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Percorri uma estrada ao sabor da manhã, no sentido de um destino perdido no meio do horizonte, longe, mas perto, como todos os locais no Alentejo.
Liguei o rádio, que rugiu porque me tinha esquecido da antena, apenas a apanhar o RCP. Sem problema: é uma das minhas estações preferidas.
Ah, mas soube-me bem o Sol a aquecer através dos vidros (estava frio do lado de fora). Percorri a estrada ladeada de estevas ainda por florir, e os campos cromáticos, dos primeiros verdes das chuvas tardias, junto com os amarelos-palha desbotados pela seca, as envergonhadas margaridas, flores talvez mais resistentes. As pedras da força deste espaço, os tímidos regatos a borbulharem.
Parei. Desliguei o rádio. Abri o vidro para poder ouvir os sons dos pássaros.
Depois prossegui. Pela estrada de estevas a encontrar os pastores que me cumprimentavam sem me conhecerem de lado nenhum. Eu buzinava à sua solitária e idílica profissão, e por fim dei uma gargalhada à Janis Joplin. Talvez por causa da música.
Ou talvez porque estava a gostar muito da viagem.
E fiquei pensando nos pastores. Talvez um dia fale da profissão-sonho dos poetas.