosta! Ela não finge.
Vendedor – E pretende casar com uma senhora assim?
Cliente – Claro, ela é verdadeiramente sincera.
Vendedor – Acredito. Mas uma esposa é melhor que seja mentirosa. Se ela arranjar um amante, conta-lhe logo!
Cliente – A sério? Mas eu não quero que ela me conte!
Vendedor – É o que lhe estou a dizer. Arranje uma noiva mentirosa. Uma sincera conta-lhe tudo, e depois você vê-se obrigado a divorciar-se.
Cliente – O senhor é capaz de ter razão… Um casamento com uma mulher sincera não é um casamento para a vida.
Vendedor – Já nenhum casamento é para a vida!
Cliente – Diga-me então, e que outros anéis me poderia vender?
Vendedor – Tenho ali uns anéis de curso, acho que são indicados para si.
Cliente – Acha? (amanha o colarinho vaidoso). Bem, um anel de curso sempre é para vida. Um anel de noivado já não.
Vendedor – Está a ver? O senhor sabe escolher! Tenho de várias qualidades, preços e feitios. Que prefere?
Cliente – Um dos caros e dos bons! Para não ficar desempregado logo a seguir.
Vendedor – (em segrego) Tenho ali uns excelentes! Emprego garantido. Até já vêm com diploma e tudo!
Cliente – A sério?! E quais são?
Vendedor – Tenho de engenheiro, de médico e de advogado. Mas de médico já só tenho um, e está pelos olhos da cara!
Cliente – Olhe… então talvez seja melhor um de engenheiro, sempre é capaz de ser mais discreto. Também não quero suscitar as invejas.
Vendedor – Acho que tem toda a razão! Os de engenheiro são excelentes! Vou já buscar um. Quere-lo numa caixa ou leva já na mão?
Cliente – Na mão! E levo o canudo debaixo do braço!

Psyco_v82 vs. MetalD

M – MetalD

P – Psyco_v82



M – Nunca tinha vido ao psicólogo.

P –E continuas sem vir. Estás só a falar comigo online.

M – Ergh… Eu sei. Desculpa.

P –Não tens de pedir desculpa.

M – Costumam fazer-te perguntas tontas?

P –Costumam.

                        Silêncio (não se houve ninguém a teclar)

M – Eu prefiro que seja online.

P –Muitos dos vampiros preferem. Eu também prefiro.

M – A sério?

P –Sim. Os vampiros são diferentes dos humanos, não costumam esquecer-se de ninguém. Se me conhecerem pessoalmente vão querer levar a eternidade a falar comigo.

M – Mas és psicóloga. Não gostas de falar com os vampiros?

P –Gosto de tratar de vampiros quando precisam, e à distância. Não gosto que me aborreçam.

M – Não preferias que as consultas fossem presenciais? Não tens vampiros que não sabem ir à internet?

P –Os vampiros adaptam-se bastante bem às mudanças. Se assim não fosse, como poderiam viver eternamente?

M – Sim. Mas tu poderias preferir presencial.

P –Estamos aqui para falar de ti, não de mim. Porque preferes consultas à distância?

M – Ergh… Bem… Sabes… Tenho vergonha…

P –Vergonha? De quê? Um vampiro não deve ter vergonha de nada!

M – Sou um vampiro muito recente, sabes.

P –Compreendo. É uma fase muito difícil. A adaptação à essência de vampiro… Mas não tens de ter vergonha.

M – Sim. Mas não é isso. Eu… ah… Sou um vampiro deste século. Fui transformado há dois anos.

P –Os meus parabéns! Já passaste a pior fase, que é o primeiro ano. Ago que controlas os teus instintos, só tens de te concentrar em aprender o máximo que puderes. Nunca tenhas vergonha de ser recente!

M – Não é isso!... Eu era muito jovem quando fui transformado. Um adolescente. Se calhar ainda o sou.

P –Um vampiro não se mede pela idade que tinha antes de ser transformado, mas pelos anos que passa depois da transformação.

M – É que… A psicóloga não me está a ver, não faz ideia.

P –São borbulhas?

M – Não. Eu tinha aparelho nos dentes…

P –E?

M – Agora não sai!

