Opinião: "O ano da dançarina" de Carla M. Soares


Apesar de ser o mesmo registo que noutros livros da autora, neste há uma grande diferença: a perspetiva masculina, em vez da feminina a que a autora nos habituou, o que nos permitiu observar uma época da história numa perspetiva muito vivencial: porque afinal eram os homens que ia
às putas e às guerras, verdade seja dita. Mas em tanta personagem feminina da Carla, que têm vindo a aumentar o seu empoderamento, fica-nos agora um sabor a pouco. A Bernarda e a Cecília são excelentes, mas senti falta das histórias delas, da perspetiva delas, do pensamento delas: quem sabe numa outra obra?
E sabendo como se relacionam estas personagens com as de "O Cavalheiro Inglês", senti também tanta falta do atrevido mas doce, politicamente incorreto, de índole duvidosa mas eternamente bom inglês. Mas isso é um defeito meu, esta predileção por personagens perdidas.

Espiga


Foto cortesia de Vera Lúcia Cara-Roxa
Ficava sempre triste, quando em Lisboa saía de casa distraída e completamente alheia do dia que era. Acontecia-me todos os anos. Era dia da espiga e só me apercebia quando via na rua raminhos à venda. Ficava sempre triste e desiludida comigo por não me ter apercebido da proximidade da data, que nunca me falhava no Alentejo. A verdade é que na cidade, e tão concentrada no que por lá andava a fazer, acabei por me afastar do ritmo natural de tudo, até do meu. E só havia datas que não me falhavam porque já estavam tão envolvidas em consumismo que dois meses antes já havia montras decoradas com o tema. Como no Natal.
De volta ao Alentejo o dia da espiga nunca mais foi esquecido.
Também em Lisboa tentava perceber que dia era aquele, para além dos ditames cristãos. Dia tão belo, em tudo tão pagão, um vestígio ainda não transformado com a nossa contemporaneidade urbana e capitalista. Não havia livro que me respondesse à questão. É muito menos páginas web na altura. Só temas celtas, nórdicos. Não podiam nunca responder a algo tão genuíno e português.
Mais tarde acabei por perceber, tirando um pouco daqui e um pouco dali. Outras leituras talvez me tivessem respondido, mas não tinha orientação para lá chegar.
No meio de tudo isto descobri na biblioteca da Faculdade uma edição fac-similada das "Regiões da Lusitânia" do Leite de Vasconcelos, que me fez andar a escrever com ph durante uns tempos. Foi água que me matou sede: apesar de já estar tão ultrapassado - felizmente. Mas não deixo de recordar esse livro com carinho.

Armas

https://www.pexels.com/photo/gun-metal-barrel-34552/

Detestava armas. Ela, que fora ativista contra o armamento via-se agora obrigada a pegar numa arma. Toda a gente deixara de ser o que era. A fome obrigara-a a deixar de ser vegetariana e a matar animais para comer.
A primeira coisa que fazia quando chegava ao esconderijo era largar a arma. Sabia que não o devia fazer, que toda a gente dormia com uma arma debaixo da almofada. Escondia-se ali havia 20 anos. O excesso de confiança e o horror às armas levavam-na a largá-las mal se sentia à vontade.
Foi por isso que morreu. Não tinha a arma perto de si para se defender quando entraram no esconderijo.

1-8-2012

Mat_


Mat_
Há tantos, tantos séculos que amamento o meu bebé, descansada e no silêncio, que até me esqueço do tempo que passou. Enquanto amamento, olho para dentro de mim, bem lá no fundo. Seria tão bom que mulheres e homens pudessem olhar para dentro de si em vez de se matarem uns aos outros, tantas vezes em nome daquilo que eu não sou.
Continuo no coração de homens e de mulheres todos os dias, assumindo as formas e as palavras que julgo melhor entenderem. Quantas vezes lhes apareci, mas cegos não me vêm e surdos não me ouvem. E continuam a matar-se.
Eu continuo a amamentar o meu bebé, porque contra isso nada podem fazer. Se parassem, se rezassem, se meditassem... como tantas vezes lhes digo, talvez entendessem que isso servisse para pararem de matar. [Olinda Pina Gil, 13/Maio/2017]

Outono

Imagens do google

O dourado da luz chegou este ano mais cedo. O sol ainda me aquece como em todos os meus outonos. A natureza é generosa, mas avisa-me da proximidade do ocaso. Ensina-me que o ocaso pode ser agradável se eu tiver para colher aquilo que antes plantei. Agradeço todas as dádivas da minha vida e preparo-me para a ibernação de inverno. É de inverno que escrevo mais e melhor. Enquanto o meu filho dorme e um grilo canta lá fora.

Flames: o teu FLAMES no ano

Podem ver aqui esta espécie de entrevista.

2016 foi um ano repleto de surpresas. Por ter sido um ano fora do comum, acreditamos que ainda vamos ouvir falar nele bastante em 2017. No FLAMES queremos fazer o mesmo. De um ano que tanta gente apelidou de um dos piores na história da humanidade, nós queremos retirar o que de melhor houve. Assim nasce a rubrica "O teu FLAMES num ano"


Olinda Gil
2016

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Filmes: Star Wars VII – O despertar da força… (reviver de memórias antigas)
Livros: O quadro da mulher sentada a olhar para o ar com cara de parva (de Luís Afonso, com um conto, “O Operário” dos melhores que já li até hoje); Esse Cabelo (Djaimilia Pereira de Almeida); Lavínia (Ursula LeGuin); A deusa no jardim das Hespérides, de Luíza Frazão (ed. Autor) que aconselho a todas as mulheres lerem!
Animes:
Mangas:
Eventos, espetáculos e/ou entretenimento:
Séries: Guerra dos Tronos e Ficheiros Secretos!

Boletim Municipal de Aljustrel nº 239