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CrossRoad


in http://olhares.aeiou.pt/madalenapercheiro
Percorri uma estrada ao sabor da manhã, no sentido de um destino perdido no meio do horizonte, longe, mas perto, como todos os locais no Alentejo.
Liguei o rádio, que rugiu porque me tinha esquecido da antena, apenas a apanhar o RCP. Sem problema: é uma das minhas estações preferidas.

Ah, mas soube-me bem o Sol a aquecer através dos vidros (estava frio do lado de fora). Percorri a estrada ladeada de estevas ainda por florir, e os campos cromáticos, dos primeiros verdes das chuvas tardias, junto com os amarelos-palha desbotados pela seca, as envergonhadas margaridas, flores talvez mais resistentes. As pedras da força deste espaço, os tímidos regatos a borbulharem.
Parei. Desliguei o rádio. Abri o vidro para poder ouvir os sons dos pássaros.
Depois prossegui. Pela estrada de estevas a encontrar os pastores que me cumprimentavam sem me conhecerem de lado nenhum. Eu buzinava à sua solitária e idílica profissão, e por fim dei uma gargalhada à Janis Joplin. Talvez por causa da música.
Ou talvez porque estava a gostar muito da viagem.
E fiquei pensando nos pastores. Talvez um dia fale da profissão-sonho dos poetas.

O Silêncio




in http://olhares.aeiou.pt/jdematos

Ouço agora o barulho provocado pela vibração causada pela brisa a bater nas minhas orelhas.
Vejam o silêncio quase absoluto que aqui existe, para eu ouvir o que conto que estou a ouvir.
Aproveito o prazer nos sons ténues, tão caro é ouvi-los. Os meus ouvidos vivem ofuscados no barulho na cidade (não me queixo, gosto dele), mas foram educados no silêncio. Aproveito o conhecimento adquirido dessa oportunidade para distinguir os sons que ouço.
Dizem que quem é educado no silêncio é capaz de ouvir mais.
Já estou aqui há um momento, enquanto escrevo. Logo que desci do comboio fiquei fascinada pelo silêncio. Agora pareço já habituada, e deixo de estranhar. O som dos pássaros numa árvore torna-se infernal. Infernalmente aprazível.
De vez a vez ouço ao longe o batucar dum martelo.
Foi um som a que me habituei no silêncio. O eco que o martelar faz ao longe. No meio do silêncio e da paz alguém trabalha. Daqui far-se-ia uma história de um camponês solitário.
De repente os meus ouvidos são magoados. O altifalante anuncia a chegada do comboio vindo do Algarve, daí a 10 minutos. Aposto que feriu o vale todo. Ao contrário do martelar.
Silêncio de novo. Ouço um telefone. Daqueles pretos antigos, anos 70. Lembro-me das reminiscências de um filme qualquer.
O som do telefone parece-me condizer com tudo. Dá-me prazer. Eu nem sei porquê.

Um Sobreiro na Minha Rua




in http://olhares.aeiou.pt/nfbc
Passeava pela rua, nos primeiros dias de estadia no novo sítio: exploração de terrenos. Novos caminhos. Novas vistas. Onde é a mercearia? E a farmácia? Qual o caminho mais perto? Ali é o cinema? Ah, uma escola!
As crianças balburdiavam no recreio, jeito de crianças que brincam felizes. Aquele burburinho saudável que nos recorda momentos felizes da infância. Ia a olhar para elas, revendo-me em cada gesto quinze anos antes, quando sinto que os meus pés pisam algo duro e escorregadio. Pequeno, jeito de baga. Olho para o chão: qual o meu espanto quando vejo montes de bolotas, ainda verdes, talvez caídas pelo vento, espalhadas pelo chão. Elas só poderiam vir de um sítio.
Olhei para cima e vi qual a sombra que me amainava o espírito. Os braços enormes de um sobreiro protegiam o meu frágil ser alentejano em diáspora, qual ventre da terra mãe. Bendita arvore sagrada.
Ali, na minha rua, a fazer-me lembrar que no mundo há mais que a realidade, os horários e o estudo. Há momentos de sonho, surpresa, em que se ouve a infância a invadir-nos, debaixo de um sobreiro, viajando por momentos no tempo e no espaço, voltando de novo para o pátio da escola que foi a minha.

Dourados Alentejanos




in http://olhares.aeiou.pt/galeria-pessoal/31536

Não só porque é Outono. Final de Outono. Temos a ideia feita das folhas das árvores a cair. Ideia dada por filmes americanos.
No Alentejo caem as folhas das figueiras. Grandes e rápidas. Caem as folhas das videiras, que antes de morrer tingem de tinto as encostas.
Ou então perto das ribeiras, os carvalhos e plátanos ficam dourados, e transformam em lugares românticos o que há uns meses era um ribeiro seco.
Nas nossas vilas e pequenas cidades, principalmente em escolas, praças e lugares públicos ajardinados é costume ver-se plátanos, que por estas alturas se desnudam.
Não só porque é Outono, final de Outono. Noutros países é a altura da neve começar a cair. Por cá, só este fim-de-semana dei por uma queda abrupta das folhas.
De manhã cedo acordei e fui até à Gulbenkian. Quando entrei no jardim havia pouco que se havia começado a limpar as folhas caídas. A humidade exaltava, e eu ficava feliz, pisando as folhas, aos milhares, construindo um tapete dourado aos meus pés.
E lembro-me de recordações. Muito antigo antigas para a minha juventude: a  represa, antes de ter sido remodelada, era assim, repleta de folhas secas, que satisfaziam com a alegria as minhas botas que as teimavam em lançar ao ar. Ou então, o dourado da minha felicidade, junto ao Liceu. Por pura e simplesmente estar junto da minha mãe, e achar que todas aquelas folhas só poderiam ser a coisa mais bela que existia. E que eu era a menina mais feliz do mundo só porque estava ali.
De resto, Outono no Alentejo, para mim é sinónimo dos primeiros verdes, que surgem tímidos debaixo das folhas já castanhas da humidade.
De resto, o dourado é uma cor de Verão.

Comboio do Sado




in http://www.arteflow.org/pintura/angelo/angeloini.html

Manhã matina. Avanço no badalar suave do comboio intercidades Lisboa-Faro, até ao bar. Tomar um café para vencer o sono. Beber uma água, abrir as páginas de um livro, mas antes de o ler, entregar as pálpebras cerradas ao afago da luz solar.
Ler no comboio é um prazer infindável, sobretudo, quando esse comboio nos leva de regresso ao Alentejo, a uns dias de descanso. Há todo um sentimento de paz e de calma: esperam-me um fim-de-semana de um nada que fazer.
Mas hoje a viagem deveria ser dedicada à escrita: percebi-o após a meiguice quente do Sol, quando descerro os olhos e vejo o Vale do Sado a amanhecer.
Soube, que até chegar a Alcácer, a viagem seria entre o papel e a contemplação dos arrozais, dos seus secos restos do longínquo verão, das suas aves de voos elegantes, do brilho da água repousante.
Só depois a viagem, e a leitura continuaram.