Azul-Petróleo

Fotografia de Joel Gomes

Anoitecia frio e a falta de luz deveria aumentar o desconforto. As pontas dos dedos não aqueciam por muito que as esfregasse com força uma na outra, e, em alternativa as fizesse entrar nos bolsos das calças, muito justas ao corpo.
Eram os primeiros dias de Inverno e anoitecia cedo. Não gostava da ausência da luz solar, das sombras frias das árvores desnudas, do cansaço precoce, das noites de sono longo. Mas mesmo com todos esses "nãos" deixava-se sempre encantar no azul-petróleo, cor dominante nesses dias. Aparecia no céu, logo nos últimos dias de verão, ao anoitecer. Aos poucos observava-a e via-a tornar-se mais permanente. Não estava só no céu que via das janelas da sua casa. Aparecia mais cedo, quando fazia o caminho de regresso e passava pela velha ponte que encurtava o percurso. Era inverno e o azul-petróleo via-se agora no fim do dia que se escondia no horizonte, para além das casas. Via-se no reflexo do rio, escuro de inverno e escuro da noite.
Estava frio e sem saber porquê aquela cor dava-lhe conforto. Como a luz dos lampiões que o faziam lembrar-se de candeeiros acesos perto do sofá, sobre pequenas mesinhas de chá, ou os reflexos das labaredas da lareira.
Fazia aquele caminho todos os dias e havia modo de, mesmo assim, se continuar a surpreender. E a saber que continuava vivo.

Descobrir o Desconhecido

Ilustração de Rui Alex

O demónio vivia numa floresta densa e escura que, para ele, era o mundo, pois não conhecia mais nada. Não sabia o som de uma cascata, não sabia o calor do sol sobre a pele, não sabia a luz da lua, a brisa nocturna, os pirilampos veraneios. Não sabia o que era uma flor, ou um pássaro. Não sabia o que era uma mulher.
O demónio levou anos em curiosidade sobre o que haveria para além da floresta. Ao contrário dos outros demónios, a densidade e a escuridão da floresta não lhe chegava.
No dia em que decidiu ultrapassar a orla da floresta viu algo que nunca poderia imaginar. Tinha pernas, braços e cabeça semelhante à dele. Mas em vez dos seus chifres tinha uma cascata de cabelos negros que descia, sedosa, até ao rabo. Em vez da carne musculada e vermelha tinha uma pele dourada e membros roliços. No peito havia duas elevações piramidais das quais não conseguia tirar os olhos. Aquele ser tinha uma expressão assustada e violenta ao mesmo tempo, mas os seus olhos e os seus lábios era algo que lhe apetecia lamber como ao mais doce fruto da floresta. Empenhava uma arma, e parecia decidida a matá-lo, mas não sabia que, antes sequer de atirar a lança, o demónio, rápido, a podia destruir. Ele sentia o pénis inchado e duro. Nunca o tinha sentido, nem sabia o que era aquilo, mas sabia que era bom. Não a poderia deixar atirar a lança, não se queria defender dela e destruí-la. Pegou na primeira coisa que viu para lhe oferecer. Era uma folha. Sabia que aquilo não tinha encanto nenhum. Mas era a sua tentativa de lhe dizer que, por ela, se tinha tornado pacífico.

A recriação do mundo

Fotografia de Clarinda Cortes

Cada pinceladela era uma brincadeira, um sonho. Cada figura que desenhava era uma boneca, um cavalo, um unicórnio. Bastava um pincel com um pouco de tinta para que brincasse como se tivesse um milhar de bonecas. Até podia ser um pincel e água, desenhar figuras com que brincava e a se desvaneciam em segundos. Podia ser só um pausinho e a areia da praia. Podiam ser só os seus dedinhos no escuro, à noite, quando deitada na cama. A sua imaginação não parava nunca, e sempre que desenhava recriava um mundo com que brincava. E para ser a criança mais feliz bastava-lhe um pincel e um pouco de tinta.

Nostalgia dos Dias Felizes

Fotografia enviada por Tiago Videira

Olhas para trás, para a infância, é quase como olhar uma utopia. Só que em vez de ser uma utopia imaginada no futuro ou em algum território longínquo e desconhecido, era a realidade passada. A infância tinha esse poder de parecer uma coisa imaginada e impossível quando era uma infância feliz, como tinha sido a sua.
Agora era um adulto feliz, talvez fruto dessa infância. Mas havia sentimentos que eram impossíveis de recuperar. Como a felicidade de, simplesmente, tirar uma fotografia ou comer um rebuçado como se fosse único no mundo. Ou a sensação da sua mão sapuda a sentir-se segura agarrada pela mão áspera da avó. A avó, velha, que também tinha rugas na face que sentia quando as beijava e falta de dentes que a faziam comer de um modo estranho e barulhento. Mas a sua avó não era nada disso para si, não era velha, não tinha uma voz estranha e arrastada pelos falares da serra. Para si a avó tinha sido só a avó. E ele apenas um menino, feliz.

O vôo do Moscardo

Fotografia de Carina Portugal

A aranha subia um móvel de uma casa pronta a fazer a sua teia e tudo aquilo que se pede de uma aranha. Não sabia, por aranha ser, que aquele móvel daquela casa albergava um aparelho de ouvir música, e que aquela música que um humano tinha ordenado tocar era parte de uma ópera de Nikolai Rimsky-Korsakov. Sorte a da aranha, não por não saber nada disto, mas pelo humano não a ter visto, pois nesse momento a sua vida teria perecido e não teriam tido lugar as sensações que a música lhe haveria ditado.
Enquanto a música tocava ela já não era uma aranha. Também não era bem uma mosca. Era uma pessoa, a quem lhe cresceram asas. Deixou de se alimentar como as pessoas e a cada momento diminuía de tamanho. Quanto mais pequena mais rápida ficava, até que a sua família se fartou de tudo aquilo e a fechou numa arrecadação. Mas ainda pensava como uma pessoa.
A música terminou. A aranha continuou a subir o móvel, até que o humano a visse. Nunca saberia que um dia escreveram uma história muito parecida com aquela.

Agrilhoada

Ilustração de Ana C. Nunes

À noite, quando se deitava no escuro do seu quarto, sabia-se agrilhoada, apesar de não ter amarras visíveis. Apesar de não ter correntes nos pés, era assim que se sentia. Não tinha marido, não tinha pai, mas sentia que era  o poder masculino que a agrilhoava, exercido por homens e, inclusive, por outras mulheres. Cada sapato de salto alto era uma chicotada. Cada passagem de rímel pelos olhos era outra. Cada copo de wiskey que bebia, na sua casa, à noite. A face erguida, mesmo nos dias maus, o cansaço que sentia à noite.
Sentia-se louca por tudo isto, pelo preço que estava a pagar, nem sabia pelo quê.
A sua vontade era de correr sobre campos verdejantes, nua como uma selvagem, Mas não sabia o caminho para aquele local.

O cinema imaginado

Ilustração de Camie C. M. Elias

Gosto de imaginar o cinema onde não iria sozinho. Diferente daquele onde costumo ir, um prédio alto, de traçado antigo, onde filmes negros só passam depois do sol se pôr, depois da cidade começar a ficar vazia de pessoas com vida, dando lugar aos solitários, como eu.
Gosto de imaginar um cinema onde gostaria de te levar, memória dos meus sonhos. Um cinema em campo aberto, onde poderíamos ver muitas comédias em tardes frescas de primavera, onde te poderia passar o braço pelos ombros e beijar as tuas madeixas.
Vi-te um destes dias. Passaste a passadeira à pressa, olhando sempre para trás, assustada. Não me viste e passei mais uma noite sozinho.

Podia ser só o amor

Ilustração de Cláudia Banza

Podia ser só o amor, ou podia não ser. Poderia ser só um sonho. Poderia ser apenas um homem e uma mulher que se amassem, mas havia algo de impossível nisto tudo, tendo em conta que o cabelo dela parecia flutuar.
Não era um pormenor de somenos, pois os cabelos não flutuam. Era sem dúvida a prova da sua loucura. Mais uma. Como os cavalos alados que se encontravam a pastar junto ao parque das crianças. Sabia que aquela mulher de cabelo flutuante não existia, que era fruto da sua mente louca. Mas no fundo não queria saber disso para nada. Essa informação só servia para que soubesse que não poderia falar daquela mulher a ninguém. Assim como não podia falar dos cavalos alados ou dos pássaros mordedores. (Também havia uns pássaros mordedores). Ou então ainda poderia ir parar ao hospício.
E no hospício sabia que aquela mulher de cabelo flutuante nunca iria aparecer.
Interessava-lhe apenas quando a encontrava. Os seus lábios delicados que deixava beijar. Do seu olhar meigo, do seu corpo tenro. Poucas palavras trocavam, mas sabia que se amavam. E havia muitas carícias, e muito sexo. Em todos os lugares. Já tinha sido em sua casa, mas também no cinema, no comboio, no elevador...
Que interessava agora que estivesse louco e que a mulher de cabelos flutuantes fizesse parte da sua demência? O que interessava mesmo era que se amavam.

o Fotógrafo

Fotografia de Gina Granjeia

Foi fotógrafo por passatempo. Tinha comprado uma máquina razoável e lido umas coisas na internet sobre fotografia: para que as fotografias não parecessem assim tão amadoras quanto isso. Resolvera que se haveria de concentrar a fotografar nos dizeres que as pessoas grafitavam nos muros. Na sua maioria eram palavras de ordem política, as suas preferidas. Havia por vezes declarações amorosas, demasiado parecidas umas às outras. E os dizeres filosóficos de taxista. Mas raros eram os poemas, normalmente escolhidos entre o leque de autores do cânone antes de serem abandonados numa parede.
"Eu não quero viver, e tu?" - encontrou uma vez escrito no muro de uma escola. Era grave o que estava a ler, naquele local. A probabilidade de ser um adolescente deprimido e desesperado a ter escrito aquilo era alta. Sentiu que tinha de fazer alguma coisa, apesar disso se querer escorrer pelos seus dedos. A escola era grande, deveria ter centenas de alunos e não conhecia ali ninguém. Dirigiu-se ao portão de entrada e falou com um funcionário:
-Esses miúdos só o que fazem é estragar. Se souber quem foi mando-o limpar a parede.
Insistiu, que era um grito de alerta. Que um jovem poderia estar prestes a suicidar-se. Mas o funcionário só se interessava pela sugidade na parede.
- Pode-me dar a sua identificação? - Perguntou-lhe. Ele era um intruso na escola, estavam já a tratá-lo como suspeito de querer fazer algum dano àquela comunidade. Lá deixou que lhe tirassem fotocópia da sua identificação. Nunca passou lá perto. Sabia-se lá o que poderiam imaginar? Nunca mais tirou fotografias.


14 Imagens 14 Histórias



14 Imagens, 14 Histórias tem sido uma rubrica deste blog para 2014, com objectivo de promover o conto curto.
Por enquanto chegámos às 9 histórias, com a recente (e com um equívoco pelo meio) particiação, O Fotógrafo. Será que há por aí ainda 5 alminhas penadas a querer participar?

Deixo aqui as participações (link para os textos nas imagens!)

http://www.olindapgil.com/2014/03/descobrir-o-desconhecido.html http://www.olindapgil.com/2014/04/o-voo-do-moscardo.html 
http://www.olindapgil.com/2014/04/agrilhoada.html
http://www.olindapgil.com/2014/04/a-recriacao-do-mundo.html


http://www.olindapgil.com/2014/04/podia-ser-so-o-amor.htmlhttp://www.olindapgil.com/2014/04/o-cinema-imaginado.html



























Dieta Neolítica



Nos tempos antigos, na altura em que os grandes caçadores se tornaram pastores e os últimos recolectores agricultores, houve um grupo de pessoas que decidiu criar uma dieta a partir de pedras.
A primeira parte do grupo desistiu depois de partir os dentes. A segunda parte morreu de fome.
Nem te vejo a verdade

És belo pelo que penso ver em ti

As tuas verdades são as que contas e eu acredito

Só tenho o que me estás a dar
Só amo o que me deixas amar

Ter as minhas mãos cheias de ti,
Sei que é apenas uma ilusão.

Digo agora que impregnas o meu olhar em tudo
O que vejo e o meu entendimento
Em tudo o que penso e dirão os outros,
Certos que estou apaixonada por ti.
E transformei este poema num poema de amor.
Acabou-se a teoria, a universalidade, a eternidade.
Será mais um poema de amor malfeito.
Mas não é.
Recorrente, retórico, estilístico
Contém a verdade e eu amo-te mesmo!